Talvez porque vejo ao meu redor, onde existo e por onde ando, imagens, ícones e telas, espelho no elevador, câmeras captando tudo e a todos ao entrar no banco, na repartição, às vezes até na praça ou avisos como “sorria, você está sendo filmado”, deixo de perceber criticamente o mundo real além de mim, ofuscando a minha própria visão e desafiando a percepção de certos valores. Diante deste mundo de contrastes e imagens diversas, assistimos acontecer uma transposição em que se confunde o mundo real com o que é aparente.
O escritor M. Vargas Llosa faz uma intrigante afirmação: “os profissionais do lazer substituíram os pensadores...”, onde “as imagens passam a ser muito mais importante que as idéias...” (M. Vargas Llosa-O Estado de S. Paulo, 05.10.2003), o produtor de imagem real ou virtual, o que faz produzir e reproduzir música e som, o animador de auditório, passa a ocupar o lugar do pensador, do administrador, seja como governador da Califórnia, como ministro da cultura ou bem sucedido líder de uma igreja eletrônica. À medida que busco embasar meu viver nas coisas que vejo e posso apalpar, o Deus invisível passa a ser o meu desconhecido, estranho.
Não vendo o outro que está ao meu lado, não consigo ver nem perceber Deus a quem não vejo, assim, volto toda concentração para cuidar do meu exterior, da minha aparência. “Senhor, quando foi que te vimos...? (Ele responde): sempre que o fizeste a um destes meus pequeninos...” (Mateus 25. 37 e 40), pois, Deus está em cada “outro” – sua imagem e semelhança. A natureza e as obras criadas nos fazem ver quem é Deus e onde Ele está, desde que não façamos desta natureza e destas obras nem ícones, nem ídolos que substituam, aos nossos olhos, o próprio Deus.
Experimentar a misericórdia, a compaixão, a bondade e a solidariedade é mais importante do que atribuir valor demasiado ao visual externo, à estética. Esta compreensão nos fará preocupar adequadamente com o botox, com o alimento light, com a cirurgia plástica, com a malhação, com o anabolizante e o manequim. Não podemos trocar os atributos interiores por valores exteriores passageiros.
Não, não vamos discordar do cuidado pessoal necessário, mas devemos desconfiar da cultura do corpo em detrimento do cultivo da alma. Jesus ficou muito bravo com aqueles que se preocupavam em limpar o exterior do prato e do copo, conservando no seu próprio interior desejos desenfreados, bem como vícios e maldades (Lucas 11. 39). “Trocamos o caráter pela forma, a religião pela medicina, a eternidade pelo curto período de tempo espremido entre o nascimento e a morte” (Revista Ultimato, nº 284). Segundo pesquisa da USP a busca pela beleza estética cresceu de 5% para 30% nos últimos cinco anos. Isto nos convence de que se está atribuindo maior importância à estética em detrimento da ética, inflando a idéia da felicidade, distorcendo o próprio valor da vida. Ouçamos a sabedoria das Escrituras: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (NVI-Romanos 12.2).
O nosso Deus está aqui, a Ele tributemos toda glória.