Por que estamos tão cansados? Especialistas explicam o esgotamento da vida moderna

Excesso de trabalho, hiperconectividade e pressão por produtividade ajudam a entender a sensação constante de exaustão física e emocional

19.02.202610h45 Bruno Carvalho

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Por que estamos tão cansados? Especialistas explicam o esgotamento da vida moderna

Nunca se falou tanto em cansaço. Mesmo pessoas que dormem “bem” ou não realizam atividades físicas intensas relatam falta de energia, dificuldade de concentração e a sensação de estarem sempre no limite. No mês do Janeiro Branco, campanha dedicada à conscientização sobre saúde mental, o debate ganhou ainda mais relevância: por que estamos tão exaustos?

Para especialistas, o fenômeno é multifatorial e reflete o modo de vida contemporâneo, marcado por jornadas extensas, excesso de estímulos digitais, hiperconectividade e a cultura da produtividade constante.

Burnout: quando o trabalho deixa de ser apenas trabalho

Entre as explicações mais recorrentes está a Síndrome de Burnout, reconhecida como um distúrbio ocupacional relacionado ao trabalho.

De acordo com o doutor Luiz Antônio Sá, professor de Clínica Médica, Geriatria e Gerontologia da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR), o burnout é “um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade”.

Segundo ele, a principal causa da doença é o excesso de trabalho, sobretudo quando há esforço físico, mental ou emocional contínuo, seguido de poucos momentos de descanso ou descontração. “A pessoa acaba sendo levada ao seu limite, físico e/ou emocional, sentindo-se extremamente cansada, desmotivada e esgotada”, explica.

O médico destaca três características centrais da síndrome: exaustão emocional, com esgotamento da energia diante das demandas; despersonalização, marcada por cinismo e distanciamento emocional; e redução da realização pessoal, com sensação de baixa eficácia e autoestima.

Os impactos aparecem no rendimento profissional, na motivação e no foco, além de irritabilidade e impaciência acentuadas. Em casos mais graves, podem surgir sintomas como distúrbios do sono, ansiedade, isolamento e queda da imunidade.

Embora qualquer profissional esteja suscetível, Luiz Antônio observa maior incidência entre mulheres jovens que acumulam jornada dupla ou tripla, profissionais que levam trabalho para casa e pessoas com perfil workaholic. Profissionais da saúde também estão entre os mais atingidos, devido à carga horária extensa, múltiplos vínculos empregatícios e contato constante com dor e sofrimento.

Ele ressalta a diferença entre estresse e burnout: “o estresse é uma resposta do organismo diante de uma situação adversa e pode ser passageiro. Já no burnout a pessoa se sente estressada e sobrecarregada por muito tempo e o tempo todo, mesmo quando não seria necessário estar tão ligada e ativa”.

Quando o corpo descansa, mas a mente não

Para a psicóloga Sílvia Castro, do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM), o esgotamento atual é também resultado de um funcionamento mental em estado permanente de alerta.

“Vivemos na era do esgotamento silencioso. Nunca estivemos tão conectados, produtivos e ocupados e, paradoxalmente, tão cansados. É um cansaço que não se resolve apenas com uma boa noite de sono. O corpo deita, mas a mente permanece em alerta”, explica.

Segundo a psicóloga, a mente humana não foi projetada para operar sob urgência constante. Quando esse ritmo se prolonga, instala-se uma fadiga emocional que se infiltra no cotidiano: falta de energia, dificuldade de concentração, irritabilidade e a sensação persistente de estar sempre no limite.

Ela reforça a importância de diferenciar o cansaço natural de quadros mais profundos. O cansaço comum melhora com descanso e lazer. O estresse prolongado surge quando a pressão se torna crônica. Já o burnout representa um estágio mais grave, com exaustão intensa, distanciamento emocional e perda de sentido nas atividades, especialmente no trabalho.

Hiperconectividade e excesso de estímulos

Outro fator decisivo é a hiperconectividade. Notificações constantes, excesso de informações e redes sociais mantêm o cérebro em estado de sobrecarga. “A dificuldade de se desconectar mantém o cérebro em alerta permanente”, explica Sílvia.

Nas grandes cidades, esse cenário é agravado pela rotina acelerada, deslocamentos longos, trânsito, barulho e pouco tempo livre. A cultura do desempenho e da urgência reduz os espaços de pausa, silêncio e recuperação psíquica, elementos essenciais para a saúde mental.

O resultado é a sensação de nunca descansar de verdade. Mesmo nos momentos de lazer, muitos permanecem conectados ao trabalho ou às demandas digitais.

O corpo sente o que a mente acumula

O esgotamento emocional não fica restrito ao campo psicológico. Ele se manifesta fisicamente, com fadiga persistente, dores musculares, alterações no sono, irritabilidade e queda da imunidade.

Entre os sintomas associados ao burnout, o doutor Luiz Antônio Sá destaca ainda oscilações de humor, ataques de ansiedade, dificuldades de memória, perda de prazer em atividades antes satisfatórias e redução da libido.

A orientação é buscar ajuda médica ou psicológica quando a exaustão se torna constante, interfere no desempenho profissional e nas relações pessoais, ou vem acompanhada de sintomas físicos e emocionais intensos.

Caminhos possíveis: reorganizar ritmos e limites

Embora o cenário pareça desafiador, os especialistas apontam caminhos de prevenção e cuidado.

No campo médico, recomenda-se prática regular de exercícios físicos, alimentação adequada, sono reparador e uso efetivo de férias e folgas. Estabelecer horários de entrada e saída do trabalho, evitar levar tarefas para casa e definir metas realistas também são medidas importantes.

Atividades de lazer, hobbies, cultivo de relações saudáveis e práticas como meditação, espiritualidade ou yoga ajudam a reduzir o nível de estresse.

Do ponto de vista psicológico, o primeiro passo é reconhecer o limite. “Sentir-se esgotado não é fraqueza; é, muitas vezes, um sinal de que algo precisa ser reorganizado”, afirma Sílvia Castro. “Cuidar da saúde mental implica rever ritmos, estabelecer limites e reconhecer que descanso não é luxo, é necessidade.”

Se o cansaço se tornou constante, talvez não seja apenas falta de energia, mas um chamado urgente para o cuidado.