Selic a 15% com “porta aberta” para cortes: o que o Banco Central está dizendo e o que ele não pode prometer

06.02.202615h46 Jhonathan Augusto Gallo Antonio

Compartilhe nas Redes Sociais

Selic a 15% com “porta aberta” para cortes: o que o Banco Central está dizendo e o que ele não pode prometer

A decisão do Banco Central de manter a taxa Selic em 15% ao ano, acompanhada da sinalização de que cortes podem começar nos próximos meses, foi recebida com reações ambíguas. De um lado, há alívio, na medida em que dados recentes sugerem desaceleração inflacionária e indicam que o grau atual de restrição não deve ser mantido por tempo indefinido. De outro, permanece a frustração com um patamar de juros ainda elevado, com consequentes efeitos sobre crédito, investimento e o ritmo da atividade. Essa ambiguidade, no entanto, é menos um sinal de indecisão e mais um exercício de prudência, dado que, em política monetária, declarar vitória cedo demais costuma ter custo alto.

Os dados recentes ajudam a explicar o posicionamento do Banco Central, uma vez que a inflação encerrou 2025 dentro do intervalo de tolerância da meta (4,26%), e a prévia de janeiro de 2026 (0,20%) veio abaixo do mês anterior (0,33%), sugerindo desaceleração gradual, ainda que com o acumulado em 12 meses no teto da banda. Ao mesmo tempo, o PIB mostrou perda de fôlego no terceiro trimestre de 2025 (0,1%), enquanto o mercado de trabalho segue firme, com a desocupação em mínima histórica no trimestre encerrado em dezembro (5,1%) e média anual também em patamar baixo (5,6%). Esse conjunto de informações impõe um dilema clássico: há espaço para reduzir juros, mas ainda não há margem confortável para relaxamento rápido ou agressivo.

É nesse contexto que a autoridade monetária opta por manter o discurso de cautela. A Selic em 15% reflete, em grande medida, o custo de se preservar a credibilidade do regime de metas de inflação em um ambiente marcado por incertezas fiscais recorrentes e expectativas ainda sensíveis. Em economias como a brasileira, credibilidade não é um luxo institucional, é um ativo escasso, construído lentamente e perdido com facilidade.

Não existe política monetária eficaz sem previsibilidade institucional, isto é, o Banco Central não tem como compensar, por meio de juros mais baixos, um ambiente fiscal percebido como frágil ou excessivamente expansionista. Vale salientar que um nível elevado e persistente de gasto público tende a pressionar a demanda agregada, reduzir a eficácia do aperto monetário e elevar o custo desinflacionário do ajuste. Nessas condições, a autoridade monetária costuma operar com maior cautela, mantendo a taxa básica em patamar restritivo por mais tempo, não por preferência, mas por necessidade. Quando o mercado desconfia da trajetória das contas públicas, o prêmio de risco sobe, a taxa neutra se eleva e o espaço para cortes sustentáveis simplesmente desaparece. Ou seja, juros altos, nesse cenário, são consequência, não causa.

É por isso que a sinalização de possível corte da Selic deve ser lida com atenção, mas sem euforia. O BC parece disposto a iniciar um processo de normalização, desde que a desinflação se consolide e as expectativas permaneçam ancoradas. Trata-se de um movimento condicional, guiado por dados, não por pressões conjunturais. Juros excessivamente altos por tempo prolongado prejudicam o investimento produtivo, distorcem decisões intertemporais e penalizam quem depende de crédito para produzir e empregar. Ao mesmo tempo, reduzir juros sem respaldo institucional suficiente tende a gerar ciclos curtos e instáveis, isto é, corta-se pouco, interrompe-se rápido, e volta-se a subir. O custo desse vai-e-vem é alto e recai, quase sempre, sobre o crescimento de longo prazo.

Além disso, há um espaço importante fora da política monetária. Reformas que aumentem a produtividade, reduzam insegurança jurídica e melhorem o ambiente de negócios tendem a gerar efeitos mais duradouros sobre crescimento e bem-estar do que qualquer ajuste pontual na Selic. Juros caem de forma sustentável quando risco diminui, regras são claras e o investimento deixa de ser uma aposta para se tornar um plano.

Em última instância, a manutenção da Selic em 15%, com a porta aberta para cortes, diz menos sobre a taxa em si e mais sobre o estágio institucional do país. O recado do Banco Central é claro: a inflação está mais comportada, mas a credibilidade ainda exige vigilância. Nesse sentido, o desafio brasileiro continua sendo transformar essa vigilância em algo estruturalmente menos necessário. Para isso, não basta esperar cortes, é preciso construir confiança.