Em um momento em que os minerais críticos e estratégicos deixaram de ser apenas um tema técnico da mineração para ocupar o centro da geopolítica global, a Missão Brasil-Reino Unido sobre Minerais Estratégicos, Defesa e Transição Energética, realizada em 4 de junho de 2026, na University College London (UCL), ganha relevância além da agenda acadêmica.
O encontro, liderado pelo Centro Mackenzie de Políticas de Integridade (Mack Integridade), do Instituto Presbiteriano Mackenzie (IPM), aproxima universidade, setor público, diplomacia e mercado em torno de uma questão decisiva para o futuro do Brasil: como transformar potencial geológico em capacidade industrial, segurança regulatória e protagonismo internacional. A agenda em Londres incluiu reuniões institucionais na UCL, interlocução com a Embaixada do Brasil no Reino Unido e visita à International Maritime Organization (IMO), ampliando o debate para os campos da governança, do comércio e da segurança das cadeias globais de suprimento.
À frente da iniciativa, a professora Cácia Pimentel, coordenadora-geral do Mack Integridade, foi recebida pelo professor Armando Castro, diretor do UCL Centre for Sustainable Governance and Law. O encontro simboliza a atuação da Academia na formulação de políticas públicas. Além da mineração, o debate inclui governança sustentável, modelos regulatórios, integridade institucional e instrumentos jurídicos capazes de dar escala e previsibilidade a um setor que exige investimento intensivo e maturação de longo prazo.
A coordenadora entregou duas obras no encontro, incluindo o livro “Reforma Tributária: Caminhos e Perspectivas”, o que reforça o elo intelectual em um momento em que centros internacionais vêm incorporando com mais força os temas de ESG, segurança de suprimento e regulação estratégica em suas agendas de pesquisa.
O debate brasileiro e britânico
O timing do encontro é relevante porque o Brasil atravessa uma fase de reorganização de sua política mineral. Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do PL 2780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), cria instrumentos de governança para o setor e prevê incentivos como prioridade de licenciamento e um Fundo Garantidor da Atividade Mineral com aporte inicial da União de R$ 2 bilhões, podendo chegar a R$ 5 bilhões.
O projeto ainda aguarda apreciação no Senado brasileiro, o que significa que o debate jurídico e político ainda está em andamento. É justamente aí que encontros como o da UCL ganham peso, pois “acontecem quando o país ainda está definindo as bases normativas que orientarão, pelas próximas décadas, o acesso do capital internacional, os modelos contratuais e a estratégia de agregação de valor dentro do território brasileiro”, destaca Cácia.
A discussão é ampla. O Reino Unido vem acelerando sua própria estratégia para reduzir vulnerabilidades no acesso a minerais críticos. Em novembro de 2025, o governo britânico lançou a estratégia Vision 2035, com o objetivo de diversificar fornecedores, fortalecer processamento e reciclagem e reduzir a dependência excessiva de um único país em minerais essenciais. Em fevereiro de 2026, Londres assinou ainda um memorando com os Estados Unidos para ampliar investimentos e resiliência das cadeias de suprimento.
Paralelamente, o Reino Unido consolidou uma rede de parcerias internacionais em minerais críticos, sinalizando que o tema passou a integrar de forma permanente sua política industrial e de segurança econômica.
Nesse cenário, “a aproximação com o Brasil responde a uma necessidade estratégica de diversificação e a uma busca por fornecedores confiáveis, com escala, estabilidade institucional e jurídica, e potencial de processamento local”, pontua a coordenadora do Mack Integridade.
Em março de 2026, Brasil e Reino Unido já haviam ampliado a cooperação em inovação para a cadeia de minerais críticos, em diálogo entre o MME e a Innovate UK, com foco em exploração, processamento, reciclagem e desenvolvimento de novos materiais. Poucos meses antes, em março, os dois países elevaram sua relação à condição de Parceria Estratégica 2026-2030, com pilares que incluem comércio, investimento, segurança, defesa e transição sustentável.
No plano internacional, a pressão por reorganizar as cadeias de minerais críticos aumentou depois de novas turbulências geopolíticas. O G7, em junho de 2025, lançou um Critical Minerals Action Plan para diversificar produção, processamento, manufatura e reciclagem, além de criar mercados baseados em padrões, rastreabilidade e investimento responsável. Ao mesmo tempo, o Parlamento Europeu registrou que as restrições chinesas às exportações de terras raras, introduzidas em ondas em 2025, expuseram a fragilidade das cadeias ocidentais, sobretudo em itens essenciais para defesa, transição verde e tecnologias digitais.
O recado é que não basta ter reservas, é preciso ter contratos, infraestrutura, tecnologia de separação, processamento e confiança regulatória.
O futuro do consumo
É justamente aí que o Brasil aparece com mais força. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o país detém cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras, a segunda maior reserva estimada do mundo, além de posições destacadas em grafita, níquel e nióbio. Ainda assim, a produção brasileira de terras raras segue marginal frente ao potencial, especialmente se comparadas com potências como a China, sobretudo nas etapas de separação e refino.
É interessante pontuar que a demanda por minerais críticos não vem apenas dos veículos elétricos, das baterias ou das turbinas eólicas. A Agência Internacional de Energia (IEA) passou a destacar, em seu relatório de 2025, uma visão mais ampla sobre minerais estratégicos para além da energia, refletindo como digitalização, semicondutores e infraestrutura tecnológica reorganizam o mercado. Isso impacta data centers, redes elétricas e inteligência artificial, reforçando a ideia de uma “segunda onda” estrutural de consumo. O que conecta essa corrida à transição energética e à arquitetura material da economia digital.
Nesse contexto, o encontro promovido pelo Mack Integridade, em Londres, tem mérito por antecipar uma discussão que será cada vez mais pública a respeito do controle de contratos, processamento, financiamento e segurança regulatória, que vai interferir na parte mais valiosa da nova economia mineral.
A agenda que passou pela UCL, pela Embaixada do Brasil no Reino Unido e pela IMO sugere exatamente isso: minerais estratégicos não são apenas uma pauta de minas e energia, mas um assunto de diplomacia, logística, defesa, direito e inserção internacional.








