A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) sediou nesta quarta-feira, 14 de outubro, a última palestra da temporada 2026 do Fronteiras do Pensamento. Com a presença do filósofo francês, Gilles Lipovetsky. Com o auditório Ruy Barbosa, no campus Higienópolis lotado, ele discutiu sobre a autenticidade enquanto um valor de relevância em nossa sociedade.
O palestrante definiu a autenticidade moderna como um ideal fundamentado no direito de dispor de si mesmo. “Isso significa que você só deve obedecer a você mesmo e não seguir modas ou o que as pessoas te pedem. Você faz o que considera ser verdadeiro, bom e justo, ou seja, em função da sua consciência. Você deve viver de acordo com o seu coração”, explicou.
Lipovetsky realizou um panorama histórico em torno do tema. Ele apontou que o ideal de autenticidade teve diferentes vertentes ao longo da história. Em um primeiro momento, vem de uma mais intelectualizada no fim do século XIX e começo do XX, como uma ideia de rejeição à padronização. “Alguns intelectuais estariam em guerra com a sociedade. Porque ela nos leva a um vício: a hipocrisia. A sociedade te impede de ser você mesmo e a ideia de ‘nós’ é pautada em anonimato”.
Apesar disso, o período não é marcado como algo positivo, pois a autenticidade é associada a um ideal moral.
Já nos anos 1960, a autenticidade enquanto valor vive uma segunda fase, mas muito rápida, pois dura cerca de 15 anos. Trata-se de um momento libertário e contestador em que a revolta contra as regras era o imperativo e o lema “Proibido proibir" era o imperativo. Esse período dura apenas 15 anos.
Para Lipovetsky, nos últimos 50 anos, a autenticidade foi o ideal que mais nos transformou na sociedade atual, período que marca a terceira e última fase.
Apesar dessa escala histórica, o filósofo francês destacou que a ideia de autenticidade como um valor social é algo moderno. “Por milênios, em todas as sociedades, essa regra nunca existiu. Essa ideia de passar as necessidades pessoais na frente é uma aberração. O que imperava era a obediência aos costumes e à família”.
Por se tratar de uma invenção moderna, portanto, esse ideal de autenticidade está no centro do individualismo moderno. “O indivíduo pertence a si mesmo, cada um é mestre de si mesmo”, criticou o francês, que apontou uma série de problemáticas relacionadas à essa busca pela autenticidade.
O primeiro deles é que a busca por ser autêntico se tornou um produto de mercado. Nas prateleiras é fácil de encontrar produtos que se vendem como “autênticos” ou como “selo de autenticidade". Nesse cenário, o ideal se tornou “uma enorme bandeira da mercadoria”, nas palavras do filósofo.
“No passado, ser autêntico era ser contra as instituições que sufocavam. Atualmente, são as instituições em si que vem incorporar o ideal de autenticidade. Políticos vem afirmar sua autenticidade e sinceridade. As marcas se vendem com autenticidade. O mercado recuperou algo que estava contra ele”, disse Lipovetsky.
Também se tornou um problema do mundo do trabalho. Segundo o francês, o ambiente corporativo vive uma certa “esquizofrenia”, pois prega a autenticidade como busca pela felicidade, mas cobra performance e entrega de resultados. “Existe uma perversão no uso da autenticidade, que consiste em pensar que a empresa está aqui para nos dar felicidade. A empresa deve respeitar a autonomia, mas não dar felicidade”.
Por fim, Gilles Lipovetsky classificou o ideal de autenticidade como um problema da atualidade, pois não pode ser a resposta para diversos problemas da nossa era, como as questões climáticas. Ele explicou que quando a busca pela felicidade coincide com o desejo de consumir, a autenticidade se torna insuficiente para lidar como os desafios atuais.
“Devemos defender a autenticidade, mas não apenas ela, existem outros valores que devem ser defendidos: a inovação, a igualdade, a educação. São valores que existem por si só”, finalizou Lipovetsky.
O Fronteiras do Pensamento encerrou a temporada de 2026, que teve como tema Como navegar em um mundo complexo?, com as palestras realizadas no auditório Ruy Barbosa da UPM. Esse ano, o economista estadunidense Tyler Cowen discutiu a atualidade sob o ponto de vista da economia e inovação tecnológica. Já no segundo encontro, o psicanalista e escritor argentino Gabriel Rolón e a psicanalista e escritora brasileira Ana Suy discorreram sobre felicidade, amor e falta na contemporaneidade.
Uma tarde de troca e conhecimento
Antes da última sessão da temporada, o Fronteiras do Pensamento contou com um momento muito especial e inédito: alguns docentes do Centro de Comunicação e Letras (CCL) e da Faculdade de Direito (FDir) da UPM tiveram a oportunidade de participar de uma roda de conversa com Gilles Lipovetsky.
“Agradeço o convite e a parceria. O Brasil é muito generoso comigo, estou muito feliz de poder compartilhar esse momento em que surgem perguntas de vários assuntos possíveis”, ressaltou o filósofo francês.
Durante o encontro, o reitor da UPM, Marco Tullio de Castro Vasconcelos, e o vice-reitor , Luiz Roberto Martins, saudaram o filósofo e expressaram a alegria por recebe-lo no Mackenzie.





