O contexto da política internacional em 2026

Fernanda Brandão, Doutora em Relações Internacionais, Professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

10.02.202610h08 Comunicação - Marketing Mackenzie

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O contexto da política internacional em 2026

O início do novo ano começou agitado na política internacional, porém, o que podemos observar é a continuação de tendências que já estavam estabelecidas. O cenário global atual é fruto do momento de transição de poder entre as grandes potências. Principalmente, a emergência de uma nova potência e o declínio da potência dominante incumbente. O que está em jogo é quem liderará a ordem internacional.

Esse cenário, junto com a volta de Donald Trump à presidência dos EUA, colocou em movimento fenômenos característicos de momentos de transição, que são marcados pela instabilidade, incerteza, aumento da competição e de potenciais conflitos. A política externa de Trump tem como objetivo manter os EUA como principal potência global com uma estratégia marcada por movimentos unilaterais, renegociação de antigas parcerias econômicas e alianças militares e busca por acesso a recursos naturais considerados críticos e importantes para a preponderância de poder americana.

A escolha pelo unilateralismo marca o fim do esforço americano de liderar a ordem internacional liberal marcada pela criação de regimes e organizações internacionais que carregam o respeito ao Direito e a preferência pelo multilateralismo em sua base. A ordem internacional liberal criada no pós-Segunda Guerra Mundial tinha como objetivo manter a paz e a estabilidade internacional ao passo que promovia maior integração econômica e abertura dos mercados, em um processo marcado pela criação de normas e regras internacionais, privilegiando o papel do Direito e das Instituições e sua capacidade de superar os conflitos de poder inerentes à dinâmica internacional. Assim, a política externa de Trump aumenta o clima de incerteza na política internacional e o clima de competição entre potência incumbente e potência emergente.

Nesse cenário, a disputa e competição a América Latina voltou a ser um dos principais focos da política externa norte-americana, uma vez que a região é entendida como zona de influência dos Estados Unidos. A presença chinesa na região é crescente como resultado das relações econômicas da China com os países da região. Boa parte dos países latino-americanos já possuem a China como seu principal ou um dos principais parceiros comerciais, sendo a América Latina uma importante fonte de recursos energéticos e minerais para a potência em ascensão. A preocupação de Trump de restabelecer o domínio americano na região ficou bem evidente na nova Estratégia de Segurança Nacional publicada no fim de 2025, em que Trump resgata a Doutrina Monroe para reafirmar a preponderância americana na região.

A intervenção na Venezuela, as ameaças contra o governo Colombiano e a Cuba, a retomada do controle sobre o Canal do Panamá, a imposição de tarifas comerciais proibitivas ao Brasil são exemplos de esforços americanos de aumentar sua influência sobre a região mostrando a disposição de utilizar seu poder econômico de forma coercitiva ou até mesmo o uso da força militar. Para os governos da América Latina, esse cenário cria desafios na condução da política externa nacional.

Ao mesmo tempo, há tentativas de reavivar o espírito liberal que permeia a ordem internacional e os regimes multilaterais estabelecidos no pós-Segunda Guerra. O anúncio de acordos de livre comércio entre UE e Mercosul e UE e Índia, revelam esforços de manter as negociações multilaterais e não estratégias geoeconômicas ou coercitivas como a principal forma de promover parceria e cooperação no âmbito internacional.

Outro ponto que se destaca nesse contexto é a disputa por recursos energéticos, que não são meros bens de mercados, mas são considerados bens estratégicos pela sua vitalidade para a manutenção da atividade econômica e militar dos países. Os EUA têm buscado assegurar acesso a importantes reservas de petróleo como a Venezuela e o Irã mesmo sendo exportadores líquidos de petróleo. O acesso privilegiado a essas reservas junto com o poder de produção americano conferiria aos Estados Unidos grande influência sobre o mercado de petróleo global, tendo influência sobre os preços e sobre o acesso a esses recursos. É importante lembrar que a Arábia Saudita, importante produtor de petróleo, é também um parceiro estratégico americano e conta com uma parceria estratégica de segurança com os EUA.

A disputa por minerais raros e considerados críticos deve se tornar cada vez mais um dos pontos centrais da disputa entre China e EUA. A China, que domina a produção desses minerais, tem utilizado seu quase monopólio como forma de contrabalancear os esforços americanos para enfraquecer sua posição econômica global. Ao mesmo tempo, os EUA têm buscado envolver esses minerais em acordos com outros parceiros comerciais que possuem importantes reservas de minerais raros e críticos como a Ucrânia e o Brasil. A questão da segurança energética chinesa é um dos calcanhares de Aquiles do país, uma vez que a China não produz recursos energéticos suficientes para alimentar sua semanada crescente e precisa importar de outros parceiros. Hoje, a China é um dos principais investidores em energia renovável, movida mais pela necessidade de garantir sua segurança energética do que preocupações com questões ambientais.

O cenário atual da política internacional é marcado por desafios resultantes da volta da preponderância das questões de poder, rompendo com a tendência inaugurada no pós-Segunda, marcada pela cooperação pautada por regimes de normas internacionais e integração econômica com abertura de mercados. A volta da lógica do poder para o centro das questões globais continuará sendo um dos principais determinantes da política externa dos países ao longo dos próximos anos.