Palavra do chanceler
Poema de Cecília Meireles

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Título: Protestantismo e Educação
Elemento decorativo
Robinson Grangeiro Monteiro

Robinson Grangeiro Monteiro, chanceler do Mackenzie.

Foto: NTAI/Mackenzie

Não digas que és dono.
Sempre que disseres
Roubas-te a ti mesmo.
Tu, que és senhor de tudo….
Deixa os escravos rugirem,
Querendo.
Inutiliza o gesto possuidor das mãos.
Sê a árvore que floresce
Que frutifica
E se dispersa no chão.
Deixa os famintos despojarem-te.
Nos teus ramos serenos
Há florações eternas
E todos as bocas se fartarão.

Cecília Meireles

O poema acima faz lembrar a coreografia do egoísmo — “o gesto possuidor” — para exortar que, em vez de se achar dono, o leitor seja levado a, não possuindo nada, ser o senhor de tudo.

Para assim inspirar, a poetisa relembra os ciclos de vida de uma árvore, que uma vez foi apenas semente, mas, crescida, agora floresce, frutifica e espalha seus frutos na terra, a fim de serem usufruídos pelos famintos.

O que me chama mais a atenção são as duas últimas linhas do poema, que apontam para a transcendência — “Há florações eternas e todas as bocas se fartarão” —, indicando a verdade inquestionável, embora frequentemente esquecida, de que nossos atos ultrapassarão a própria existência.

Desse modo, o egoísmo tem um rival que o supera: o altruísmo. Diferentemente do que os mais desconfiados o acusam de ser apenas interesse próprio mal disfarçado, na verdade se torna possível porque o amor também ultrapassa a barreira da existência, na medida em que o amor mais altruísta — o ágape de Deus — é a fonte mais profunda e autenticadora de toda caridade.

A Escritura Sagrada registra que “nós amamos porque ele nos amou primeiro” e por isso, “se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”. O argumento é concluído na forma de mandamento: “Quem ama a Deus, ame também seu irmão” (1 João 4:19,21).

E de que maneira se ama ao próximo? Um dia, alguém fez essa pergunta a Jesus, que contou a magistral parábola do bom samaritano, cujo fator distinto mais simbólico foi, ao ver a necessidade do moribundo na beira do caminho, não apenas se moveu na direção de ajudar mas também “abriu mão dos próprios recursos” para suprir a necessidade do outro. Literalmente, o bom samaritano “inutilizou o gesto possuidor das mãos” e consagrou ao outro o melhor de seu tempo, talento e tesouro.

Nesse tempo do ano em que o maior gesto de amor do universo — o nascimento de Jesus — é lembrado mais intencionalmente, é preciso afirmar que a mão que recebe deve ser a mão que agradece.

Portanto, ao lembrar do exemplo de Jesus — “que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (II Coríntios 8:9) — e assim manifestou a riqueza de sua graça, o apóstolo Paulo exortou aos da cidade de Coríntios que fossem sinceros no amor, embasado na experiência da igreja muito mais pobre da Macedônia que “no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade” (II Coríntios 8:2).

Em outras palavras, não é da riqueza que surge a generosidade, mas é da gratidão pela graça recebida que nasce a motivação para inutilizar o gesto possuidor das mãos e compartilhar o que se tem, com quem tem ainda menos do que você.

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