(Des)informação na Greve dos Caminhoneiros no Brasil

17.08.201813h48 Professor Doutor Diogo Rais, Direito, e Fernanda Conrado, advogada.

Compartilhe nas Redes Sociais

A Internet é a grande fonte de informação das pessoas, as quais, por sua vez, depositam um elevado nível de confiança em seus conteúdos, podendo viabilizar, progressivamente, a incidência e o compartilhamento de Fake News – notícias falsas, em tradução livre da língua inglesa – e, em sentido lato, a desinformação.

A chamada “paralisação dos caminhoneiros” que constituiu a suspensão voluntária das atividades da categoria, com início na segunda quinzena do mês de maio de 2018, reivindicando, em suma, a redução no preço de combustíveis, pode ser um exemplo do uso vertiginoso da Internet para se comunicar e criar mobilizações.

O movimento foi amplamente divulgado, tanto por parte da Imprensa nacional quanto por meios de comunicação internacionais, destacando-se a emissora norte-americana de televisão CNN, a rádio pública norte-americana NPR, o jornal norte-americano The Washington Post, o grupo de comunicação britânico BBC, o jornal argentino Clarín e o telejornal alemão Tagesschau, noticiando o caos, os prejuízos econômicos, bem como as medidas governistas de cessão frente às exigências dos caminhoneiros, em sua semana inicial.

Pode-se apontar que tal paralisação se desenvolveu pelas redes sociais, e aplicativos multiplataformas de mensagens instantâneas e chamadas de voz, que se transformaram em vetores da amplificação dos caminhoneiros participantes, tendo em vista a comunicação constantemente atualizada e uniforme dos mesmos em todo o território brasileiro, dotado de dimensões continentais.

A criação de ummonte de líderes no movimento – conforme descrição do presidente da União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam), José Araújo Silva – contribuiu para o poderio da sociedade conectada, de modo singular em tal protesto, no qual a atuação do sindicato e das entidades de classe tem sido contestada e atenuada pela propagação das opiniões em tempo real nos aplicativos e em redes sociais, granularizando a liderança tradicional.

Um dos líderes que estava à frente do movimento, Claudinei Habacuque, afirmou à revista brasileira Piauí que uma ideia recorrente nos grupos era ter o apoio da população. Diversas mensagens marcavam manifestações e faziam convocações para uma paralisação geral na semana seguinte – o que não ocorreu. Nos grupos de comunicação virtual, circularam vídeos de manifestantes fechando rodovias junto com os caminhoneiros, tentando chamar a atenção de outras parcelas da população. O engajamento, no entanto, ficou aquém do que se esperava. “A ideia era tomar a Avenida Paulista. Mas isso infelizmente não aconteceu”, disse Habacuque; tal ilustração elucida os bons préstimos, ainda que tentados, da união social por meio dos aplicativos e redes sociais, primando-se por fatos verídicos e, portanto, confiáveis.

Durante este movimento, a variedade de desinformações circuladas, igualmente colaborou para o surgimento dos respectivos memes – em grego, imitação; em outras palavras, qualquer tipo de informação gerada e utilizada na Internet que alcança rápida popularidade, difundindo-se entre inúmeros usuários rapidamente (seja uma imagem, vídeo, música, dentre outras expressões criadoras) – as quais, a princípio, podem gerar uma sensação de humor e contentamento de tal complexa situação. Entretanto, uma percepção mais apurada permite compreender os estragos que podem ser causados, em razão da má-fé ao serem criadas e o desconhecimento ao serem compartilhadas situações que não correspondam à realidade.

Dentre as desinformações mais vinculadas e, portanto, de considerável repercussão, pode-se citar, apenas para fins elucidativos:

  • Corte da energia elétrica;
  • Corte da Internet/Bloqueio de aplicativo;
  • Confusão na Câmara dos Deputados;
  • Decretação de Estado de Sítio;
  • Renúncia do presidente brasileiro Michel Temer;
  • Intervenção Militar/Tomada de poder pelas Forças Armadas;

Embora a pausa propriamente dita das atividades não tenha sido uma Fake News, ao seu redor e com base naquela, houve uma poluição que desinformou diversos indivíduos. Desse modo, a paralisação dos caminhoneiros ilustra o quanto a Internet é utilizada como um grande exemplo de mobilização da sociedade digital, reivindicando um direito social considerado justo por parte dos trabalhadores, realizado por meio da conectividade virtual e real – o direito de reunião – previsto constitucionalmente. A rede mundial de computadores facilita a conexão, inclusive para fins de exercício democrático – em um Estado Democrático de Direito –, sendo considerada uma espécie de instrumento da Democracia, além de expor uma faceta positiva da inovação tecnológica. Ainda assim, produz efeitos colaterais, o que pode ser ilustrado com as notícias falsas surgidas com a paralisação, evidenciando que, apenas com educação digital e com a real informação seremos capazes de vencê-las.