O Getsêmani foi o palco onde Cristo abriu profundamente o seu coração e se derramou diante do Pai. Ali foi o início de toda a sessão de sofrimentos que ele teria de passar. No Getsêmani Jesus chegou no mais profundo grau de agonia. Chegou a suar gotas como que de sangue, conforme descreveu o médico Lucas: “E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra”.
Jesus estava antecipando todo o seu martírio, preparando-se para o enfrentamento de tudo aquilo que teria de passar nas próximas horas. Ele seria surrado, cuspido, esbofeteado. Uma coroa de espinhos seria enfiada em sua cabeça. Seria fustigado fisicamente e humilhado psicologicamente. Passaria por longas horas de tortura que beiram ao desespero e por fim teria que carregar a sua própria cruz, tornando-se objeto de escárnio e de humilhação. Mesmo estando a poucas horas de passar pelo maior suplício que alguém pode passar, tanto físico, a cruz, como espiritual, se fez pecado por nós e estando consciente disso, conseguiu forças para demonstrar que a sua preocupação era com os outros e não consigo mesmo. Porém, a dor de Cristo seria agravada pelo fato de seus mais íntimos discípulos não terem a sensibilidade para perceber o quanto o Mestre estava sofrendo, por isso dormiram, enquanto Jesus estava em agonia. Nem uma hora conseguiram velar com o Senhor. Ademais, depois daquelas horas de agonia, ele levanta para se encontrar com o traidor.
O traidor era um dos seus discípulos. Um homem que testemunhou de perto toda a mansidão do Mestre. Experimentou toda a sua docilidade. Porém, mesmo assim, teve a coragem de trair Jesus pelo preço de um escravo. Por fim, depois que os soldados prenderam Jesus, todos os seus discípulos o abandonam. Cumpriram-se as palavras do próprio Cristo: “Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas”. Isso tudo agravou, em muito, a dor que Jesus já estava sofrendo. Isso é extremamente paradoxal. No meio de tanta dor, humilhação, desprezo, zombaria, Cristo acha forças para fazer coisas extremamente inesperadas.
Ele conforta e consola os seus discípulos. No Getsêmani, local onde se espreme o azeite, Jesus demonstrou toda a sua sensibilidade. Mesmo não tendo sido consolado pelos amigos, como ele havia pedido, quando disse: “Ficai aqui e vigiai comigo”, Jesus não foi duro com eles, apenas disse: “Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo?”. Depois, quando se encontrou com o traidor, chamou-o de “amigo”. Não reagiu à prisão, antes, antecipou-se aos soldados e disse: “Sou eu”. Disse que poderia rogar ao Pai e imediatamente teria doze legiões de anjos ao seu dispor, porém, não fez nada para se defender. Augusto Cury comenta: “O que podemos esperar de uma pessoa tão forte? Autoridade, julgamento, rigidez, imposição de normas, crítica contundente aos erros. Todavia, eis que nele encontramos afetividade, tolerância, compreensão das falhas, gentileza e ausência de cobranças”.
Mesmo sabendo que seria objeto de escárnio e que passaria por longas sessões de torturas, conseguiu encontrar forças para curar a orelha de Malco, servo do Sumo Sacerdote, o mesmo que viera para prendê-lo. Pendurado na cruz, sofrendo dores físicas horrendas e a dor maior, quando o próprio Pai volta o rosto contra Jesus, ele acha tempo para dizer palavras imprevisíveis, que demonstram o quão sensível ele era e o quanto estava preocupado com a dor do outro e não com a sua própria dor. Palavras como: “Pai, perdoa-lhes”; “Mulher, eis aí teu filho”; “Eis aí tua mãe”. Ele recusa tomar o vinagre, porque quiz sofrer até o último instante todas as dores da humanidade. Queria sofrer consciente, não queria ser anestesiado. Por isso recusou ser consolado, recusou usar o seu poder em benefício próprio. Recusou a própria vida. Preferiu a morte, morte de cruz. Foi até ela voluntariamente. Pagou até o último centavo. Por isso, conseguiu tirar do fundo da sua alma, como que num último suspiro, a última palavra da cruz: “Está consumado”. Aquele que a tantos aliviou a dor, não permitiu que a sua dor fosse aliviada. Aquele que a tantos confortou com palavras de graça, não foi confortado.
Aquele que desceu do céu para ser o Emanuel, o Deus conosco, foi duramente abandonado. Ninguém viveu e nem morreu como o Cristo de Deus. Você não acha isso um grande paradoxo? Aquele que mais amou, foi objeto do mais cruel e injustificado ódio dos seres humanos (João 15.25). Aquele que exalou graça, perdão e compreensão, foi tratado como um criminoso qualquer, sem nenhum escrúpulo (Mateus 27.27-31). Aquele que a tantos excluídos incluiu, foi desprezado e abandonado por todos (Isaías 53.3).
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