Efeitos da inteligência artificial em sala de aula provocam reações mistas em professores e alunos

Em entrevista para a CNN, estudantes de Yale relatam homogeneização de ideias; ex-presidente do Inep traz perspectiva otimista em artigo para a Folha de S. Paulo

14.08.202608h00 Comunicação - Marketing Mackenzie

Efeitos da inteligência artificial em sala de aula provocam reações mistas em professores e alunos

Um cenário preocupante tem se tornado realidade em certas salas de aula universitárias devido ao uso das inteligências artificiais (IAs): a participação discente parece aumentar e a maioria dos estudantes responde às perguntas dos professores corretamente, mas suas ideias e aparentes opiniões parecem homogeneizadas tanto no conteúdo quanto na forma, pois utilizam padrões linguísticos pouco distinguíveis entre si. É o que relatam estudantes anônimas da Universidade de Yale para a CNN. Segundo as alunas, os comentários dos colegas durante as aulas têm soado cada vez mais semelhantes entre si, e frequentemente veem outros alunos com laptops em suas mesas consultando o ChatGPT a respeito do assunto lecionado.

Sobre esse cenário, Thomas Chatterton Williams, pesquisador sênior do Centro Hannah Arendt da Bard College e pesquisador não residente do American Enterprise Institute, comentou em entrevista à CNN que o impacto das IAs nos estudantes “paradoxalmente elevou o nível mínimo de discussão em aula para um patamar geralmente melhor em cursos com conceitos difíceis, mas também tendeu a impedir pensamentos mais estranhos, excêntricos e originais”. 

A pesquisa publicada em março de 2026 pela revista Trends in Cognitive Sciences reflete o comentário de Williams, indicando que os modelos de linguagem em grande escala (LLMs) deixaram de ser encarregados apenas de aplicações linguísticas tradicionais, como sumarização de dados, e têm sido envolvidos cada vez mais em tarefas anteriormente atribuídas apenas a humanos, como modelagem sociocognitiva, simulação psicológica e substituição de participantes em estudos com sujeitos humanos. Segundo o artigo, isso causa a homogeneização de três aspectos da expressão e do pensamento: a diversidade linguística, a perspectiva e o raciocínio, reduzindo a incidência de ideias variadas, como as mencionadas por Williams. 

Por outro lado, há também a possibilidade de melhoria do sistema de ensino a partir dos desafios trazidos pelas IAs generativas. Para o Prof. Dr. Luiz Cláudio Costa, ex-presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), em artigo de opinião publicado na Folha de S. Paulo sobre o futuro das universidades pós-inteligência artificial, a IA funciona como um assistente analítico, capaz de auxiliar o docente na construção de um ensino personalizado para as necessidades do processo de aprendizagem, bem como na centralização do papel do docente em áreas que a IA não domina, como em decisões éticas e na mediação de conflitos. Além disso, o professor elucida que o jovem de hoje não declina a teoria, e sim a maneira como ela comumente é ensinada, sem conexão a experiências que a alimentem com relevância e densidade.

Conforme argumenta Costa, aulas expositivas protagonizam o modelo tradicional da arquitetura de aprendizagem, mas as tecnologias de IA invertem essa lógica, de modo que a teoria passa a ser apresentada depois dos problemas. Assim, o aluno tem a chance de formular hipóteses e testar soluções, para posteriormente esclarecer eventuais dúvidas com o professor. 

Dessa forma, a IA é integrada ao processo de aprendizagem, adaptando as aulas ao ritmo e conforme o feedback dos estudantes. Por isso, Costa não considera a IA uma ameaça para as universidades, nem aos docentes ou aos saberes conceituais, e sim uma mudança de paradigma: “A universidade continua sendo o principal fator estruturante do desenvolvimento humano, social e econômico das nações. É nela que se formam profissionais, cientistas, lideranças e valores. O debate não é sobre sua relevância, mas sobre sua arquitetura”. 

Para a Profa. Dra. Talitha Nicoletti, coordenadora de Tecnologias Educacionais e Inteligência de Dados do Centro de Excelência em Ensino e Aprendizagem Transformadora (CEAT), o avanço da IA reforça a necessidade de preparar o professor para atuar de forma crítica, criativa e intencional diante das novas tecnologias. “Uma mesma aula pode ser planejada de formas diferentes a depender do perfil da turma, do turno, do repertório dos estudantes e das dificuldades observadas no processo de aprendizagem. A IA pode auxiliar o professor a pensar quais metodologias são mais adequadas para determinado conteúdo, sugerir estratégias ativas, adaptar exemplos e propor caminhos que tornem a experiência de aprendizagem mais significativa. No entanto, o seu uso precisa estar articulado a objetivos pedagógicos claros, e não apenas à automatização de tarefas”, destaca. 

Tal cenário exige que as universidades assumam um papel protagonista na formação docente. Ou seja, não basta investir em ferramentas: “As instituições precisam criar espaços formativos para que os professores compreendam as possibilidades, os limites e os riscos da IA, incluindo questões éticas, autoria, pensamento crítico e diversidade de perspectivas. A formação docente para o uso da IA deve fortalecer a autonomia do professor e ampliar a sua capacidade de desenhar experiências de aprendizagem mais investigativas, conectadas à prática profissional e sensíveis às diferenças entre os estudantes”, reforça Nicoletti. 

Apesar das inovações, o docente continua a ser a peça central nesse processo. “A IA pode acelerar a criação de propostas, apoiar a curadoria de atividades e oferecer alternativas metodológicas, mas é o professor quem interpreta o contexto, medeia as relações, provoca a reflexão e garante que a tecnologia esteja a serviço da aprendizagem. A universidade que se posicionar estrategicamente nessa formação contribuirá não apenas para o uso mais qualificado da IA, mas para uma transformação mais profunda da cultura pedagógica”, conclui.