Paternidade

A família é a base da sociedade e esta, atualmente se encontra em crise. Isso não é nenhuma novidade uma vez que pais e filhos andam se tratando tão mal que aqui e acolá mortes têm sido noticiadas na mídia denunciando essa crise a qual nos referimos.
Dizem alguns: pai bom é o pai que dá tudo o que o filho pede. Discipliná-lo é algo que pode dar até cadeia. Na Noruega, por exemplo, é proibido por lei o castigo físico. Lá, nem a famosa “palmadinha” é legal – a vara foi aposentada.
É interessante o raciocínio de muitos filhos: “eu não pedi para nascer, portanto, minhas vontades têm que ser satisfeitas”. Por outro lado, os pais não escolhem seus filhos. Pelo menos por enquanto, não podem escolher seu sexo, cor de cabelo, aptidões e talentos... simplesmente decidem tê-los e vêm como vêm e os pais devem amá-los como são. Afinal, são seus filhos!
Talvez por esta “falta de opção” que alguns filhos, principalmente na adolescência, abusam e acham que como esse amor é obrigatório por natureza, podem fazer e pedir o que quiserem.
Agora imaginem o caso daqueles que resolveram adotar uma criança em vez de gerá-la. Será que tal regra vale também? Nesse caso, o pai poderia não amar, não acolher, não cuidar, não querer e ignorar aquele pobre infante que o mais próximo que esteve um dia da realidade de uma família foi o tratamento dado por serventes de um orfanato. Houve aí uma livre escolha. O pai decidiu querer.
Comparando os dois tipos de paternidade, parece muito mais nobre a paternidade adotiva do que a natural. Afinal, quantos de nós apesar de amarmos profundamente nossos filhos não admitimos que eles não foram planejados para aquele momento?
Embora pareça que por haver profundo desejo e planejamento o pai adotivo deva receber maior honra do que o pai natural, não é essa a concepção crida pela sociedade. A adoção é vista como um “defeito” de um casal. Sei que estamos generalizando mas quando sabemos de um caso de adoção logo nos a mente o porque de tal decisão: “Se pode gerar, por que adotar?”
Diz a boca do povo que “todo mundo é filho de Deus”. Será mesmo? A Bíblia diz que não, que éramos por natureza “filhos da ira” (Ef 2.3) e por causa disso estávamos perdidos e destinados ao juízo. Os fariseus achavam que eram filhos de Deus. “Não somos bastardos” – diziam eles “temos um pai, que é Deus” (Jo 8.41). Jesus disse que realmente não eram bastardos mas não por serem filhos de Abraão ou de Deus mas por serem filhos do próprio diabo (Jo 8.44).
A idéia se torna ainda mais clara quando lembramos de Jesus que é chamado o unigênito de Deus (Jo 3.16). Ora, se Deus só tem um filho eternamente gerado, o que somos nós, então? A resposta é clara: somos filhos adotados. Adotados em Cristo. Por isso ele agora é o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29). Fomos predestinados para essa adoção (Ef 1.5).
A partir disso podemos admirar a beleza da livre escolha divina. Assim como qualquer casal, Deus poderia ter resolvido não adotar ninguém. Mas não foi assim. Ele decidiu revelar seu amor na adoção de filhos e nisso também reside grande bênção: “Por que eu?” Deus não só resolveu livremente adotar mas também que o adotado seria justamente eu ou você.
Neste momento, nossos paralelos se diferem: um casal que decide adotar uma criança na maioria das vezes tenta achar uma que se adeqüe ao seu gosto pessoal. Não foi assim com Deus. Ele resolveu nos adotar não por características boas que possuíamos mas simplesmente por livre escolha (Dt 7.7-8). Essa escolha misteriosa é até cantada por alguns, como dizia um antigo hino: “Não sei porque de Deus o amor a mim se revelou”. Mas mesmo tendo sua razão escondida em Deus, essa adoção não pode ser negada.
Nossa reação diante dessa maravilhosa paternidade não pode ser parecida com a reação de um adolescente rebelde que deve esperar que o Pai lhe dê tudo o que pede. Devemos responder a este amor com profunda gratidão e assim, brotar de nossa vida obediência e sujeição a sua vontade.
Embora haja algumas referências a Deus como Pai no Antigo Testamento, essa idéia é essencialmente neotestamentária. Alguns na época de Cristo não estavam acostumados com esse conceito. Nós, hoje, de tão acostumados, não o valorizamos mais. Lembrar que somos filhos e quais são os deveres de um filho para com seu pai, deve nos fazer cristãos melhores.
Rev. Fernando de Almeida
Capelão Universitário
