Alderi Souza de Matos
1. Antecedentes
No dia 19 de fevereiro de 2003, às 17h45, com a presença de familiares e alguns amigos, o corpo do Rev. Boanerges Ribeiro foi sepultado no histórico Cemitério dos Protestantes, em São Paulo, o mesmo em que se encontram os restos mortais dos Revs. Simonton, Conceição e tantos outros personagens que o falecido admirava e sobre os quais escreveu muitas vezes. Na mesma tarde, às 15h00, foi realizado um culto de ação de graças pela vida do Rev. Boanerges na Igreja Presbiteriana do Calvário, no bairro Campo Belo, culto esse que contou com a presença de mais de quinhentas pessoas, inclusive do presidente e do secretário executivo do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil. Foi dirigido pelo pastor da igreja e genro do homenageado, Rev. Paulo Viana de Moura.
Boanerges pertenceu à quarta geração de uma família presbiteriana do oeste de Minas. Tanto o seu bisavô paterno quanto o materno foram evangelizados pelo jovem missionário Rev. George Wood Thompson (1863-1889), falecido prematuramente, companheiro de viagens do pioneiro John Boyle. Um dos locais visitados por Thompson no leste do Triângulo Mineiro foi Lagoa Formosa de Patos, onde foi hospedado por Saint-Clair Justiniano Ribeiro, bisavô paterno do Rev. Boanerges. Toda a família veio a converter-se, dando início a uma igreja presbiteriana. O mesmo ocorreu em São Francisco das Chagas do Campo Grande, hoje Rio Paranaíba, perto da nascente desse importante rio, onde Thompson pregou na fazenda de Cristiano da Rocha, um dos patriarcas locais, bisavô materno do Rev. Boanerges. Thompson informou que foi precedido nessa região pela Bíblia e por exemplares do jornal O Evangelista, recebidos por membros dessa família e por eles lidos e aceitos.
Saint-Clair (1844-1920) e sua esposa Francisca Beatriz tiveram nove filhos, dos quais o primogênito foi Alípio (1870-1960). Este se casou com Ana Januária dos Santos e teve treze filhos, dos quais o segundo foi Adiron Justiniano Ribeiro Sobrinho. Adiron nasceu em 23 de maio de 1895 e teve uma vida agitada. Na mocidade dedicou-se por algum tempo ao garimpo de diamantes, embrenhando-se pelo sertão. Não ganhou dinheiro com isso, mas prejudicou permanentemente a saúde. Pelo resto da vida cultivou o sonho dos diamantes: quando via um riacho pedregoso, fosse onde fosse, sentia vontade de pegar uma bateia e tentar a sorte. Por volta de 1918, casou-se em Rio Paranaíba com Ignacia Alves Rocha, filha de Joaquim Daniel da Rocha e neta de Cristiano da Rocha. Dedicou-se então a sucessivas atividades, de pequeno comerciante a sapateiro. Tinha na época apenas instrução primária.
Em janeiro de 1927, já com três filhos, decidiu completar a sua educação. Mudou-se com a família para Lavras, no sul de Minas, onde se matriculou no Instituto Gammon. Ali estudou com dificuldade por cinco anos, terminando o curso ginasial. Estudava durante o dia e trabalhava à noite até altas horas em sua oficina de sapateiro. A esposa, Ignacia, trabalhava ainda mais do que ele, cuidando da casa e das crianças, e costurando para fora, pois outros filhos iam nascendo. Concluído o ginásio, Adiron mudou-se para Campinas, onde ingressou no Seminário Presbiteriano. Prosseguiu a luta do casal por mais quatro anos. Em 1935, enfim, aos quarenta anos de idade, Adiron recebeu o seu diploma de bacharel em teologia. Todavia, não conseguiu logo um campo pastoral onde pudesse exercer a sua vocação. Teve que ganhar a vida trabalhando como gerente do Hotel Umuarama, em Campos do Jordão, e depois como revisor do jornal O Estado de São Paulo, na capital paulista.
Em 1940 a família seguiu para Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, onde Adiron foi pastor da igreja presbiteriana local e de outras espalhadas pelo estado. Depois, foi co-pastor da Igreja Presbiteriana de Alto Jequitibá, no leste de Minas, e professor do colégio evangélico ali existente. Em seguida, transferindo-se para a cidade do Rio de Janeiro, foi pastor de várias igrejas e professor de 1º e 2º graus em diversas escolas, notadamente no Colégio Souza Marques. Faleceu no Rio de Janeiro a 7 de março de 1973, com quase 78 anos de idade. Dona Ignacia ainda viveu por muito tempo, falecendo com mais de 90 anos. Tiveram sete filhos: Boanerges, Guaracy Adiron, Acyr, Paulo Adiron, Nannie Ignacia, Benjamin Adiron e Daniel Adiron, nascidos entre 1919 e 1937. Ao longo de sua carreira, Adiron não só educou todos os filhos, como levou para Lavras irmãos, primos e primas, para se educarem. Outro membro da família que atingiu o ministério foi o Rev. Américo Justiniano Ribeiro (1911-1998), irmão mais moço de Adiron, que foi por muitos anos pastor da Igreja de Campinas, bem como professor e deão do Seminário Presbiteriano do Sul.
2. Anos formativos
Boanerges, o primogênito de Adiron, nasceu em Rio Paranaíba no dia 8 de agosto de 1919. Foi batizado pelo Rev. Alberto Zanon, então no primeiro ano do seu ministério (Boanerges só o conheceu já aposentado em Limeira, de onde um dia o velho pastor foi a Santos para batizar o seu filho Marcos). O menino recebeu intensa instrução evangélica no lar. Sua mãe ensinou-lhe hinos do velho Salmos e Hinos e as orações da época: Pai Nosso e Agora me Deito (“Agora me deito para dormir; se eu morrer sem acordar, guarda minh’alma, ó Senhor. Amém.”). Havia também o corinho “Jesus escuta a voz terninha da criancinha em oração”. Memorizou os Dez Mandamentos e o Credo. Aos seis anos, já alfabetizado, decorou o Catecismo para Crianças, sempre em casa, com o pai atento à recitação. Diz ele: “Debruçado na cama, deliciava-me com as correrias de Davi na tradução do padre Figueiredo e seu vernáculo de sabor um tanto rural”. Sem saber como, aos sete anos já havia decidido – ia ser pastor quando crescesse.
Naquela época, a família mudou-se para Lavras, onde o pai ia começar a preparação para o ministério. Boanerges cursou as quatro séries do primário no Grupo Escolar Firmino Costa. Ele e uma colega eram os únicos protestantes numa classe com cerca de 40 alunos. A única vez na vida em que sofreu castigo foi ali, por negar-se a rezar a Ave Maria com a classe. A Igreja de Lavras dava grande atenção às crianças e o menino gostou da Escola Dominical desde o primeiro domingo. Participou como “lobinho” da Patrulha de Escoteiros, a única da cidade. Não faltava à Escola Bíblica de Férias e devorou os livros da biblioteca da Escola Dominical, inclusive o Tesouro da Juventude. Costumava dormir, sentado entre os pais, durante as pregações do Rev. Jorge Thompson Goulart, o pastor da igreja, e as conferências de homens ilustres como Erasmo Braga, Álvaro Reis e Hipólito de Campos. Lembra de ter visto uma vez o Dr. Samuel Gammon, cultivando o jardim de sua casa, pouco antes da sua morte, em 1928.
Do grupo escolar, Boanerges passou à 5ª e 6ª séries do Instituto Gammon e depois ao Ginásio. Integrou-se nessa grande instituição, onde foi aluno externo três anos e interno um ano. Não havia aulas de religião em classe, e sim História do Antigo Testamento e do Novo Testamento, em lições preparadas pelo Dr. Gammon. Havia cultos obrigatórios no salão nobre, onde todos, protestantes ou não, cantavam com entusiasmo hinos ativistas do Salmos e Hinos (“Avante, avante, ó crentes!”, “Vamos nós trabalhar”, “Um pendão real”). Um dos seus colegas nessa época foi Augusto Gotardelo, o futuro pastor e mestre da língua portuguesa. O Gammon, diz Boanerges, havia formado uma sub-cultura protestante auto-suficiente que vivia e prosperava no seio da sociedade lavrense. Ali os protestantes eram a minoria dominante. A igreja majoritária não era discriminada nem combatida – era irrelevante, não se percebia a sua presença.
O adolescente fez as três últimas séries do curso secundário (o ginasial), em Campinas, no excelente Colégio Estadual Culto à Ciência. A igreja presbiteriana da cidade era dinâmica e ele facilmente se integrou no Departamento Intermediário. O pastor, Rev. José Borges dos Santos Júnior, apaixonado e trabalhador, de brilhante inteligência e grande energia verbal, ávido ledor e intelectualmente inquieto, fascinava a todos nas pregações, nas palestras, no convívio fraterno das excursões e piqueniques. Preparava excelentes estudos bíblicos e suas palestras apologéticas quase semanais eram interessantes e substanciosas. As atividades sociais, esportivas e recreativas eram sempre atraentes. Outro ponto de destaque era o coro da igreja, do qual Boanerges ouviu muitas vezes (e nunca mais fora dali) a majestosa composição do Rev. Constâncio Homero Omegna para a poesia “Salmo 19” do padre Souza Caldas (“Um Deus imenso os céus ressoam; a glória entoam do Criador. Do Tejo ao Ganges jaz descoberto esse concerto que Deus compôs.”).
Em 1937, aos 17 anos, Boanerges ingressou no Seminário Presbiteriano de Campinas. Um ano antes, fizera profissão de fé com o Rev. Borges. Foi aluno da segunda geração de formadores de pastores da Igreja Presbiteriana do Brasil. A primeira geração foi a de John Rockwell Smith, Erasmo Braga, Thomas Porter, Constâncio Omegna, os quais formaram os mestres de Boanerges: Guilherme Kerr, Jorge Goulart, Herculano de Gouvêa Jr., José Borges dos Santos Jr. e Roberto Frederico Lenington (este formado nos Estados Unidos). Diz Boanerges: “Meus mestres do Seminário aprenderam com Erasmo, e eu aprendi com eles: há que construir, e não destruir. Construir sobre os bons alicerces já colocados; mesmo que encontremos paredes em escombros, construir sempre o edifício já desenhado. Não é sábio que cada geração pretensiosamente trate de destruir o passado para depois tentar recomeçar”. A formatura ocorreu em 1941, após cinco anos de estudos, sendo paraninfo o Rev. Cícero Siqueira. Entre os colegas formandos estavam outros nomes que se tornariam conhecidos, como Domício Pereira de Matos, Levi Alt, Oscar Chaves, Paulo Villon, Rubens Cintra Damião e Uriel de Almeida Leitão.
3. O pastor
Após cumprir o período de licenciatura em Iacanga, Boanerges foi ordenado ao ministério presbiteriano no início de 1943, em Marília. Pouco depois, casou-se com Haydée Serra, irmã do futuro Rev. Osmar Teixeira Serra, que foi secretário geral da mocidade. Pastoreou inicialmente as Igrejas de Pederneiras e Iacanga, ambas na margem esquerda do rio Tietê, com um vasto campo rural. Depois veio a Igreja de Marília, cujo campo ia de Garça até Tupã. Transferiu-se então para Santos, pastoreando a Baixada Santista até Itanhaém. Finalmente fixou-se na capital paulista, ficando à frente da Igreja do Brás, com seu campo que se estendia pela zona leste até Ferraz de Vasconcelos. Ao longo do seu ministério, organizou 17 igrejas. Em 1953, organizou a Igreja Presbiteriana do Calvário, no bairro do Brooklin Paulista, que pastoreou até 1987, quando recebeu o título de pastor emérito. Continuou, todavia, a exercer o seu ministério nessa igreja do seu coração. Organizou para uso da igreja o hinário Louvar-te-ei, Senhor. No final de 1999, falando aos formandos do Seminário Rev. José Manoel da Conceição, concluiu as suas palavras dando-lhes três conselhos: case-se bem; tenha bons filhos; seja pastor na Igreja do Calvário. E acrescentou: “Se não puder ser pastor da Igreja do Calvário, seja pastor de igreja o mais parecida possível com ela. Você trabalhará certo de que tem protegidos os flancos e a retaguarda, e terá companheiros para caminhar em frente”.
4. O líder eclesiástico
O Rev. Boanerges iniciou as suas atividades junto à administração da Igreja Presbiteriana do Brasil em 1946, quando deu os primeiros passos para a fundação da Casa Editora Presbiteriana. Em junho daquele ano, ele compareceu à sua primeira reunião do Supremo Concílio, realizada no templo da Igreja de Copacabana, como representante do Presbitério de Bauru. Apresentou uma proposta do seu concílio no sentido de se organizar uma “Casa Publicadora Presbiteriana”. Aprovada a proposta, foi nomeada uma comissão para efetivar o plano, tendo como presidente o próprio Boanerges. Os outros membros da comissão eram os presbíteros Armando Azevedo (de Bauru) e João Lupion Filho, e os Revs. Gutemberg de Campos, José Borges dos Santos Jr. e Galdino Moreira. As primeiras obras publicadas foram o livreto O Sistema Presbiteriano (1947) e três folhetos do Rev. Borges. A criação oficial ocorreu em 1948, quando foi adotado o nome Casa Editora Presbiteriana. No dia 4 de abril, tomou posse no templo da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo a primeira diretoria, tendo o Rev. Boanerges como diretor-presidente, cargo que exerceu durante 14 anos (1947-1961), consolidando essa importante instituição da igreja.
Em agosto de 1961, seguiu para os Estados Unidos com a família, residindo em Kansas City, Missouri, a fim de tratar de interesses do Supremo Concílio. Por cerca de um ano, foi pastor assistente da Igreja Presbiteriana de Westport, naquela cidade do meio-oeste americano. Fez palestras em diversas igrejas presbiterianas do Estado de Missouri, a serviço da Comissão de Missões e Relações Ecumênicas (COEMAR), da Igreja Presbiteriana Unida dos EUA. Em seguida, transferindo-se para a costa leste, exerceu a função de secretário-assistente do Presbitério de Nova York (1963-1964). Em 1963, revelando um interesse que se tornaria preponderante no futuro, ministrou um curso de sociologia da religião, “A Igreja Brasileira e a Industrialização do País”, no Instituto de Relações Internacionais do Seminário Presbiteriano McCormick, em Chicago. Foi preletor em um ciclo de conferências sobre “A Situação Social e Religiosa da América Latina”, promovido pela Igreja Presbiteriana Unida. Retornando ao Brasil em 1964, foi convidado para assumir a direção do jornal Brasil Presbiteriano. Dois anos depois, aceitou um convite para lecionar filosofia e história da igreja no Seminário de Campinas.
O Rev. Boanerges Ribeiro presidiu todos os concílios da Igreja Presbiteriana do Brasil que integrou e foi por doze anos presidente do Supremo Concílio (1966-1978), o único a fazê-lo até hoje. Foi eleito sucessivamente nas reuniões realizadas em Fortaleza, Garanhuns e Belo Horizonte. Exerceu essa importante função em um dos períodos mais conturbados da história recente do Brasil, em que a forte polarização ideológica surgida na sociedade refletiu-se intensamente na vida da igreja, causando grandes e dolorosos conflitos. A situação poderia ser descrita com as palavras que Boanerges certa vez escreveu em relação às lutas em torno da Casa Editora: foi uma época de “choque febris, de interesses que deviam convergir em Cristo, mas sofriam difração violenta na personalidade dos cristãos”. Depois, foi vice-presidente do Supremo Concílio na gestão do presbítero Paulo Breda Filho (1978-1982).
Nesses anos, Boanerges participou como delegado de alguns congressos evangélicos: Aliança das Igrejas Presbiterianas na América Latina (Cidade do México), Aliança Mundial das Igrejas Presbiterianas e Reformadas (São Paulo) e I Congresso Mundial de Evangelização (Berlim). Foi preletor em encontros de diversas organizações eclesiásticas, como a citada Aliança das Igrejas Presbiterianas na América Latina, o Sínodo Reformado Ecumênico (Sydney, Austrália) e a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana da América (Jackson, Mississipi).
Na área educacional da IPB, o Rev. Boanerges foi membro do Conselho Deliberativo do Instituto Mackenzie, do Conselho Superior da Universidade Mackenzie, do Conselho Deliberativo do Instituto Nacional Presbiteriano de Educação (Brasília) e diretor da Fundação Educacional Presbiteriana. Foi presidente do Instituto Mackenzie por doze anos (1975-1987) e chanceler da Universidade Mackenzie. Fundou o Instituto Educacional Mackenzie do Tamboré, um subúrbio de São Paulo, onde adquiriu uma área de 750 mil metros quadrados e construiu o campus. Criou o Instituto Tecnológico Mackenzie e o Centro de Processamento de Dados. Em sua administração, construiu-se o novo edifício da Escola Americana e o campus central do Higienópolis recebeu muitos melhoramentos. Empreendeu grande luta pela preservação desse patrimônio histórico da IPB quando o mesmo se viu ameaçado de desapropriação. Foi ainda fundador do Seminário Rev. José Manoel da Conceição (e membro do seu Conselho Deliberativo), da Fundação Educacional Rev. José Manoel da Conceição e de outras entidades da igreja.
Em fevereiro de 1987, comunicou à Comissão Executiva do Supremo Concílio, reunida em Belo Horizonte, que não mais compareceria às reuniões desses órgãos, pois considerava suficientes “40 anos ininterruptos de participação ativa e apaixonada”. Nos dois anos seguintes, desligou-se da presidência do Mackenzie, da chancelaria da Universidade e do Conselho Deliberativo do Seminário Rev. José Manoel da Conceição. Pretendia dedicar-se a uma nova e empolgante atividade: continuar a pesquisar e a escrever sobre a história social do protestantismo e do presbiterianismo brasileiros, mostrando as condições peculiares da sociedade brasileira que facilitaram a aceitação da fé evangélica. Em setembro de 1988, escreveu no prefácio de uma de suas obras: “Se o Senhor me conservar vida, alguma lucidez e muita pertinácia, outros [livros] vêm vindo”.
5. O intelectual
Ao longo dos anos, Boanerges fez cursos que lhe deram grande bagagem intelectual e o prepararam para muitas atividades nas áreas docente e literária. Em 1950-1951, cursou dois semestres na Escola de Jornalismo da Universidade de Syracuse, em Nova York. Mais tarde, obteve os graus de mestre e doutor na Escola Pós-Graduada de Ciências Sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Por vinte anos, lecionou sobre introdução ao pensamento filosófico e científico, fundamentos das ciências sociais, história das doutrinas morais, fundamentos filosóficos da educação moral, filosofia da educação e filosofia social em diversas escolas superiores de São Paulo. Durante cinco anos, ensinou em nível de mestrado e doutorado, até licenciar-se para trabalhar no Mackenzie. Foi membro do VIII Congresso Americano de Filosofia (Brasília, 1972) e da III Conferência Mundial de Presidentes de Faculdades e Universidades, em Boston. Ainda na área acadêmica, foi preletor no I Seminário Internacional de Literatura para Adultos Recém-Alfabetizados, em Jerusalém, integrou a Comissão Municipal do Mobral de São Paulo e traduziu várias obras para a Companhia Editora Nacional.
No âmbito da literatura, colaborou com o Rev. Miguel Rizzo no Instituto de Cultura Religiosa, na revista Fé e Vida/Unitas e na União Cultural Editora. Estreou como escritor aos 24 anos, publicando o livro O Apóstolo dos Pés Sangrentos (1943), sobre o místico cristão indiano Sadu Sundar Singh. A seguir, vieram a lume O Padre Protestante (biografia do Rev. José Manoel da Conceição, concluída em Santos no Natal de 1948) e Seara em Fogo, sobre o evangelista norte-americano Dwight L. Moody. A partir de 1973, produziu uma série de obras valiosíssimas sobre o protestantismo e o presbiterianismo brasileiros: Protestantismo no Brasil Monárquico (1822-1888): Aspectos Culturais da Aceitação do Protestantismo no Brasil (1973); Protestantismo e Cultura Brasileira: Aspectos Culturais da Implantação do Protestantismo no Brasil (1981); A Igreja Presbiteriana no Brasil, da Autonomia ao Cisma (1987) e Igreja Evangélica e República Brasileira: 1889-1930 (1991).
Para esses livros, serviu-se de levantamentos minuciosos em inúmeros arquivos do Brasil e dos Estados Unidos. Por exemplo, em 1951 usou as férias de Natal em Nova York para selecionar e copiar documentos de 1859-1888 na Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana. Fazia questão de documentar cuidadosamente as suas afirmações. Em 1995, à luz de novas pesquisas, voltou a publicar um livro sobre o personagem que sempre o fascinou: José Manoel da Conceição e a Reforma Evangélica. Também publicou obras sobre outros temas, tais como Terra da Promessa, com artigos e crônicas escritos para vários periódicos (1988); O Senhor que se fez Servo, uma série de estudos bíblicos (1989), e o opúsculo O Culto em Corinto e o Nosso Culto (1992). Nos últimos anos, vinha fazendo um estudo aprofundado sobre o catolicismo e a cultura de Portugal como matrizes da religiosidade brasileira, mas infelizmente não chegou a concluir o valioso projeto.
Ao longo da sua carreira, o Rev. Boanerges recebeu diversas homenagens pelos serviços prestados à comunidade: Medalha Tiradentes da Polícia Militar de São Paulo (a cujos oficiais fez preleções); Medalha Santos Dumont de Mérito, da Força Aérea Brasileira, com a qual colaborou na consolidação e expansão de seu programa de astrofísica, rádio-astronomia e rastreamento de satélites; Diploma de Educador do Ano, do Rotary Clube de Higienópolis, e Título de Cidadão Paulistano. Seu nome consta do Dicionário Bio-Bibliográfico Brasileiro para as áreas de filosofia, política, sociologia e antropologia. Os estudantes do Seminário JMC deram o seu nome ao seu Grêmio Estudantil. Mencionando essas homenagens, o Rev. Boanerges declarou que as haviam recebido “com o natural ressabiamento do matuto mineiro”. E acrescentou no seu estilo peculiar: “Mesmo agora não posso esquivar-me ao mencioná-las de olhar disfarçado para trás a fim de ver se é comigo mesmo que falam, ou se é com alguém à retaguarda”.
6. Os anos finais
Além da esposa e companheira de vida Haydée, o Rev. Boanerges deixou quatro filhos, nascidos entre 1945 e 1951: Dayse Serra Ribeiro, tradutora do Diário de Simonton, publicado em 1982; Márcia Ribeiro Viana, casada com o Rev. Paulo Viana de Moura; Marcos Serra Ribeiro e Rubem Serra Ribeiro. São pais, respectivamente, de Renata e Fernando; Rebeca Verônica e Sarah Elisa; Flávia, André e Gustavo; Virgínia, Adriana e Filipe. Nos dias de militância à frente da igreja e mesmo posteriormente, o Rev. Boanerges teve alguns amigos leais e constantes como os Revs. Atael Fernando Costa, Ludgero Machado Morais e Marcelino Pires Carvalho. Na velhice, usufruiu do companheirismo de diversos pastores mais jovens que conviviam com ele quase que diariamente, acompanhando-o em pequenas caminhadas desde a sua residência, na rua Barão de Jaceguai, até a rua Vieira de Morais, para o cafezinho obrigatório no Frans Café. Os principais deles eram os Revs. Hermisten Maia Pereira da Costa, Eliezer Bernardes da Silva, Alceu Davi Cunha, Vagner Barbosa, Wilson Santana, Arival Dias Casimiro e o presbítero Samuel Alves Fernandes. Os dois primeiros também o ajudavam em visitas ao banco, correio, mercado e farmácia.
As últimas funções exercidas pelo Rev. Boanerges foram as de diretor-presidente da Fundação Educacional Rev. José Manoel da Conceição, das quais se afastou em maio de 1997, por razões de saúde. Foi eleito curador da fundação em março de 1998 e afastou-se definitivamente em dezembro de 2001. Por volta do ano 2000, a saúde do Rev. Boanerges começou a experimentar um acentuado declínio. Depois de sofrer uma queda na via pública, recebeu um marca-passo que lhe deu algum alívio. No dia 12 de janeiro de 2003, a Igreja Presbiteriana do Brasil lhe prestou uma justa homenagem por ocasião do transcurso do 60° aniversário da sua ordenação ao ministério. Em um culto muito concorrido realizado às 15h00 na Igreja Presbiteriana do Calvário, dirigiu a liturgia o Rev. Ludgero Bonilha Morais, secretário-executivo do Supremo Concílio, e apresentou a mensagem o Rev. Roberto Brasileiro Silva, presidente do Supremo Concílio. Cerca de uma semana depois, o estado de saúde do Rev. Boanerges agravou-se e ele passou boa parte do mês seguinte no Hospital Evaldo Foz e depois no Hospital Santa Marcelina, onde veio a falecer no dia 17 de fevereiro, às 20h30.
Fontes: