O oncologista do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM), Dr. Carlos Eduardo Stecca, teve um artigo publicado recentemente na renomada revista médica JCO Oncology Practice, da ASCO (American Society of Clinical Oncology). Intitulado “Quando o câncer vira manchete: reflexões da clínica”, o texto analisa a cobertura da mídia sobre casos de câncer em pessoas famosas e como essa exposição impacta outros pacientes. O artigo menciona, especificamente, o caso da cantora Preta Gil, que faleceu em julho do ano passado em decorrência de complicações de um câncer colorretal.
Em um dos trechos do artigo, Stecca destaca que as revelações feitas por celebridades, sobretudo nas redes sociais e na imprensa, podem desencadear mudanças significativas. “Após a morte de Preta, as buscas on-line por ‘colonoscopia’ e ‘sangramento retal’ aumentaram de forma expressiva. Nas semanas seguintes, vários dos meus pacientes agendaram exames de rastreamento para familiares, motivados não apenas pelo medo, mas também pela conscientização. A filha de uma paciente me disse: ‘Eu nunca tinha pensado em fazer rastreamento até ver a notícia. Agora vou agendar o meu imediatamente’. Para a saúde pública, esses efeitos em cascata foram inegáveis. Fui lembrado de que o impacto de um rosto conhecido falando abertamente sobre a doença pode realizar, em poucos dias, aquilo que campanhas de saúde muitas vezes lutam para alcançar ao longo de anos”, relata o médico.
A ampla repercussão da notícia sobre a luta da cantora contra a doença também influenciou a postura de pacientes de Stecca durante o tratamento, conforme outro relato publicado na revista. “Na semana seguinte à divulgação da notícia, conheci um homem de 62 anos que estava recebendo quimioterapia adjuvante após uma cirurgia para câncer retal em estágio III. Até então, ele lidava bem com a situação: otimista, participativo e até fazendo piadas sobre efeitos colaterais leves. Naquela manhã, porém, notei que algo estava diferente. Ele queria expressar uma preocupação séria, mas o fez quase como se estivesse brincando: ‘Doutor, se ela, com toda a sua fama e dinheiro, não conseguiu superar isso, como eu vou conseguir?’. Sua pergunta não era sobre estatísticas ou estadiamento; era sobre esperança. Eu pude perceber que sua confiança na própria recuperação havia sido abalada por uma notícia lida em seu telefone”, descreve o texto.
Considerada uma das publicações mais respeitadas do mundo na área da oncologia, a JCO Oncology Practice foi criada em 2005 com o objetivo de abordar os desafios e os mecanismos do tratamento oncológico. Publicado mensalmente, o periódico reúne relatos de caso, estudos sobre novas terapias e outros conteúdos relacionados ao câncer.




