A Cúpula do G20 na África do Sul

Fernanda Brandão, Doutora em Relações Internacionais, Professora e Coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

25.11.202508h24 Comunicação - Marketing Mackenzie

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A Cúpula do G20 na África do Sul

No último fim de semana, aconteceu na África do Sul a cúpula anual do G20, sob a presidência do país africano. A presidência sul-africana encerra um ciclo de quatro mandatos consecutivos de países em desenvolvimento (Indonésia, Índia, Brasil e África do Sul). Esse posto é de grande importância, uma vez que o país que o ocupa tem maior poder de influência sobre a agenda discutida nos diversos Grupos de Trabalho ao longo do ano, direcionando os principais temas que deverão ser abordados na cúpula oficial. Assim, nos últimos quatro anos, a agenda do G20 contemplou pautas propostas por países em desenvolvimento. Temas como combate à desigualdade econômica global, desenvolvimento sustentável, combate à fome e à pobreza figuraram entre os eixos centrais das agendas dessas presidências.

A cúpula na África do Sul teve uma ausência importante. O governo dos Estados Unidos havia anunciado que o presidente Donald Trump não participaria da reunião e que o país não enviaria uma delegação formal para as negociações. O motivo apresentado pelo presidente americano para o boicote foi a suposta perseguição de descendentes de colonos europeus no país africano. A ausência dos Estados Unidos é altamente relevante, uma vez que o país ainda é a maior economia global, e o G20 é um fórum de discussão sobre questões sobretudo econômicas, buscando promover cooperação e coordenação entre as maiores economias do mundo para garantir prosperidade e estabilidade internacional. A ausência se tornou ainda mais notável pelo fato de os EUA assumirem a presidência do G20 no último dia da cúpula.

A tradicional cerimônia de passagem de presidência não ocorreu por conta do boicote americano. Além disso, os Estados Unidos afirmaram que não aceitariam nenhuma declaração conjunta final oriunda da cúpula sob liderança sul-africana. O presidente sul-africano, no entanto, declarou, antes do evento, que o boicote não impediria o avanço das negociações nem a obtenção de uma declaração final entre os países participantes. Ao término da cúpula, uma declaração dos líderes foi divulgada, apesar dos protestos americanos.

A presidência sul-africana do G20 foi guiada por três princípios: solidariedade, equidade e sustentabilidade. Entre os principais temas colocados como prioritários pela África do Sul estão a questão da desigualdade econômica e seu agravamento pela falta de uma estrutura sustentável para o endividamento soberano de países em desenvolvimento; a necessidade de financiamento para adaptação aos efeitos das mudanças climáticas e aos eventos climáticos extremos; e a discussão sobre a exploração de minerais críticos, sobretudo no continente africano, de maneira justa e que promova o desenvolvimento econômico da região. Cerca de 30% das reservas de minerais críticos do mundo estão na África, enquanto as principais potências econômicas globais são seus maiores consumidores.

Os principais pontos apresentados na declaração final foram a manutenção do compromisso do grupo com a cooperação multilateral, a mitigação climática e a redução da desigualdade econômica global. Foram incluídos temas como a promoção da transição energética para fontes renováveis, a necessidade de apoio financeiro aos países em desenvolvimento para adaptação aos efeitos da mudança climática e para recuperação após desastres ambientais, além da necessidade de criação de mecanismos que tornem a estrutura da dívida desses países mais sustentável. Pela primeira vez, uma declaração do G20 mencionou o conflito armado no Sudão do Sul, que já dura dois anos, conclamando a busca de uma solução pacífica, assim como para as crises ucraniana e palestina.

No G20 da África do Sul, negociações envolvendo temas como a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, a regulação da Inteligência Artificial e a realização do G20 Social, iniciativas inauguradas durante a presidência brasileira, tiveram continuidade. Contudo, as perspectivas de manutenção desses temas na agenda do próximo ano são incertas, uma vez que os Estados Unidos têm se posicionado claramente contra alguns deles. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, chegou a afirmar que os princípios promovidos pela agenda sul-africana seriam “anti-americanos”.

Os avanços obtidos em termos de consenso entre as principais economias do mundo sobre temas relevantes aos países em desenvolvimento tendem a ser revertidos sob a presidência americana. Esse processo pode agravar ainda mais as perspectivas de cooperação econômica internacional, tornando o cenário global mais instável e turbulento. Essa dissonância evidencia a crescente dificuldade do G20 em promover consenso e cooperação entre os interesses de países desenvolvidos e em desenvolvimento em um contexto de competição geopolítica crescente.