A Valorização do Advogado: o Preço do Tempo, do Saber e da Confiança

Por Marcelo Santoro Almeida, Advogado e professor de Direito de Família e Sucessões da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

24.10.202511h07 Comunicação - Marketing Mackenzie

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A Valorização do Advogado: o Preço do Tempo, do Saber e da Confiança

“Esse valor é abatido dos honorários mais à frente?”

 

A pergunta, aparentemente inocente, revela um sintoma grave: a dificuldade cultural de reconhecer o valor do trabalho intelectual, do tempo e da experiência do advogado.

 

Na advocacia, é cada vez mais comum o cliente que não quer pagar a consulta ou tenta reduzir o valor do serviço que poderá ser pactuado futuramente.

 

Mas fica a questão: alguém perguntaria isso a um médico? Ou questionaria um cirurgião sobre o valor da primeira avaliação, sugerindo abater o custo da consulta caso decida pela operação?

 

 

A falsa ideia de que o advogado “só conversa”

 

A resposta é óbvia — e justamente por isso, incômoda. Há uma naturalização da ideia de que o advogado “só conversa”, “só escreve” ou “só peticiona”.

 

Há também a crença de que é “só uma perguntinha”, “só uma olhadinha no processo”, ou “só uma opinião sobre um contrato”.

 

Ora, a “olhadinha”, a “resposta”, a “opinião” dependem de conhecimento técnico, de experiência e de estudo contínuo — e, por isso mesmo, devem ser devidamente remuneradas.

 

É a ilusão do “só apertar um parafuso”, esquecendo-se de que o verdadeiro valor está em saber qual, como e quando apertar. O conhecimento jurídico, assim como a prática médica, exige formação, atualização constante, responsabilidade e, sobretudo, tempo — um recurso não renovável.

 

 

O tempo como ferramenta de precisão

 

O tempo do advogado é como o bisturi do cirurgião: não se mede pelo gesto, mas pela precisão.

 

Por trás de uma orientação jurídica há anos de estudo, noites de leitura, incontáveis horas dedicadas a compreender leis, precedentes, julgamentos e pessoas.

 

A consulta não é um “aperitivo” de uma eventual contratação; é ato profissional autônomo, que demanda preparo e envolve responsabilidade técnica e ética.

 

O cliente “urgente” que some

 

Recentemente, um conhecido me procurou durante uma semana, alegando urgência na resolução de um problema. Queria agendar reuniões para o dia seguinte, sempre com tom de pressa e expectativa de prioridade.

 

Desmarcou duas vezes, por motivos diversos, e depois simplesmente desapareceu. Mais tarde, respondeu à minha mensagem dizendo que havia fechado com outro escritório — com quem já negociava há dias, enquanto pedia, insistentemente, para ser atendido com urgência.

 

Histórias assim se repetem com uma frequência preocupante. Cada desmarcação, cada cancelamento, cada “sumida” representa o desprezo pelo tempo de um profissional que se preparou, reservou espaço na agenda e dispôs de energia mental para ouvir, planejar e agir.

 

 

O preço da confiança e da técnica

 

Outro exemplo: o cliente que, ao saber o valor de entrada, oferece um terço do que foi proposto — como se o preço da confiança e da técnica fosse negociável ao sabor da conveniência.

 

É a mesma lógica que reduz o trabalho intelectual à mercadoria, esquecendo que o advogado não vende papéis, mas entrega segurança, estratégia e proteção.

 

 

Advogar é um exercício de confiança

 

A advocacia é, em essência, um exercício de confiança. Quando alguém procura um advogado, busca mais do que um parecer: busca abrigo em meio à incerteza, voz diante da angústia e clareza onde há conflito.

 

Nenhum software, nenhum formulário genérico substitui o olhar clínico e a escuta humana que a profissão exige.

 

O problema, portanto, não está apenas na desvalorização econômica, mas na banalização da entrega humana.

 

 

Saber custa tempo — e tempo é valor

 

O advogado não é um mero executor de tarefas jurídicas — é um tradutor de direitos, um estrategista da palavra, um guardião das garantias individuais.

 

O valor do seu trabalho não está apenas no resultado, mas no caminho percorrido até ele.

 

Formar-se em Direito é apenas o início. A verdadeira formação se dá no dia a dia: nos casos complexos, nas audiências demoradas, na paciência de explicar o óbvio e na resiliência diante do imprevisto.

 

Cada parecer, cada audiência, cada petição carrega o peso de uma biografia intelectual e emocional que se constrói ao longo de décadas.

 

 

Quanto vale o tempo de quem resolve o seu problema?

 

Por isso, quando alguém pergunta se o valor da consulta pode ser abatido dos honorários futuros, a resposta deveria vir acompanhada de uma reflexão mais ampla: quanto vale o tempo de quem estudou para resolver o seu problema?

 

Enquanto o médico lida com o corpo e o engenheiro com a matéria, o advogado lida com vidas em sua dimensão mais íntima — o medo, o patrimônio, os afetos, a liberdade.

 

Não há “orçamento de confiança” que se pague com desconto.

 

Valorizar o advogado é valorizar o próprio Direito — e, em última análise, a Justiça.