As virtudes Hayekeanas - remédios para o coletivismo e o autoritarismo

"Pode parecer que hoje tudo esteja diferente, mas mesmo em tempos de democracia, globalização, tecnologia e Indústria 4.0, certos valores trazidos e incrementados ao longo de tantos anos de processo histórico teimam em nos empurrar para posturas coletivistas, autoritárias e que diminuam a importância do indivíduo perante o todo."

10.02.202009h09 Allan Augusto Gallo Antonio

Compartilhe nas Redes Sociais

Em meu artigo de 23 de janeiro de 2020 tratei sobre o significado de liberdade e fiz uma distinção entre dois significados muito distintos que ela pode ter, primeiro abordei o conceito de liberdade da necessidade (muito comum atualmente) e depois o da liberdade da coerção (conceito clássico). Daquele artigo surgiram diversas discussões tanto nos corredores da Universidade quanto entre os amigos professores, alunos e até mesmo com alguns familiares. O resultado de todas as discussões e conversas me fez perceber uma realidade que é negligenciada por muitos liberais:

A maioria das pessoas não sabem porque que precisam de liberdade.

Assim, muito mais do que entender o seu conceito correto, as pessoas precisam entender que precisam dela e que isso é bom para todos nós.

Novamente parece óbvio (as vezes sinto como se meus artigos fossem permeados de obviedade), mas de fato não é. Existe um processo histórico a que todos nós estamos sujeitos (nem sempre conscientes) e que teve o seu início lá no século XVII com o que modernamente denominamos Revolução Francesa (1789-1799). Se por um lado culpar um movimento histórico por todos os males que afligem atualmente a liberdade é demasiado simplista, por outro não há como negar que a reação ao ancien régime criou o ambiente ideal para o surgimento de muitas das ameaças modernas que enfrentamos.

Friedrich August von Hayek (1899-1992) ao escrever o seu livro “O caminho da Servidão” teceu pesadas críticas aos regimes autoritários e coletivistas (de esquerda e de direita) que beberam das fontes da Revolução, pois segundo ele, tais regimes buscavam subjugar o indivíduo em benefício de supostos valores coletivos que confeririam às sociedades ares de eficiência e superioridade. O planejamento central seria fundamental para a criação da sociedade dos sonhos e para isso valores e direitos humanos individuais seriam sacrificados.

Pode parecer que hoje tudo esteja diferente, mas mesmo em tempos de democracia, globalização, tecnologia e Indústria 4.0, certos valores trazidos e incrementados ao longo de tantos anos de processo histórico teimam em nos empurrar para posturas coletivistas, autoritárias e que diminuam a importância do indivíduo perante o todo.

Foi pensando nisso e na necessidade de demonstrar o quão fundamental é a liberdade para nós, seres humanos, que procurei na obra Hayek algo que pudesse nos ajudar a sermos mais (e melhores) liberais, algo que funcionasse como linhas gerais, princípios pelos quais poderíamos nos orientar para proteger a nossa liberdade ao mesmo tempo que zelamos pela liberdade do nosso próximo.

Denominei-as de “Virtudes Hayekeanas”, conquanto as virtudes tenham sido elencadas pelo renomado austríaco, as explicações e exemplificações ficaram a cargo do autor.

Independência – Vivemos em sociedade e isso é bom. Compartilhamos nossa existência com nossos semelhantes, desfrutamos daquilo que produzimos e do que os outros produzem. Certamente não desfrutaríamos do mesmo conforto, caso todos vivêssemos como ilhas isoladas em suas próprias existências. No entanto, apesar de mutuamente benéfica a vida em sociedade não é simples. Por vezes nos submetemos ou criamos situações de dependência não saudáveis, que servem para embasar relações abusivas – seja na vida profissional, pessoal, religiosa, acadêmica e até mesmo em nossa vida política como cidadãos. Ser liberal envolve recusar participar de relações em que nossa independência enquanto seres humanos é violada. Não se trata de recusar a sujeição mútua e voluntária para fins maiores, mas de recusar arranjos sociais abusivos e unilaterais.

Autoconfiança – Para empreender qualquer tarefa na vida é preciso ter autoconfiança. Não uma autoconfiança cega típica dos livros de autoajuda que nega os fatos da realidade e cria para si uma realidade paralela, mas uma disposição mental otimista de autoconfiança que nos permita empreender algo, uma vez que consideremos que existam as condições para tal. É o oposto do medo e da insegurança.

Iniciativa individual – Fruto das ideias coletivistas que acabam criando em nós um senso de dependência,temos a tendência a desprezar os pequenos começos e, portanto, também a iniciativa individual. Ao longo dos anos fomos incutidos com a ideia de que para se atingir um objetivo grandioso é necessário um esforço conjunto. Somos prontos em afirmar que “ uma andorinha não faz verão” e acabamos esquecendo que os esforços coletivos são frutos em sua maioria de iniciativas individuais. Um grão de arroz desequilibra a balança e a história tem mostrado como homens e mulheres tem modificado os rumos da humanidade com iniciativas individuais.

Responsabilidade local – Na infância sempre recorrermos aos nossos pais para pedir socorro em situações difíceis. Essa tendência natural e saudável nas crianças acaba por tomar rumos patológicos na fase adulta, quando ao invés de tomarmos as rédeas da nossa vida para resolver problemas individuais ou comunitários, escolhemos delegar para uma outra entidade todo o poder e recursos para resolver os nossos problemas. Somos prontos a delegar a responsabilidade local, para entidades que muitas vezes não conhecem a realidade na qual está inserido o problema e cuja atuação muitas vezes pode ser mais maléfica do que benéfica.

Confiança na atividade voluntária – Fomos ensinados que ninguém age desinteressadamente. Isso é verdade, pois todos nós reagimos aos incentivos, mas esquecemos do fato de que os incentivos não são apenas de ordem econômica. Fundações, Santas Casas, Asilos, Universidades e Caixas de Assistência foram iniciadas por meio de atividades voluntárias. Indivíduos e comunidades agem voluntariamente para solução de problemas. Ser liberal envolve em grande parte acreditar, incentivar e participar de inciativas voluntárias que visam emancipar as pessoas e dar soluções concretas para problemas reais.

Não interferência na vida do próximo – Temos a tendência natural a querer interferir na vida alheia. Existe em nós o desejo de controlar a vida e as ações dos outros. Muitas vezes nos incomodamos com atitudes e ideias que não nos afetam, mas insistimos em interferir em escolhas de terceiros. Ser liberal envolve mais do que apenas proteger a sua liberdade, envolve também respeitar a esfera de soberania individual de cada ser humano, entendendo que todos somos livres para agir dentro, desde que nossas ações não firam a liberdade de outros.

Tolerância aos que são diferentes – É preciso entender que antes de pertencermos a qualquer grupo somos indivíduos, diferentes em nossas preferências, mas iguais em nossas naturezas. Ser liberal envolve empatia com o semelhante, não exige concordância, mas empatia é fundamental. É preciso reconhecer o direito do outro de existir. Atualmente temos assistido a diversas correntes ideológicas e religiosas se digladiando na esfera pública, seja na briga pela formulação de políticas públicas ou pelo direito de serem ouvido e assimilado pelas massas. Ser liberal envolve segmentar as praças públicas e entender que nunca nenhum grupo destruirá o outro. Existem cosmovisões que são impossíveis de serem sintetizadas e harmonizadas – não dá para misturar – mas é possível conviver e entender que todos sem exceção têm espaço em uma sociedade verdadeiramente liberal.

Respeito pelos costumes e tradições – Já disse anteriormente que não somos ilhas isoladas. Somos frutos do passado. Até mesmo as nossas ideias são ideias que tomamos emprestadas de homens e mulheres que viveram no passado. Edificamos nosso edifício de opiniões sob opiniões e costumes já estabelecidos. Quando nos colocamos a refletir sobre os conceitos de liberdade, amor, lealdade e justiça, estamos ingressando em uma grande conversa que permeia toda a história humana. Desprezar essa conversa e suas tradições implica necessariamente em correr o risco de repetir algo que já foi dito ou de cometer erros já cometidos. Não é preciso concordar com os costumes e tradições de uma sociedade ou de um grupo, é preciso compreendê-los, zelar por eles e enriquece-los a medida que participamos dessa grande conversa.

Desconfiança saudável do poder e da autoridade humana – Por fim, para sermos melhores e mais liberais é preciso desconfiar do poder e da autoridade. Não significa abraçarmos teorias conspiratórias, mas compreender que por detrás de todo poder ou autoridade constituído está um ser humano falível, com aspirações pessoais, racionalidade limitada e tendência natural a se corromper. Não é razoável entregar todo o planejamento e poder nas mãos de autoridades. É preciso descentralizar e fiscalizar sempre – não importa a situação.

Liberdade é bom para todos. Desse modo, ser liberal significa em última instância viver em consonância com a máxima de “amar o próximo como a ti mesmo”. Somente quando entendemos que ao proteger a liberdade do outro estamos protegendo a nossa própria é que poderemos desfrutar de relativas paz, harmonia e estabilidade em meio a tantas turbulências.