Petrodólar: Como o domínio da moeda americana molda os conflitos de 2026

Marcelo Cavalcante Faria de Oliveira, professor em Direito Político e Econômico da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

09.02.202615h29 Comunicação - Marketing Mackenzie

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Petrodólar: Como o domínio da moeda americana molda os conflitos de 2026

A moeda estadunidense deixou de ser apenas um meio de troca para se tornar uma ferramenta de governança global, desde o acordo de Bretton Woods em 1944, que coroou o dólar como a âncora do sistema internacional. Mesmo após a ruptura do padrão-ouro na década de 1970, os Estados Unidos conseguiram transmutar sua hegemonia através do sistema do petrodólar, vinculando a moeda à commodity mais essencial do planeta: a energia. Este arranjo criou uma dependência estrutural que obriga nações a acumularem reservas em dólar, financiando, indiretamente, a economia e a presença militar norte-americana ao redor do globo. No entanto, o que observamos hoje é uma contestação crescente a esse modelo.

Abaixo, detalhamos como essa ordem reage aos novos desafios geopolíticos e à nova corrida tecnológica que define o século XXI:

Desafios ao sistema e a resposta imperialista

Historicamente, tentativas de vender petróleo fora do dólar foram contidas com força. Lembrar-se os casos de Saddam Hussein, no Iraque, e Muammar Gaddafi, na Líbia, que se apresentam como paradigmáticos: ambos propuseram alternativas monetárias ao petrodólar e sofreram intervenções militares que resultaram em mudança de regime em seus respectivos países. Um padrão de resposta se delineia, no qual desafios monetários são tratados como ameaças à segurança nacional dos EUA, justificando ações que transcendem à retórica econômica.

Em confirmação ao que aqui se descreve, é de fácil constatação o que se depreende das ações e declarações do atual governo dos EUA, notadamente neste início do ano de 2026, quando busca justificar a implementação de suas ações econômicas e militares, não apresentando, na realidade, o que intencionalmente deseja, ou seja, que não ocorram ameaças à plena soberania que unilateralmente entende os EUA possuir, independentemente de limites geopolíticos.

Atualmente, a Venezuela exemplifica esse confronto. Com cerca de 70% de seu petróleo exportado para a China, majoritariamente em yuans ou através de canais financeiros alternativos que contornam o dólar, o país tem sido alvo de sanções econômicas severas, congelamento de ativos e apoio a forças oposicionistas, desaguando na captura do Presidente Maduro e sua esposa, ao argumento de que eles teriam que responder criminalmente nos EUA pelas imputações que este Estado nacional os direciona, inobservando, para tanto, qualquer tipo de direito internacional vigente, reação estadunidense que se insere em uma lógica mais ampla de proteção do status quo monetário, evidenciando a dimensão imperialista de sua política externa.

Neste contexto, o imperialismo é compreendido não apenas como expansão territorial direta, mas como um conjunto de práticas políticas, econômicas e militares destinadas a manter e expandir zonas de influência e controlar recursos e sistemas estratégicos, como a ordem monetária.

A corrida pela Inteligência Artificial e a guerra pela energia barata

A emergência da Inteligência Artificial (IA) como campo de competição estratégica acrescenta uma nova camada de complexidade à geopolítica da energia. “Data centers”, essenciais para o treinamento de modelos de IA, são intensivos no consumo de energia.

Projeções indicam que a demanda energética da China para “data centers” crescerá exponencialmente até 2030. Nesse cenário, o acesso à energia barata torna-se um fator crítico de vantagem comparativa, acirrando e polarizando a guerra neste sentido, ou seja, o desejo dos EUA em se manter hegemônico e as demais nações implementando suas ações na tentativa de barrar tais iniciativas.

A China, maior importador mundial de petróleo, obtém cerca de 40% de suas importações de países sancionados pelos EUA (Irã, Rússia, Venezuela), frequentemente com descontos significativos. Esses descontos atuam como um subsídio energético à sua economia. A estratégia estadunidense tem sido, correspondentemente, buscar interromper esse fluxo de petróleo barato para a China, visando limitar sua capacidade de investimento em IA.

As pressões sobre a Venezuela, as ameaças ao Irã e o conflito na Ucrânia – que impacta as exportações russas – podem ser interpretadas como facetas de uma mesma estratégia: estrangular fontes de energia barata rivais para manter a primazia tecnológica e, por extensão, geopolítica.

Considerações Finais

A análise evidencia que o sistema do petrodólar constitui a pedra angular da hegemonia global dos EUA no pós-1971. Sua preservação é defendida através de um conjunto de ações políticas, econômicas e, quando necessário, militares, que se enquadram em uma dinâmica imperialista contemporânea, a partir dos conceitos de imperialismo.

Os desafios levantados por países como a Venezuela e as tensões com o bloco do BRICS não são meras disputas comerciais, mas embates que questionam a estrutura profunda do sistema monetário internacional.

A convergência entre a corrida pela IA e a competição por recursos energéticos baratos acirra essa disputa. A capacidade da China em assegurar energia subsidiada via relações com países sancionados representa um desafio estratégico aos EUA, cuja resposta tem sido tentar fechar essas fontes.

O desfecho dessa reconfiguração geopolítica e energética permanece em aberto, mas seu traço central é claro: a luta pelo controle dos sistemas que lastreiam o poder global – seja a moeda, seja a energia – continua a ser um jogo de soma zero, onde a imposição da ordem vigente muitas vezes se sobrepõe ao multilateralismo e à soberania nacional.

A luta pela ordem monetária é, em última instância, a luta pela ordem mundial.