Nos últimos anos, a popularização dos modelos de inteligência artificial (IA) generativa tem causado impactos cada vez mais perceptíveis no mundo profissional. Em março deste ano, a Anthropic, empresa estadunidense responsável por um dos mais importantes Large Language Models (LLMs) da atualidade, divulgou uma pesquisa sobre os efeitos da IA no mercado de trabalho e os dados apresentados são relevantes para auxiliar as instituições de ensino superior na identificação de um caminho a seguir.
Em artigo sobre a pesquisa da Anthropic, a Revista Forbes expôs que as profissões menos expostas à presença da IA, em sua maioria, são as que lidam cotidianamente com cuidado e contato humano diretos, trabalho manual, julgamento e pensamento crítico. Alguns exemplos são: enfermagem, carpintaria, operações de produção, logística e gastronomia. Por outro lado, campos relacionados à tecnologia e ao ambiente digital têm passado por transformações mais aceleradas, com a incorporação crescente de ferramentas de IA. Esse cenário indica a necessária reconfiguração das competências formativas, tendo em vista a adequação às novas demandas profissionais.
A diferença da exposição entre as profissões pode ser também observada em um artigo com dados sobre 3.801 universitários estadunidenses entre 18 e 59 anos. O levantamento foi feito em outubro de 2025 pela Gallup, empresa global de pesquisa, consultoria e análise de comportamento humano, em conjunto com a Lumina Foundation, fundação focada em expandir o acesso ao ensino superior. Entre os entrevistados, 16% dos estudantes afirmam ter mudado de curso devido à influência da IA no mercado de trabalho, enquanto 47% dizem já ter considerado seriamente essa possibilidade. Paralelamente, o levantamento também separou os dados por áreas de atuação: 70% dos alunos da esfera de tecnologia relatam ter cogitado muitas vezes trocar de curso devido ao impacto da IA em sua área, ao passo que apenas 34% dos discentes do ramo da saúde comunicam o mesmo, cenário que dialoga com a pesquisa da Anthropic. Ainda, três em cada dez estudantes estão preocupados se suas faculdades estão ensinando como lidar com a IA.
Além disso, relatório divulgado em julho de 2025 pelo Burning Glass Institute revela informações sobre transformações recentes no mercado de trabalho relacionadas ao avanço da IA. A pesquisa foi conduzida com dados do Bureau of Labor Statistics (BLS), principal agência governamental de dados relacionados a trabalho dos Estados Unidos, e evidencia a importância da atualização constante das competências profissionais diante das mudanças tecnológicas.
Contudo, a revista Exame destaca que o cenário apresentado pela pesquisa da Anthropic não significa necessariamente uma fuga generalizada, e sim uma realocação dentro das áreas do conhecimento. Um exemplo disso é a área da tecnologia, em que o interesse na programação tradicional diminuiu, enquanto no campo do desenvolvimento de inteligências artificiais aumentou. Essas mudanças não devem ser interpretadas como um desestímulo, mas como um indicativo de reconfiguração das competências demandadas, sinalizando a necessidade de atualização contínua e de incorporação de novas ferramentas e abordagens por parte das universidades.
Em pronunciamento, o economista e reitor de negócios globais da Universidade de Tufts, Bhaskar Chakravorti, afirmou que: “Os trabalhos do futuro serão obtidos por aqueles com uma combinação de expertise técnica e prática, habilidades de pensamento crítico para julgamento humano, conhecimento de IA e de como usá-la”. Tal perspectiva pode auxiliar na construção de ideias em direção a um futuro sustentável para as universidades, mesmo em um mundo em que tecnologias de IA generativa fazem parte do cotidiano.
Redirecionando a atenção para o Brasil, segundo estudo publicado em janeiro de 2026 pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRES), de um total de 100,5 milhões de brasileiros que compõem a população ocupada do país, cerca de 29,8 milhões, ou 30%, estão expostos à IA. As estatísticas também indicam que o grau de exposição é crescente em relação ao nível de escolaridade.
Sendo assim, o artigo do FGV IBRES afirma que o investimento em ensino de estatística, habilidades digitais, resolução de problemas, comunicação e trabalho em equipe são fundamentais para a área da educação. Portanto, torna-se necessário repensar as oportunidades de aprendizagem oferecidas nos cursos de ensino superior, visando o alinhamento com as demandas técnicas e por competências transversais atuais do setor profissional.
Para ler na íntegra a pesquisa da Anthropic, acesse: https://www.anthropic.com/research/labor-market-impacts
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