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Jesus e a Celebração da Páscoa - Nº 143 - Abril 2006

Lucas 22:7-13

        

São surpreendentes os ensinos que podem ser extraídos desse texto que, em princípio não nos chama a atenção, e sempre passa de forma despercebida em nossas leituras bíblicas. Contudo, o evangelista Lucas, como os outros evangelistas também, revela-nos alguns aspectos da intenção de Jesus ao decidir comungar com seus amigos naquela noite de iminente sofrimento e Festa dos Pães asmos.


Digno de observação é a forma como o evangelho se refere à ocasião. Não há nenhuma menção ao dia em que se sacrifica o cordeiro, mas enfatiza-se o comer o pão asmo, não fermentado. Esse era o alimento imprescindível à refeição pascal. Os pobres nem sempre tinham recursos para sacrificar um cordeiro inteiro, então: bastava o pão sem fermento. O importante não era o alimento, mas a ocasião da ceia: nela Jesus reuniu pão, vinho e amizade. Neste momento tão peculiar Jesus reatualiza a libertação histórica que Deus efetuou uma vez para o seu povo e que o povo espera que continue no presente. A oração pascal exclama: “ Nosso Deus e Deus de nossos pais, a ti seja elevado o memorial de nossos pais, a ti seja elevado o memorial de nossas pessoas, o memorial do Messias...lembra-te de nós”. O elemento decisivo na eucaristia é a sua presença, sua amizade libertadora que nos acompanha, mas que também nos interpela: reconheces como se efetua hoje a libertação? Respondes ao movimento de Deus nesse sentido?


Mas o texto nos ajuda também a reconhecer o quanto Cristo reinterpretou a Páscoa. Deve-se dizer que na consciência das comunidades cristãs, ao longo da história, Cristo oferece a sua própria vida como sacrifício libertador, redenção para todos nós (Hebreus 2:14-15). O caráter sacrificial da vida de Jesus, que se tornou bem evidente em sua morte na cruz, é o que dá a dimensão definitivamente libertadora à última ceia que teve com seus discípulos. Não são mais necessários os sacrifícios dos cordeiros, basta a comunhão em torno do pão e do vinho. O sacrifício consumado é o de seu próprio ser, em carne e osso, por seus amigos (João 15:13). Ele não precisa como os sumos sacerdotes, oferecer sacrifícios a cada dia, primeiramente por seus pecados, e depois pelos do povo. Ele já o fez uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo (Hebreus 7: 26-27).


Essa reinterpretação da páscoa significa também que a libertação do povo não foi somente um fato no passado, pois ainda hoje Deus continua chamando-nos à liberdade. A relação que é feita aqui nos remete a uma linda história da inserção de Deus na vida humana enchendo-nos de esperança. Há muita coisa ainda a ser construída no Reino de Deus e foi por isso que Cristo encarou a “chegada hora”, para abrir-nos à possibilidade de emergência de uma nova páscoa.
Deus nos abençoe!


Rev. Saulo Marcos de Almeida
Capelão Universitário