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Eu afirmo: “Tudo a ver!”, pois inúmeros estudos e pesquisas provam essa relação colaborativa há anos.
Robinson Grangeiro Monteiro, chanceler do Mackenzie.
Foto: NTAI/Mackenzie
Eu afirmo: “Tudo a ver!”, pois inúmeros estudos e pesquisas provam essa relação colaborativa há anos.
Ao fazer seu famoso questionamento retórico sobre a relação entre a filosofia e a teologia, Tertuliano estabeleceu um paradigma reflexivo claramente excludente. É quase como se ele dissesse que Jerusalém está tão geograficamente distante de Atenas, quanto a filosofia ocidental é absolutamente incompatível com a fé monoteísta. Será?
Bem, não é de hoje a tendência de fragmentar o conhecimento em sistemas estanques, por receio de que, ao tentar o diálogo entre áreas, o resultado seja o prejuízo ou o esvaziamento de um pelo outro, principalmente diante de incompatibilidades conceituais.
No caso da relação da filosofia com a teologia, milênios de construção de suspeitas e preconceitos têm produzido tentativas de proclamar primazia e hegemonia de um sobre o outro. Quanto às ciências da mente e do comportamento, que adquiram status de ciência mais recentemente,* as escaramuças com as teologias, sobretudo a teologia cristã mais conservadora, são mais intensas e apaixonadas com as psicologias, principalmente com aquelas de base analítica.
Enquanto nas “zonas minadas” entre a teologia e a filosofia as temáticas relacionadas à metafísica e à cosmogonia são mais tortuosas para uma caminhada mais companheira do que competitiva, no caso das psicologias as encruzilhadas que separam os caminhantes são, majoritariamente, temas da antropologia e da soteriologia, no caso da teologia, com as propostas terapêuticas, em se tratando da clínica psicológica.
E se tem alguém que sabe isso por experiência própria é este aqui que escreve. Teólogo e ministro presbiteriano há 35 anos e psicólogo clínico por mais de 20 anos, sofro desconfianças e olhares enviesados de ambos os polos desse espectro. Nunca me senti pessoalmente atingido pelas críticas infundadas de deslealdade a qualquer uma dessas funções, nem compelido a capitulações em favor de um dos lados ou seduzido por integracionismos rasteiros. Lamento apenas a ignorância de uns e a pretensão de outros.
Contudo, nem mesmo todo o discurso da transdisciplinaridade e da interdisciplinaridade será capaz de construir um campo de diálogo na tentativa de buscar espaços de compreensão e colaboração, mesmo preservando os pressupostos e os conceitos de cada lado?
Para uns, isso é impossível. Para outros, é possível, embora difícil, se o foco não for sobre temas específicos aplicados a realidades práticas. Eu faço parte desses últimos. Acredito que um bom início para galvanizar essa possibilidade começa quando se compreende algumas diferenças epistêmicas e, de maneira prática, busca-se um bem comum, como o coping necessário diante dos desafios cotidianos tão capazes de gerar infelicidade. E haveria um bem mais comum, buscado por todos e por cada um, do que a felicidade?
Então, parafraseando Tertuliano, mas com sincero desejo de responder positivamente, a questão passa a ser “O que tem a ver a espiritualidade com a felicidade?”. Eu afirmo: “Tudo a ver!”, pois inúmeros estudos e pesquisas provam essa relação colaborativa há anos.
Uma dessas pesquisas demonstrou que a espiritualidade foi justamente o fator-critério mais definidor da felicidade em pesquisa recentemente aplicada a quase 6 mil pessoas em onze regiões do estado de São Paulo e publicada pelo Estadão, por ocasião do Dia Internacional da Felicidade (20/03). O resultado é que “a espiritualidade é o atributo mais decisivo para a sensação de felicidade dos paulistas e as mulheres se tornaram mais felizes do que os homens”.
Os críticos dessa pesquisa, realizada em 2004 em sua primeira edição, dirão que o conceito de felicidade é subjetivo e que a ideia de espiritualidade é ainda mais polissêmica. Admito. Mas o próprio coordenador da pesquisa esclarece, ao falar da metodologia da pesquisa: “como a percepção de felicidade é subjetiva, a melhor forma de avaliação é propor que os entrevistados definam o nível de felicidade que estão sentindo e os atributos que mais interferem nessa sensação (sic)”.
Ou seja, pode até não ser a ideia de felicidade que todos subscreveriam, mas para cada um é a felicidade desejada, não necessariamente atrelada a fatores materialistas como dinheiro.
E quanto à espiritualidade? Ora, seja qual for a prática religiosa dos respondentes, certamente ser espiritual envolve valores como crença em alguma dimensão de transcendência, imaterialismo, alteridade, sensibilidade, maturidade etc., construtos que em outras pesquisas sobre o tema são valores justamente agrupados como religiosidade.
E não é exatamente isso que a maioria das religiões busca ensinar a seus seguidores, inclusive a confissão de fé cristã? Não conheço uma religião sequer, cujas crenças fundantes busquem produzir infelicidade naquele que adere a ela, até porque não teria adeptos! O fato é que espiritualidade é o que se pode chamar de “valor de bem comum”, embora seja teologicamente definido de modo específico por cada confissão religiosa.
No caso da fé cristã, especificamente falando, a espiritualidade é fruto de uma relação estruturada e saudável com o Criador, mediada pelo Redentor Jesus, manifestada em atos de gratidão, louvor e confiança e decorrente dessa dimensão vertical; é desenvolver uma relação com o próximo, praticada em atos de amor fraterno e concreto, na dimensão horizontal da existência.
Assim, para o cristão, espiritualidade que gera felicidade é o famoso amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo. E isso gera o tipo de felicidade que não se expressa em gargalhadas sonoras e espírito festivo em todo o tempo, mas em uma paz serena, que dá força para viver e ânimo para ajudar outros a escolher a vida em vez da morte.
[*] As psicologias adquiriram status de ciência somente em 1879 com o Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de Leipzig, criado por Wundt (1832–1920).