O Prêmio Nobel de Literatura de 2026 foi para a escritora canadense Anne Carson. Poeta, ensaísta e tradutora, ela se tornou a 19ª mulher a ser laureada com a maior premiação literária do planeta.
A escolha de Carson se deu pela “obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea", de acordo com o Comitê do Nobel, sediado em Estocolmo, na Suécia.
Para o professor de Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), Cristhiano Mota Aguiar, o grande mérito da canadense está na despreocupação com a delimitação das formas estéticas e dos gêneros literários. Dessa forma, Carson promove, em sua obra, uma renovação da tradição clássica, por meio de uma escrita quase “híbrida”, em que, por exemplo, o ensaio se mistura com a poesia, ou que a poesia assume uma cadência da prosa. “Ela tem uma ‘desrespeitosa’ criatividade quando retoma os clássicos e insere elementos contemporâneos que ressignificam o texto e acentuam dimensões profundas do texto”, aponta o docente.
“A partir de leituras criativas e originais da tradição, ela vai sempre buscar conectar essa tradição com o mundo contemporâneo. Ela sempre pega os gêneros tradicionais literários, da retórica clássica e, de alguma maneira, brinca com eles, desarticula esses gêneros para que eles voltem a fazer jus ao tempo presente dos leitores”, acrescenta Aguiar.
A escrita de Carson, para o docente mackenzista, possui essa característica por conta das múltiplas atuações profissionais, que a deixam em uma “encruzilhada” criativa. Porém, o professor explica que atuação que se sobressai é a de ser uma grande leitora. “Eu acho que todo grande escritor e toda grande escritora é, no fundo, um grande leitor. E no caso de Annie Carson, ela é uma grande leitora porque ela lê principalmente a tradição clássica de maneira profundamente original”, aponta.
Entre as obras mais conhecidas da canadense e publicadas no Brasil está o livro A Autobiografia do Vermelho. Para Cristhiano Aguiar, é um dos mais marcantes, justamente, porque evidencia as maiores qualidades da escritora e se apresenta como um desafio para encaixar em alguma definição teórica. “A hibridez, a criatividade, o experimentalismo da Anne Carson já começam no início, quando a gente olha para o texto e pensa ‘Nossa, mas o que é isso que eu estou lendo?’”, questiona.
Porém, é mais importante a experiência de leitura do que a classificação do livro. Na obra, Carson transporta para a atualidade a história de Gerião, que na tradição clássica, foi um dos monstros gregos exterminados por Hércules durante seus 12 trabalhos.
“No livro, vemos vários personagens do mito grego sendo reconfigurados e sendo reescritos ao longo do poema, em que terão imagens contemporâneas que se misturam com referências ao clássico. A gente tem uma narrativa que claramente se articula como se fosse um romance, mas tem imagens profundamente poéticas”, descreve o mackenzista.
Além disso, Anne Carson também publicou Sobre Aquilo em que Eu Mais Penso e Eros, o Doce-Amargo: Um Ensaio, uma tese de doutorado que quebra toda a estrutura tradicional da escrita acadêmica. “É uma tese cuja estrutura é muito mais um longo ensaio e é um texto magnífico e fascinante”, elogia o professor.
A única crítica do docente mackenzista à escolha do Nobel deste ano se deve por, mais uma vez, o laureado escrever prioritariamente na em inglês. “A língua inglesa tem muita força como língua de literatura e de mercado. Esse é um ‘porém’ que a gente poderia colocar, pois mais uma vez o prêmio vai para uma língua hegemônica, ou melhor, para a língua hegemônica do mercado editorial”, finaliza.


