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Robinson Grangeiro Monteiro, chanceler do Mackenzie.
Foto: NTAI/Mackenzie
Todos os anos os enredos das escolas de samba mudam para abordar temas e personagens diferentes, seja para enaltecer, seja para criticar. Algo, no entanto, não muda a cada verão: as enchentes com dezenas de mortos, feridos e grandes prejuízos econômico-financeiro para famílias, empresas e municípios.
O cenário pode ser as baixadas nos contrafortes das serras descabeladas de cobertura da outrora majestosa Mata Atlântica nos estados do Sul e do Sudeste ou áreas próximas de córregos e rios nos grandes centros urbanos do país. Dessa vez, o cenário foi o litoral norte do estado de São Paulo.
Segundo a Defesa Civil, no litoral norte paulista há mais de 4 mil pessoas desabrigadas ou desalojadas em razão das fortes chuvas que atingiram a região. Indicada como a tempestade mais feroz registrada nos últimos anos do país, conforme pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e do Instituto de Meteorologia (Inmet), o volume intenso de água, que chegou a 683 milímetros (em Petrópolis, no ano de 2022, foram registrados 534,4 milímetros), deixou um rastro até o momento de 50 mortos e outros desaparecidos.
Em razão da tragédia, o governo federal decretou calamidade pública e alertou o risco de novos deslizamentos de terra.
De certa maneira, faço coro ao jornalista Josias de Souza, que em sua coluna do UOL, sob o título “Chuvas: Dito e feito, tudo foi dito e nada foi feito” (20/02), escreveu: “o brasileiro olha para o litoral norte de São Paulo com a incômoda sensação de que assiste à repetição de um filme de terror. Um filme feito de tempestade, lama, destruição, desamparo e mais dezenas de corpos. As autoridades sobrevoam o drama munidas do kit básico de primeiros socorros. Nele, há desculpas esfarrapadas, verbas emergenciais insuficientes e as lamentações depois do fato”.
Parece que em nossa cultura a possibilidade da tragédia, sobretudo diante do risco conhecido, contínuo e iminente, não leva à prevenção, mas a uma Commedia dell’Arte, triste e cheia de improvisações, na qual o triângulo amoroso dos antigos carnavais, envolve um Pierrô, que ama a Colombina, que, por sua vez, ama o Arlequim, o qual também deseja a Colombina.
A marca do improviso e a brincadeira com a vida são notas dissonantes dessa marchinha fúnebre, mesmo quando os personagens trocam de nomes e de filiações ideológicas. Em um país rico, mas marcado pela imprudência e pela imprevidência ao extremo, há muito tempo o Estado, em suas três esferas, deveria ter uma política que atravessasse governos e garantisse condições de emprego e renda e, consequentemente, de moradia segura para as camadas mais vulneráveis da sociedade.
Agora que sobraram apenas os retalhos de cetim da vida de tantos atingidos pelas enchentes, além de chorar na avenida, pois o efeito anestesiante do Carnaval já passou e a dignidade da vida não desfilou mais uma vez, será que há algo mais que pode ser feito, além das mobilizações e da ajuda aos desabrigados?
Acredito que o exercício da cidadania está no centro da prevenção e da atuação nesses acontecimentos cíclicos de enchentes e desabamentos no Brasil. O Estado só se move impulsionado pela cidadania. É fundamental propor ações comunitárias e associativas, com peso representativo suficiente, sobre as Câmaras Municipais de municípios costumeiramente atingidos, porque é no legislativo municipal que o ordenamento do solo é decidido.
É preciso também pressão popular legítima sobre os governos estaduais e o governo federal, seja sobre o Poder Legislativo, seja sobre o Executivo, para garantir não apenas as verbas orçamentárias mas também o devido uso do investimento real desse dinheiro em ações imediatas de intervenção em áreas críticas e em ações estruturantes preventivas.
A vida de cada cidadão brasileiro não é apenas responsabilidade de cada um, de cada família. É também dever do Estado, conforme reza nossa constituição. Há uma tutela mínima de segurança e de saúde sobre a população, que é obrigação do Estado, independentemente da concepção ideológica que defina quais são seus deveres, além destes.
Ao falar de cidadania, introduzo um conceito muito precioso para a visão cristã reformada sobre os deveres do cristão relacionados ao amor ao próximo, quais sejam o de solidarizar-se, demonstrando legítima compaixão, que não apenas sente a dor dos que sofrem, mas que efetivamente se mobiliza para atenuá-la, seja pelas orações de consolo para que sejam confortados em meio à tragédia, seja em boas obras de ajuda concreta quando mais se precisa.
As tentativas de explicação das razões por que vidas tão preciosas se perdem no mar da negligência humana nunca serão suficientes para aliviar a dor. Como consolar o pai ou a mãe de um filho pequeno cuja existência toda ainda estava pela frente? Como trazer paz às memórias saudosas de alguém que já não tem mais a companhia de quem se foi? Essa não é uma tarefa possível às palavras humanas, mas é bem provável encontrar no ombro amigo, às vezes silencioso, e, certamente, nas súplicas a Deus a força para viver apesar do que aconteceu. Por isso, além de chorar com os que choram, suplicar a graça divina alivia e ajuda.
Para dar concretude a essa solidariedade, várias igrejas e concílios da Igreja Presbiteriana do Brasil e a Gerência de Responsabilidade Social do Instituto Presbiteriano Mackenzie já têm se mobilizado em campanha de arrecadação de fundos e de bens de primeira necessidade, os quais estão sendo enviados para compor com outras forças da sociedade o apoio que atenue as perdas materiais.
A esperança que não desce encosta abaixo no ritmo do desespero é que tudo que foi dito seja totalmente feito por cada um e por todos nós.