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O avanço da IA desafia a formação universitária

Rapidez e praticidade atraem cada vez mais estudantes para a ferramenta  

23.02.202616h43 Letícia Chang, sob orientação de Camila Lippi

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O avanço da IA desafia a formação universitária

O uso da Inteligência Artificial (IA) por estudantes ficou cada vez mais comum. A ferramenta atrai diversos alunos devido a sua rapidez e facilidade para formular respostas e o seu forte desempenho pode tanto auxiliar quanto prejudicar o desenvolvimento acadêmico de um indivíduo.  

A professora do curso de Pedagogia, do Centro de Educação, Filosofia e Teologia (CEFT) da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Ana Lúcia de Souza Lopes, explica que a universidade está vivendo uma fase de transformação causada pelo rápido desenvolvimento da IA generativa. Ela evidencia como a Inteligência Artificial permite maior acesso à informação e automatização de processos, entretanto o instrumento escancara as falhas já existentes no sistema educacional. “O desafio, portanto, não é simplesmente incorporar a tecnologia, mas construir uma reflexão pedagógica, ética e epistemológica sobre seus usos”, diz.  

Ana Lúcia argumenta que a universidade é um local onde os conhecimentos são sistematizados e mediados, em que a formação demanda propostas que preparem os estudantes para o mundo. “Recuperar o significado de universidade é essencial”, conta a professora. 

A docente destaca ainda a diminuição da leitura entre os estudantes, por consequência da IA resumir artigos e buscar informações, o hábito vem sendo deixado de lado. Ela ressaltou que a redução da leitura possui impactos profundos na formação acadêmica, pois a prática é como um exercício mental e o desafio atual da universidade é reafirmar o hábito como uma prática formativa central. “Portanto, é um grande desafio recuperar a capacidade de leitura concentrada, profunda e significativa”, expressa.  

Ana Lúcia também salienta a intenção pedagógica em que a Inteligência Artificial é utilizada, pois pode tanto aprofundar a superficialidade quanto ser aplicada como ferramenta formativa. “O elemento decisivo não é a tecnologia em si, mas a intencionalidade pedagógica que orienta seu uso no processo formativo”, finaliza a docente. 

A professora do curso de Letras, do Centro de Comunicação e Letras (CCL) da UPM, Valéria Martins, explica que as ferramentas de IA podem ser utilizadas para incentivar o pensamento crítico. Porém, assim como a professora Ana Lúcia, acredita que é necessário utilizar a ferramenta da maneira correta, a partir do letramento digital. “Nossos alunos precisam ser levados a reconhecer os usos adequados dos recursos de Inteligência Artificial em suas áreas de atuação”, relata. 

Valéria aponta que a Inteligência Artificial pode ampliar o repertório do aluno, pois disponibiliza resultados com links de artigos científicos aprofundados no tema escolhido, o que facilita o desenvolvimento do estudo. “Não estamos falando, nesse caso, de conteúdos criados pela IA, mas sim de um recurso que auxilia na busca mais ágil de conteúdos originais confiáveis. O indispensável, portanto, é saber usar a IA como um mecanismo assertivo de busca”, diz. 

Para estimular o prazer pela leitura nas salas de aula fora das telas, a professora Valéria recomenda que as obras selecionadas possuam conexão com o mundo atual, para que o interesse seja despertado nos alunos. Ela destaca a importância de praticar leituras coletivas com os estudantes, pois a prática pode construir o conhecimento comunitário. “O professor pode mostrar a beleza em cada detalhe dos textos, detalhes que, às vezes, passam despercebidos pela IA”, conta. 

Segundo a professora, a IA e a leitura podem trabalhar juntas, porém ela explica que um conteúdo escrito à mão possui mais detalhes do que um resumido pelo instrumento. Valéria descreve um exercício praticado em sua sala de aula, em que foi pedido que os alunos fizessem um resumo de um texto com suas próprias palavras e a mesma solicitação foi feita a Inteligência Artificial. “Os educandos perceberam que a IA resumiu muito bem o conteúdo central em estudo, mas que detalhes significativos foram ignorados pela ferramenta. Eles perceberam que a leitura na fonte original é imprescindível”, conclui.