O desafio de avaliar empreendedores

15.01.202009h30 Comunicação - Marketing Mackenzie

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Por João Marcos Varella*

Vivemos um período de intensificação de startups. Muitos são os que desejam o sucesso empreendendo e desenvolvem as mais variadas ideias, muitas delas significando reais oportunidades.

Quase sempre o desenvolvimento de startups exige aportes de capital. Para obter esses recursos os empreendedores buscam aceleradoras ou investidores, anjos, venture capital, incubadoras e outras formas.

Os investidores fazem uma avaliação criteriosa dos potenciais negócios. O mercado, a oportunidade, a tecnologia, a inovação, a criatividade, o ineditismo e, sobretudo, a possível rentabilidade.

Os investidores tem consciência de que mesmo após esse exame um porcentual menor terá sucesso e um porcentual maior não corresponderá às expectativas.

É aí que um fator imponderável tem a sua importância. Visto objetivamente o plano de negócio e seu potencial cabe avaliar a pessoa ou pessoas que irão executar a ideia, realizar o projeto. Essa passa a ser a grande preocupação: quem é essa equipe que vai realizar esse projeto. Seu potencial é confiável?

Essas avaliações tem um forte conteúdo subjetivo. Mesmo considerando a história de realizações, as competências e experiências, outros fatores impactam o julgamento sobre quem é essa pessoa que vai gastar os recursos aplicados.

A comunicabilidade, a confiança na forma de defender as ideias, a postura física, o estilo pessoal mais familiar, os recursos usados para demonstrar a ideia estruturam a nossa avaliação resultando na crença, quase uma aposta, de que o investimento estará em boas mãos.

Cabe a reflexão. Afinal o que é comportamento empreendedor?

Durante décadas muitos pesquisadores e escritores procuraram definir o que é ser empreendedor e quase todos os critérios não se mostraram consistentes. Muito menos os que procuravam traços de personalidade.

A observação de empreendedores mostra que eles apresentam alguns comportamentos que podem ser descritos, observados, mapeados e desenvolvidos.

Comportamentos quando mapeados estatisticamente são distribuídos como uma curva de Gauss, isto é, a tendência predominante indica maior adaptação às circunstâncias, desafios e adversidades.

Os desvios também caracterizam maior dificuldade de adequação às contingências manifestando comportamentos que têm como consequência dificuldades na gestão dos negócios.

Vamos considerar alguns comportamentos, examinar como contribuem para o desenvolvimento da empresa quando adequados e como afetam negativamente quando apresentam desvios.

Podemos relacionar protagonismo, pensamento crítico, autocontrole, otimismo, propósito e empatia.

Protagonismo: Consiste na autoconfiança para tomar iniciativas, estabelecer metas exequíveis, facilidade para realizar. São comportamentos necessários para empreender.

Desvio nesse comportamento pode, por excesso de autoconfiança, definir objetivos acima do seu potencial podendo correr o risco de fracasso. Por outro lado, a falta de autoconfiança pode inibir ações necessárias.

Pensamento crítico: é a capacidade de fazer uma boa análise de contexto identificando corretamente as evidências da realidade, estabelecendo corretas relações de causa e efeito permitindo tomadas de decisão adequadas e planejamentos realizáveis.

Desvios no pensamento crítico possibilitam a visão da realidade com distorções e consequentes decisões que entrarão em conflito com os fatos, causando riscos e potencial estresse.

Autocontrole: Muitos acontecimentos fogem da nossa expectativa e pessoas podem se comportar de forma bem adaptada às mudanças, superando os desafios sem estresse.

Outras pessoas, como indicam os desvios, tem dificuldade para lidar com situações como, por exemplo, negociações, decisões, relações com sócios, com fornecedores e subordinados e principalmente clientes, o que pode comprometer o negócio.

Otimismo: Ter uma visão permanente de que as circunstâncias podem melhorar facilita a disposição para enfrentar os desafios e se dedicar na busca de resultados.

O excesso de otimismo caracteriza a espera que tudo melhore independente da viabilidade e do que realmente está ao alcance. Por outro lado, na falta de um otimismo moderado uma visão pessimista bloqueia os esforços necessários.

Propósito: Manifesta a vontade de empreender como uma expressão do potencial da pessoa, que se expressa na execução de seus projetos de vida e na conquista de resultados. Observamos um propósito adequado pela integração entre o sentido da vida com o empreender.

Ao contrário, desvio nesse comportamento de um lado se manifesta com excesso de envolvimento na atividade, quase um fanatismo ou, pelo contrário, a falta de envolvimento e empenho. Nos dois casos impactando o negócio inadequadamente.

Empatia: Entender adequadamente o que o outro pensa e sente facilita entender o mercado, o cliente, a relação com as pessoas e a capacidade de liderar e obter apoio para seus projetos.

Por outro lado quando o pensamento ou sentimento do outro é presumido e restrito à própria referência, isto é, “certamente pensam como eu”, a consequência será avaliar mal as circunstâncias e errar nas decisões e prejudicar os vínculos com as pessoas.

Este resumo apresenta como o mapeamento desses comportamentos pode facilitar a avaliação de empreendedores e identificar potenciais riscos que a inadequação possa provocar.

Por outro lado, comportamentos podem ser treinados. Eles foram consolidados ao longo da vida e podem ser mudados.  Isso é possível a partir da percepção do risco de comportar-se de forma inadequada diante dos desafios diários.

O campo da psicologia que se dedica a estudar a adequação de comportamentos que possam causar riscos é o estudo científico da Resiliência.

Resiliência Científica entendida como a capacidade de superar de forma adequada desafios ou adversidades sem estresse, evitando o risco e, a cada superação, adquirindo maior potencial para superar novos desafios.

Existe instrumento para mapear comportamentos resilientes fundamentado em estudos estatísticos e indicadores específicos para cada comportamento e com base em amostras grandes e significativas.

O apoio desse mapeamento pode contribuir para uma avaliação do potencial de empreendedores, e quando necessário monitorar o desenvolvimento de comportamentos mais adequados.

Certamente empresas que incentivam startups, aceleradoras e investidores se sentirão mais confortáveis podendo ter o apoio de um ferramental objetivo e de base científica.


*João Marcos é psicólogo e orienta empreendedores há mais de 30 anos