O que é ESG e os desafios de sua aplicação nos mercados financeiros

20.04.202114h10 Lilian A. P. Miguel

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O que é ESG e os desafios de sua aplicação nos mercados financeiros

Vivemos tempos em que a sociedade como um todo é considerada um parceiro importante e indispensável para o desenvolvimento econômico, além de ser parte integrante e indissociável do desenvolvimento social. Neste contexto, buscar entender e definir metas e indicadores que auxiliem a sociedade a ter clareza sobre ações e domínio sobre os caminhos a seguir nesta direção de desenvolvimento sustentável passou a ter relevância nos mercados, o que inclui também a área de investimentos financeiros.

A ideia do uso de critérios de sustentabilidade no direcionamento de investimentos no mercado financeiro existe há décadas. Em 1990 surgiu o primeiro índice financeiro que considerava fatores de sustentabilidade (MSCI KLD 400 Social Index, 2019) .

Mesmo antes da formalização de um índice que explicitamente considerava os fatores de sustentabilidade, governança e meio ambiente como relevantes para determinar a aplicação de recursos em determinadas companhias pelos investidores, movimentos na sociedade impulsionaram esses investidores a retirar seus recursos de empresas que atuavam sem considerar esses critérios nas suas atividades.

Com efeito, várias empresas na África do Sul encerraram suas operações na década de 70 e, depois, na década de 80, em função de um movimento dos investidores americanos de retirar recursos investidos nessas empresas como uma forma de embargo ao regime do Apartheid.

Tem-se também notícias sobre fundos de investimento cujos recursos deixaram de ser recebidos por terem suas posições alocadas em indústrias de tabaco, ligadas a mercado de armas e combustíveis fósseis, conforme Idália Antunes Cangussú Rezende e Outros (2007) .

No início deste milênio surgiu a sigla ESG (do inglês, Environment, Social and Governance) para qualificar e estruturar a coleta dos dados relacionados a esses fatores, bem como para instrumentalizar o acompanhamento destes dados, de forma a que se pudesse ter escolhas mais qualificadas dos investimentos feitos no nível das companhias, em especial, aquelas que têm suas ações distribuídas nos mercados de capitais. Desde o surgimento da sigla passaram-se mais de 15 anos, mas ainda existem questões em aberto em torno do conceito.

Grupos específicos têm discutido a ESG e sua aplicabilidade de maneira mais intencional e consistente. A título de exemplos mais recentes, cite-se a carta emitida pela Global Public Policy Commitee (GPPC) em 17 de dezembro de 2020, através da qual as seis principais empresas de auditoria do mundo (Deloite, BDO, EY, Grant Thorton, KPMG e PWC) assumiram o compromisso público de garantir que as demonstrações financeiras das companhias irão refletir de forma adequada e padronizada os riscos climáticos a que as referidas companhias e seus negócios estão expostos.

O Brasil participa desse movimento, tendo o jornal “Valor Econômico”, em 14/07/2020, publicado um texto intitulado “Convergência pelo Brasil”, subscrito por várias organizações e empresários, através do qual pleiteiam ações voltadas para o financiamento sustentável da economia, com redução de impacto ambiental.

Este artigo procura contribuir para a fixação dos principais conceitos em torno da sigla ESG e que no Brasil foi traduzida por ASG (Ambiente, Sustentabilidade e Governança), pois, apesar da aparente popularidade do tema, percebe-se que ainda há pouco consenso a respeito, não só do conceito ESG, mas de como fixar indicadores e metas que sejam passíveis de serem acompanhados e que revelem a prática destas companhias, contribuindo não só para as escolhas qualificadas dos investidores, mas, igualmente, para que se alcance um ambiente e uma economia sustentável, seja do ponto de vista de meio ambiente, seja do ponto de vista social, seja do ponto de vista econômico.

Histórico

Para que haja essa transferência de recursos é necessário que os agentes que atuam no mercado financeiro promovam ações que incentivem as pessoas a aplicarem seus recursos nas companhias e empresas que estão neste ambiente. Como referido pela Comissão de Mercado de Capitais de Angola , “os investidores são cidadãos ou pessoas coletivas que colocam parte do seu dinheiro em determinado projeto/investimento, adquirindo Valores Mobiliários - Ações, Obrigações de Empresas, Obrigações do Tesouro, Bilhetes do Tesouro, Unidades de Participação em Fundos de Investimento etc.”.

Para que esses investidores tomem as decisões mais adequadas, os agentes do mercado financeiro disponibilizam uma série de informações, através de formulários e materiais de comunicação, que permitem uma avaliação financeira de referidos investimentos, de acordo com certos critérios de retorno.

Ao longo do século XX, em algumas ocasiões, critérios que transcendem àqueles puramente financeiros foram levados em consideração pelos investidores. Na publicação “Um estudo sobre o desempenho financeiro do Índice BOVESPA de Sustentabilidade Empresarial” (2007)  essa informação é realçada:

De acordo com Skillius e Wennberg (1998) o fenômeno do investimento socialmente responsável surgiu em 1920, quando certas instituições evitaram investimentos em empresas ligadas com álcool ou tabaco. Os investimentos usando critérios ambientais são uma prática mais recente. Fundos que usam esses critérios apareceram por volta de 1970 e 1980. Em 1990 houve um estrondo no número de fundos ambientais. (p.8)

Ao mesmo tempo, questões ligadas ao meio ambiente tornam-se pautas globais a partir da década de 1970. Em 1972, é realizada a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano (conhecida como Conferência de Estocolmo) e, desde então, realizaram-se outras dez conferências exclusivamente em torno do tema ambiental , e o assunto da degradação do meio ambiente e da mudança climática passa a integrar a pauta das Conferências das Partes (COPs) da ONU (Organização das Nações Unidas) .

A partir dos anos 1990, cada vez mais escândalos envolvendo grandes empresas e casos de exploração de trabalho escravo e desrespeito à legislação trabalhista, exploração infantil e corrupção vêm a público. O primeiro destes grandes escândalos foi o caso Nike, em 1996, publicado na revista Life . Apesar deste ter se tornado um paradigma deste tipo de situação, diversos outros casos vieram à tona, como citados no documento “Show Me The Money (p.7)” . Trechos desta situação são apresentados a seguir, em tradução livre.

Mais recentemente, os investidores que sofreram quando grandes irregularidades contábeis ou problemas de governança surgiram em empresas como Enron, WorldCom, Tyco, Parmalat e Vivendi não questionam a importância da governança para o desempenho financeiro (p.7):

- A ENRON tornou-se conhecida no final de 2001, quando foi revelado que a sua situação financeira reportada era sustentada principalmente por fraudes contábeis institucionalizadas, sistemáticas e planejadas de forma criativa. Foi a maior falência da história dos EUA e desde então se tornou um símbolo popular de corrupção e fraude corporativa intencional

- Começando em 1999 e continuando até maio de 2002, a WorldCom usou métodos de contabilidade fraudulentos para mascarar sua condição financeira em declínio, pintando uma imagem falsa de crescimento financeiro e lucratividade para sustentar o preço das ações. O departamento de auditoria interna da WorldCom descobriu aproximadamente US $ 3,8 bilhões em fraude em junho de 2002

- A liderança da Tyco estava repleta de irregularidades contábeis e fraudes. Em 2004, o ex-CEO e CFO, foi acusado de roubo de US $ 600 milhões da empresa. Durante o julgamento em março de 2004, eles alegaram que o conselho de administração o autorizou como compensação.

- No final de 2003, um dos maiores escândalos corporativos da história veio à tona quando um buraco de 8 bilhões foi descoberto nos registros contábeis da Parmalat.

- Em 2002, a Vivendi divulgou um prejuízo corporativo de 3,3 bilhões. Seu ex-ex-CEO Jean-Marie Messier, que pagou enormemente por ativos de mídia, sobrecarregando a empresa com dívidas muito acima de sua avaliação de mercado e, finalmente, levando-a à beira do colapso, tornar-se um estudo no triunfo da ambição pessoal e ganância sobre o bom senso. Mais recentemente, os investidores que sofreram quando grandes irregularidades contábeis ou problemas de governança surgiram em empresas como Enron, WorldCom, Tyco, Parmalat e Vivendi não questionam a importância da governança para o desempenho financeiro.

No ano 2000, diante da complexidade dos dilemas gerados pela intensa globalização e pela intensificação dos impactos ambientais e sociais, a ONU estabelece os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs), envolvendo 191 Estados membros e 22 organizações globais. No mesmo ano, a ONU convoca as grandes corporações globais para criar o Pacto Global, desta vez envolvendo empresas da iniciativa privada para que também se comprometam com objetivos ligados ao desenvolvimento sustentável global. Atualmente o Pacto Global conta com dezesseis mil membros, entre empresas e organizações, e está presente em cento e sessenta países.

Os termos Responsabilidade Socioambiental, Responsabilidade Social Corporativa (RSC), e Investimento Socialmente Responsável (ou SRI, do inglês Socially Responsible Investment), que já estavam em voga nos anos 1990, são amplamente utilizados pela iniciativa privada.

Em 2004, o Pacto Global elabora um documento voltado especificamente para o mercado financeiro, reconhecendo o impacto deste setor da sociedade, nas empresas, e o potencial que este mercado possui de motivar mudanças necessárias para que se atinjam as metas do Pacto, que é publicado em 2005, sob o título “Who Cares Wins”.

É neste documento que a sigla ESG surge pela primeira vez, no intuito de sintetizar os principais pilares do Investimento Responsável, a partir dos quais são designados indicadores específicos que devem ser observados pelos investidores para avaliar o impacto de seus investimentos, como podemos observar no seguinte trecho do documento, em tradução livre:

O Global Compact é uma iniciativa de responsabilidade corporativa lançada pelo secretário-geral Kofi Annan em 2000 com o objetivo principal de implementar princípios universais nos negócios. Ao estabelecer a ligação entre as questões ambientais, sociais e de governança e as decisões de investimento, este relatório pretende contribuir para uma melhor integração desses fatores nas decisões de investimento que, em última instância, apoiarão a implementação dos princípios do Pacto Global em todo o mundo dos negócios.

Esse documento enfatiza a necessidade de se integrar as questões ESG com as questões financeiras :

Para melhorar a inclusão dos fatores ESG nas análises financeiras é necessário adaptar os modelos e as ferramentas correntes dos dados analíticos. Em especial, incluindo informações qualitativas como vantagens competitivas das companhias ou as maneiras como estão sendo melhoradas as mensurações dos impactos que surgem dos negócios.” (tradução live)

Uma vez que a possibilidade de se integrar formalmente questões ESG na análise financeira do mercado de investimentos foi apontada, fez-se necessária a regulação desta possibilidade, motivando a UNEP-FI (United Nations Environment Programme Finance Initiative) a encomendar, em 2005, um estudo sobre o tema ao escritório de advocacia Freshfields Bruckhaus Deringer.

O resultado deste estudo foi o documento “A Legal Framework for the Integration of Environmental, Social and Governance Issues into Institutional Investment”  cuja tradução livre é “Uma estratégia legal para a integração das questões ambientais, social e de governança nos investimentos institucionais”, que tinha por propósito verificar se a integração de critérios ESG em políticas de investimento estava de acordo com a legislação de diversos países, como podemos observar do seguinte trecho do documento:

Nosso objetivo é preparar um relatório para responder às seguintes questões que foram colocadas pela AMWG: É possível a integração das questões ambientais, sociais e de governança nas regras relacionadas a investimentos (incluindo alocação de ativos, construção de portfólio, stock-picking ou bond-picking voluntariamente permitidos, determinados ou proibidos pela legislação e suas regulações, principalmente em relação a fundos de pensão públicos e privados e secundariamente em relação a fundos de reservas e fundos das companhias?  (tradução livre)

Na conclusão deste estudo encontramos o posicionamento de que os critérios de ESG podem ser incluídos na regulação deste mercado contanto que sejam motivados por propostas apropriadas e não afetem a performance financeira dos portfólios. , como podemos observar nos trechos a seguir, em tradução livre:

Há um debate em andamento nos EUA sobre se a aplicação de considerações ESG a uma decisão de investimento viola a regra moderna do investidor prudente. Esta parte examina o papel das considerações ESG sob ERISA, a Terceira Reapresentação e UPIA. Deve-se notar que, embora diferentes, essas autoridades são geralmente compatíveis e têm fertilização cruzada. Portanto, é sensato considerar o lugar das considerações ASG examinando-as em conjunto.

A conclusão curta é que as considerações ASG podem ser levadas em consideração, desde que sejam motivadas por propósitos adequados e não afetem adversamente o desempenho financeiro de toda a carteira. Existem poucos casos nos EUA, mas os casos que existem geralmente apóiam o uso de considerações ESG dentro do contexto de uma estratégia de investimento adequada.

Embora continue a haver um debate sobre os parâmetros exatos do dever, parece haver um consenso de que, desde que as considerações ESG sejam avaliadas no contexto de um plano de investimento prudente, as considerações ESG podem (e, quando afetam as estimativas de valor, risco e retorno devem) fazer parte do processo de tomada de decisão de investimento. 

A relevância deste estudo para o estabelecimento do ESG como prática a ser implementada no mercado financeiro é enfatizada na introdução do documento “Show Me The Money: Linking Environmental, Social and Governance Issues to Company Value”, publicado pela UNEP-FI no ano seguinte (tradução livre):

Outro elemento que ajudou a moldar o debate inclui o relatório recém-lançado produzido pelo escritório de advocacia internacional Freshfields Bruckhaus Deringer. O relatório, encomendado pelo UNEP FI AMWG em 2005, esclarece grande parte da confusão de longa data enfrentada por aqueles que buscam maior consideração pelas questões ESG na tomada de decisões de investimento, mas prejudicada pela crença tradicional de que os diretores institucionais e seus agentes são legalmente impedidos de fazer isso. Ele afirma que a integração de questões ESG em uma análise de investimento para prever o desempenho financeiro de forma mais confiável é claramente permitida e, em algumas circunstâncias, exigida em todas as jurisdições consideradas. Os considerados incluem Austrália, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Espanha, Reino Unido e EUA.17

Uma vez construída a sustentação legal para a inclusão de regulação própria determinando que os critérios ESG integrassem políticas de investimento, a ONU estabeleceu a UNPRI (United Nations Principles os Responsible Investment), uma rede internacional de investidores cujo objetivo é implementar globalmente seis princípios para o investimento responsável, segundo consta do site da própria instituição, quando referenciado esse grupo18.

A partir da criação da UNPRI fica consolidada a sigla ESG como um conceito a ser implementado no mercado financeiro, com o fim de promover melhores práticas ligadas aos pilares representados pela sigla (Ambiente, Social e Governança), o que pode ser observado explícitamente no primeiro princípio constante da carta de princípios da referida organização18:

Princípio I - Nós incorporaremos as questões ESG na análise dos investimentos e nos processos de tomada de decisão (tradução livre).

Desde então a UNPRI realizou diversos esforços para mobilização e conscientização acerca do tema e, atualmente, conta com mais de três mil signatários, ainda segundo o site da instituição.

Entre a criação da UNPRI, em 2006, e o ano de 2015, houve um grande aumento no número de signatários tanto da UNPRI quanto do Pacto Global, e outras instituições ligadas à sustentabilidade global surgiram (GRESB, em 2009; SASB, em 2011; Green Bond Principles, em 2014; TCFD, em 2015).

No entanto, os dados estatísticos relacionados à desigualdade social e à poluição ambiental revelam que houve pouco avanço relacionado a estas questões, como pode ser observado nos gráficos do site “Our World In Data”, da Universidade de Oxford19.

Em 2015, a ONU estabeleceu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), com novas diretrizes e metas para os Estados membros e com programa de aplicação dos ODS para empresas. Ainda em 2015, é realizado o Acordo de Paris, que traz um novo alerta a respeito das mudanças climáticas e da emissão de gases do efeito estufa.

Nos anos 2019 e 2020 o tema ganha um novo destaque no mercado financeiro, sendo o tema ESG uma pauta em destaque, evidenciada pela alta na busca pelo termo no site da Google, evidenciando um interesse superior sobre o mesmo tema, nos anos anteriores20. A mobilização global em torno da crise sanitária decorrente do vírus Covid-19 chama a atenção para assuntos sociais e ambientais no mundo todo.

Como se pode ver, o tema relacionado aos fatores e critérios para o desenvolvimento sustentável, quais sejam, meio ambiente, sustentabilidade e governança se tornaram relevantes em vários mercados, mas mereceram destaque e ênfase em especial nestes últimos três anos, sendo necessário o aprofundamento do tema para que seu regramento seja feito, não só no nível mundial, mas também no Brasil, de forma a refletir as melhores práticas e a estimular uma mudança real e efetiva no mundo.

ESG e sua aplicação nos mercados financeiros

Uma vez concluído o resgate histórico do surgimento da sigla e a forma como ela ganhou relevância, é possível abordar o significado do conceito que a sigla ESG representa junto à ideia de Investimento Sustentável, levando em consideração o documento intitulado “Global Financial Stability Report 2019 da IMF”:

Finança Sustentável é definido como aquele incorpora os princípios de desenvolvimento ambiental, social e de governança nas decisões de negócios e nas estratégias de investimento21 (tradução livre).

A esta concepção podemos incorporar a diferenciação que Georg Kell (fundador do Pacto Global) faz entre ESG e Investimento Socialmente Responsável (SRI):

Mas, enquanto o Investimento Socialmente Responsável (SRI) está baseado em critérios morais e éticos e normalmente utilizado para análises das próprias atividades nas quais se faz o investimento, como alcool, tabaco ou armas de fogo, os critérios de investimento ESG são baseados na assunção de fatores de ambiente, sustentabilidade e governança que tem relevância financeira22 (tradução livre).

O comentário de Georg Kell traz um elemento importante ao conceito de ESG, qual seja, a incorporação da relevância financeira nos aspectos relacionados às questões ambiental, de sustentabilidade e de governança. Mas essa posição de Kell não é admitida por outros pesquisadores que se debruçaram sobre o tema, como abaixo será evidenciado.

Segundo o documento intitulado “Show me the Money”, também há  motivos que não estão diretamente ligados ao retorno financeiro para a inclusão dos critérios ESG nas análises relativas ao investimento no mercado financeiro e que devem ser acompanhados da ressalva já supracitada do documento “A Legal Framework for the Integration of Environmental, Social and Governance Issues into Institutional Investment”, como se lê:

Uma conclusão é que os critérios ESG devem ser levados em conta e motivados por propósitos específicos e que não tragam efeitos financeiros contrários à performance do portfólio23 (tradução livre).

A corroborar a ideia de que não são somente os impactos financeiros que afetam os critérios ESG, e sim, tornam-o diferente dos critérios SRI está a conclusão de outro trecho do documento “Show Me The Money”, com a seguinte afirmação:

Uma segunda razão é de que aplicar ao portfólio valores éticos dá parâmetros ao investidor, independentemente de referida aplicação resultar em impactos marginais positivos ou negativos para a performance financeira24 (tradução livre).

Neste trecho verifica-se uma argumentação diferente, na qual a adoção de valores éticos independe do impacto financeiro que podem causar, o que contrasta com a opinião expressa por Georg Kell no seu artigo The Remarkable Rise of ESG :

Os investimentos baseados em ESG levam em conta os fatores ESG que tenham efeito financeiro relevante”22 (tradução livre).

Esta contradição fica ainda mais reforçada por estudos como o já citado “Um estudo sobre o desempenho financeiro do Índice BOVESPA de Sustentabilidade Empresarial”, onde é apresentada uma tabela que contém uma comparação entre estudos que abordaram índices de investimento sustentável. Considerando nove estudos, há quatro nos quais não houve diferença no desempenho entre fundos ou índices sustentáveis e outros fundos ou índices de investimento, dois em que os fundos ou índices sustentáveis mostraram desempenho melhor, e dois onde os fundos ou índices sustentáveis mostraram desempenho pior, sendo que no último estudo pesquisado não houve evidências suficientes de que a adoção de ESG estava ligada apenas a um reflexo financeiro relevante.25

Já em relação ao conceito de Investimento Socialmente Responsável, pode-se entendê-lo de forma mais completa ao analisar os conceitos de Negative Screening e Positive Screening, descritos no artigo “Um estudo sobre o desempenho financeiro do Índice BOVESPA de Sustentabilidade Empresarial” (2007):

Não há exclusão de setores econômicos ISE, como no modelo do tipo screening dos fundos de investimento socialmente responsáveis americanos e brasileiros, o ISE é do tipo positive screening, ou seja, não há exclusão por princípio de nenhum setor. 26

Com base nestes conceitos, e no comentário de Georg Kell, pode-se entender ESG como um modelo de Investimento Sustentável positive screening, que, além dos fatores habituais do mercado financeiro, considera fatores ambientais, sociais e de governança que tenham relevância financeira. 

Uma vez definido este conceito, é possível trazer a questão: O que levou os investidores a se interessarem em impacto, e não somente em resultado financeiro? No seguinte trecho da conclusão do documento “Toward Common Metrics and Consistent Reporting of Sustainable Value Creation” (2020), enfatiza-se a capacidade de gerar valor de longo prazo a todos as partes envolvidas, como um dos objetivos principais de se incluir o ESG no âmbito dos investimentos financeiros:

O objetivo das companhias em reportar estas métricas em seus relatórios seria promover uma acurada representação da performance da companhia em relação ao gerenciamento de riscos e à capacidade e habilidade de gerar valor de longo prazo a todos os seus stakeholders27 (tradução livre).

Estes aspectos devem ser avaliados por meio de indicadores de qualidades, que implicam:

indicador de eficiência - produtividade, indicador de eficácia - satisfação e fidelidade do cliente + atendimento a reclamações, indicador de efetividade - valor criado aos stakeholders, indicador de segurança, envolvendo os funcionários, os terceirizados, os fornecedores, os prestadores de serviços.

Toda essa gestão visa à obtenção de parcerias com fornecedores e terceirizados; estabelecer canais de distribuição  adequados  e  gestão compartilhada  de  estoques;  assim,  clientes  e fornecedores  compartilham  custos,  lucros  e riscos e pode-se gerenciar e antecipar a falta de produto no mercado

Importante salientar a adoção de práticas caracterizadas pela Manufatura Verde, que se referem à produção, ecologicamente correta, engloba as tecnologias e o design consciente, utilizando materiais especiais que reduzem os impactos ambientais  dos  produtos  e  processos  de produção,  diminuindo  a  geração  de  lixo, economizando  custos  finais,  reduzindo  a emissão de gases e incentivando a implantação de novas técnicas de fabricação, unindo o que é tecnicamente possível com o que é desejado para  a  manutenção  e  preservação  do  meio ambiente reflete a ideia de geração de valor de longo prazo para todos os stakeholders, que é o objetivo maior da introdução dos critérios ESG neste mercado.      

Por outro lado, no documento “Show Me The Money”, redigido pela UNEP-FI, são apontadas três razões para que investidores institucionais adotem critérios ESG nas suas escolhas, sendo elas: maximizar retornos financeiros, agir de acordo com éticas pessoais e, observar outros objetivos sociais.24

É possível depreender-se a motivação do interesse de investidores em fundos de investimento que adotam critérios ESG, em duas vertentes: a primeira, diretamente ligada aos resultados financeiros das empresas, partindo do pressuposto de que empresas com melhores práticas de sustentabilidade apresentam, a longo prazo, resultados financeiros melhores, e, a segunda, que transcende a pura lógica do retorno financeiro, ressaltando os ganhos da sociedade e do meio ambiente como razões para o investimento ESG.

Essa aparente dicotomia afeta o argumento daqueles que procuram promover a lógica ESG no mercado financeiro. Ao passo que uma argumentação procura influenciar o investidor a partir de sua intrínseca lógica financeira, a outra procura conferir ao investidor uma responsabilidade que pode se contrapor com o aspecto financeiro e tornar inócua a referida análise para o investimento.

Entretanto, um possível colapso ambiental, crises sociais e o aumento dos casos de corrupção dentro de empresas e instituições são questões urgentes e de alguma forma devem ser abordadas de forma responsável pelo mercado financeiro. A necessidade de maior estímulo às práticas ESG no mundo corporativo é evidente, e a presença de empresas de capital aberto e fundos de investimento que adotam estes critérios colaboram diretamente para a adoção de tais práticas.

Ainda faltam estudos que demonstrem os riscos que o mercado financeiro como um todo pode sofrer com a ausência de tais práticas, e também que demonstrem a responsabilidade do mercado financeiro no cumprimento da Agenda 2030 (ODSs) da ONU.

Em especial no Brasil, já existem movimentos regulatórios em curso, para que haja maior adoção de práticas de sustentabilidade nas empresas e para que os critérios ESG sejam adotados não apenas como uma fonte de pesquisa para os investidores, mas igualmente como um marco para a mudança do paradigma de sustentabilidade, como é o caso das Duas Audiências Públicas recém editadas pela Comissão de Valores Mobiliários - CVM, quais sejam SDM 08/2020 e SDM 09/2020.

Na primeira delas, há um convite para os agentes operadores do mercado de valores mobiliários apresentarem sugestões para que esses critérios sejam inseridos nas normas reguladoras de todos os fundos de investimento que vierem a ser lançados e operados no Brasil, enquanto a normativa que será editada a partir da audiência pública SDM 09/2020, pretende melhorar a transparência e a qualidade das informações hoje prestadas pelas companhias de capital aberto listadas no mercado de capitais.

Dessa forma, os reflexos da adoção dos critérios ESG para determinar a aplicação dos recursos pelos investidores também seja uma diretriz e uma estratégia para que referidas empresas atuem, na prática, com uma consciência e intencionalidade de produzir e comercializar produtos e serviços que gerem desenvolvimento econômico sustentável.

 

Autores:

Fábio Lupo - Graduado em comunicação social pela FAAP, possui MBA gestão cultural – economia, cultura e sociedade, e atua como consultor e pesquisador convidado da UPM, sobre ESG.
Lucas Rodrigues Lomelino - Graduado em administração e mestre em administração do eesenvolvimento de negócios, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, atua na área de captação de recursos da Fundação Estudar. É consultor e pesquisador convidado da UPM.
Samira Vasconcellos Miguel – Graduada em direito pela Universidade de São Paulo, e mestre em direto pela FGV. Atual como gerente executiva do Instituto Ayrton Senna. Pesquisadora convidada da UPM.
Lilian A. P. Miguel – Graduada em administração, mestre e doutora em administração, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - UPM. Professora na graduação e mestrado profissional em administração de desenvolvimento de negócios e pesquisadora do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica.

 

Referências e fontes consultadas

 

1 IMF – International Monetary Fund (2019). Global Financial Stability Report / October, Chapter 6, p.81, 82.

Disponível em: www.imf.org/en/Publications/GFSR/Issues/2019/10/01/global-financial-stability-report-october-2019 Arquivo “Ref01_01_Cap6_IMF”

2   Rezende, I.A.C.; Nunes, J.G.; Portela, S.S.;  Nascimento, A.P.; Salvador, N. & Telles, T.E.A.O (2007). Um estudo sobre o desempenho financeiro do Índice BOVESPA de Sustentabilidade Empresarial, ANPAD, 2007, p.7, 8, 9.

Disponível no link: www.anpad.org.br/diversos/down_zips/33/CON-A2289.pdf

3 Selan, B. Mercado Financeiro, 1ª edição. (2015). Rio de Janeiro: SESES. Disponível em: docplayer.com.br/55477444-Mercado-financeiro-autor-do-original-beatriz-selan.html

4 Comissão de Mercado de Capitais de Angola. (2021). Wikipedia. Disponível em: Comissão do Mercado de Capitais – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

7 United Nations – UNFCCC (2021). Climate Changes unfccc.int/process/bodies/supreme-bodies/conference-of-the-parties-cop

8 __________________________ - Conference | Environment and sustainable development. Disponível em: www.un.org/en/conferences/environment

9 laborrights.org/in-the-news/six-cents-hour-1996-life-article

10 UNEP-FI. (2006) Show Me The Money: Linking Environmental, Social and Governance Issues to Company Value. 2006.Disponível no site da UNEP-FI:

www.unepfi.org/fileadmin/documents/show_me_the_money.pdf ; Arquivo “Ref01_04_ShowMeTheMoney”

11 12 ________. (2005). Who Cares Wins, p.vii. Disponível no site da UNEP-FI:  www.unepfi.org/fileadmin/events/2004/stocks/who_cares_wins_global_compact_2004.pdf Arquivo “Ref01_02_WhoCaresWins”

13 __________. (2005). A Legal Framework for the Integration of Environmental, Social and Governance Issues Into Institutional Investment, October. Freshfields Bruckhaus Deringer. Disponível no site da UNEP-FI: www.unepfi.org/fileadmin/documents/freshfields_legal_resp_20051123.pdf ; Arquivo “Ref01_03_LegalFrameworkIntegration”

14 __________. A Legal Framework for the Integration of Environmental, Social and Governance Issues Into Institutional Investment, October. p.6 Freshfields Bruckhaus Deringer. Disponível no site da UNEP-FI:

www.unepfi.org/fileadmin/documents/freshfields_legal_resp_20051123.pdf ; Arquivo “Ref01_03_LegalFrameworkIntegration”

15 __________. A Legal Framework for the Integration of Environmental, Social and Governance Issues Into Institutional Investment, October. p.109 Freshfields Bruckhaus Deringer. Disponível no site da UNEP-FI:

www.unepfi.org/fileadmin/documents/freshfields_legal_resp_20051123.pdf ; Arquivo “Ref01_03_LegalFrameworkIntegration”

16 __________. A Legal Framework for the Integration of Environmental, Social and Governance Issues Into Institutional Investment, October. p.114 Freshfields Bruckhaus Deringer. Disponível no site da UNEP-FI: www.unepfi.org/fileadmin/documents/freshfields_legal_resp_20051123.pdf Arquivo “Ref01_03_LegalFrameworkIntegration”

17 __________. (2006). Show Me The Money: Linking Environmental, Social and Governance Issues to Company Value, UNEP-FI. p.6. Disponível no site da UNEP-FI:

www.unepfi.org/fileadmin/documents/show_me_the_money.pdf ; Arquivo “Ref01_04_ShowMeTheMoney”

18 UNPRI (2021) Disponível em: unpri.org

19 Universidade de Oxford (2021). Our World in Data. Disponível em:

ourworldindata.org

20 Google Trends  (2021)– ESG . Disponível em: trends.google.com/trends/explore

22 Kell, G. (2020). The Remarkable Rise of ESG . Revista Forbes. Disponível no site: www.georgkell.com/opinions/https/wwwforbescom/sites/georgkell/2018/07/11/the-remarkable-rise-of-esg/3dd3f3501695

23 UNEP-FI (2005). A Legal Framework for the Integration of Environmental, Social and Governance Issues Into Institutional Investment, October p.109 Freshfields Bruckhaus Deringer. Disponível no site da UNEP-FI:

www.unepfi.org/fileadmin/documents/freshfields_legal_resp_20051123.pdf Arquivo “Ref01_03_LegalFrameworkIntegration”

24 ________ (2006). Show Me The Money: Linking Environmental, Social and Governance Issues to Company Value, UNEP-FI. p.4 Disponível no site da UNEP-FI: www.unepfi.org/fileadmin/documents/show_me_the_money.pdf ; Arquivo “Ref01_04_ShowMeTheMoney”

27 World Economic Forum (2020). Toward Common Metrics and Consistent Reporting of Sustainable Value Creation, p.6

Disponível no site:

www3.weforum.org/docs/WEF_IBC_ESG_Metrics_Discussion_Paper.pdf

Arquivo “Ref01_05TowardCommonMetrics”