Professor do Mackenzie projeta e pilota avião que construiu do zero

24 de junho de 2026 | Atualidades Destaque

Fabricar algo do zero não é fácil, imagine construir um avião. O professor Marcelo Silva Oliveira, do curso de Design da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), projetou sua própria aeronave como resultado de seu amor pela aviação. 

Vindo de uma família de pilotos, Marcelo é a segunda geração apaixonada por voos, e seu desejo pelo próprio avião o motivou a desafiar seus limites em busca de seu sonho. Confira a seguir nosso bate-papo com o mackenzista:  

Como surgiu a ideia de construir o avião e em que momento decidiu transformar essa vontade em um projeto real? 

Marcelo Oliveira: A ideia de construir veio da impossibilidade de comprar. Eu sempre quis ter o meu próprio avião e não tinha dinheiro para comprar um, porque é caro, mas eu tinha o conhecimento e poderia ganhar conhecimento em técnicas de construção para fazer acontecer. Por isso eu falo que querer é poder, você vai atrás e consegue. Tudo bem, eu batalhei muito, mas consegui transformar a minha vontade na construção.

De que forma sua experiência na área de design ajudou no planejamento e na construção de aeronaves? 

Marcelo Oliveira: O desenho industrial, curso que realizei no Mackenzie, tinha uma série de disciplinas de engenharia, inclusive cálculo e física, que eram os mesmos da engenharia. Nós tínhamos muito desenho técnico e aula projetual. Com o tempo fui buscando as minhas fraquezas, que eram materiais, técnicas de construção e estruturas. 

Para mim, o aluno precisa descobrir quais áreas de conhecimento ele gostaria de aprimorar e buscar cursos que fortaleçam seus estudos. Na época eu queria aprender a programar em Python, então busquei um curso focado nisso. Mas é claro que o design me ajudou durante o processo, porque o curso do Mackenzie é um dos mais completos e profundos no Brasil hoje. Portanto, me ajudou, sem dúvida.  

Qual foi o primeiro passo prático do projeto, partiu de plantas, kits, pesquisa própria, contou com orientação de especialistas? 

Marcelo Oliveira: Foi um pouco de tudo, eu tive sempre contato com as pessoas que eram construtores e engenheiros natos, pessoas que não tinham curso de engenharia, mas eram pessoas que conseguiam projetar e construir, tive uma forte rede de apoio. 

Algumas vezes eu partia de plantas para adaptar o sistema construtivo ou as dimensões, mas sempre procurava desenhar algo de minha autoria, porque havia características que sabia que queria em meu desenho. 

Realizava as minhas modificações, mas sempre procurava a opinião de especialistas, que eram amigos com mais experiência. 

Como foi o processo de adquirir materiais, peças e ferramentas, houve algo difícil de encontrar ou que precisou ser adaptado? 

Marcelo Oliveira: Sim, todo o material de uso aeronáutico geralmente não tem no Brasil, se tem, ele é escasso e custa caro. Como é o caso de uma liga de alumínio chamada alumínio naval 5052. É possível achar essa liga, porém é mais difícil e é necessário pagar um preço maior do que o alumínio convencional, mas esses são os desafios da área. 

Quanto tempo levou todo o processo e como conciliou a construção do avião com a rotina como professor? 

Marcelo Oliveira: O avião demorou quatro anos para ficar pronto, três anos e pouco, e na verdade, conciliei com a própria rotina. Trabalhei aos finais de semana, à noite quando chegava do serviço e trabalhava as manhãs que podia. 

A minha pesquisa no Mackenzie era o avião, então muita coisa fazia dentro da universidade, nada melhor que um professor ter a prática para mostrar ao aluno e poder dizer: “eu fiz, eu construí, eu sei como é que faz”. O professor pesquisador, possuí o lado prático e a teórico. O que acaba trazendo diversos benefícios à formação do aluno.

Quais foram os primeiros desafios técnicos, erros ou imprevistos durante a construção? 

Marcelo Oliveira: O primeiro é o manuseamento de materiais diversos que possuem características diferentes, por exemplo, o alumínio, que precisa de um manuseio delicado para evitar que ele gere o subproduto da alumina. Se você colocar o alumínio puro com a sua mão suando, ele com certeza irá corroer a chapa. 

Outro desafio são as plantas de avião, pois todas as medidas são americanas, pelo menos, não são no sistema internacional. Portanto não é em metro, é em pé. Até você aprender que um quarto de polegada é igual a 6.2 milímetros, você passa por algumas dificuldades. Na aviação as brocas e ferramentas para furação são em polegadas, então é necessário entender esses conceitos antes de começar. 

Como aconteceram os testes até o avião estar pronto para decolar e quais autorizações, registros e permissões foram necessários? 

Marcelo Oliveira: O processo aconteceu em duas partes. A primeira é a construção do avião, quando se inicia um processo na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) que é o órgão regulamentar, é aberto um processo chamado H03, no qual são disponibilizadas todas as documentações e é possível começar a acompanhar o processo. No final da construção, eles realizam a inspeção dos materiais na sua construção e emitem um certificado de aeronavegabilidade, ele permite que você faça voos. 

Além disso é necessário ter um rádio a bordo com a estação na Anatel de rádio, a qual você precisa pagar. Outra coisa essencial é a matrícula no avião, em que os pilotos precisam entrar no RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro), e pagar uma taxa, depois você pode escolher um prefixo para o registro. 

Posteriormente tem a fase dos ensaios de voo, no começo eu realizava os treinos com muito cuidado, mas em 2021 realizei um curso de Pós-Graduação de piloto, com instrutores militares e alguns da Embraer, o que me ajudou a ter maior consciência situacional e confiança. Como eu já era piloto, me ajudou a conquistar a formação de piloto de prova, que é bem diferente de voo normal.

Quando fez o curso de piloto e como foi a experiência de ver — ou pilotar — uma aeronave construída por suas próprias mãos?

Marcelo Oliveira: Quando eu realizei o curso de piloto tive uma experiência ótima, meu pai também realizou o curso na década de 50, eu sou a segunda geração na família de pilotos. Já tem uma terceira, que são filhos de primos que estão virando pilotos, portanto nossa família tem três gerações de pilotos. 

A experiência de voar é algo mágico, porque de repente você está acelerando em uma pista e daqui a pouco você decola.

E fazer alguma coisa que você construiu, é um prazer enorme, porque tem as suas mãos ali. Se está tremendo um pouquinho, você sabe o que foi e onde está, pois você tem a rastreabilidade de causa e efeito de tudo que você colocou no lugar. 

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