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Nem aprenderão mais a guerra


Alderi Souza de Matos


A história, a cada geração, não nos deixa esquecer as profundas contradições da humanidade. A partir do Renascimento e, mais especificamente, com o surgimento do Iluminismo no século 17, o Ocidente ficou embriagado com a idéia de progresso, de evolução, de aperfeiçoamento da raça humana. As filosofias e ideologias de vanguarda passaram a anunciar, nos termos mais triunfalistas possíveis, a crescente superação de uma sociedade arcaica, intolerante e autoritária, e o surgimento de um novo mundo e de um novo homem, emancipado, esclarecido, liberto das superstições e do obscurantismo intelectual e religioso. Todavia, ao observarmos a sociedade contemporânea, temos uma profunda sensação de desencanto.


Sem dúvida houve conquistas que não podem ser menosprezadas: os avanços da ciência e da tecnologia, que propiciaram maior bem-estar e a eliminação de males que afligiram a humanidade durante séculos; o aprimoramento das instituições políticas, gerando um clima de liberdade, tolerância e participação jamais vistos; o abandono de valores e práticas que mantinham certos grupos, como as mulheres e as minorias, em uma condição de perpétua inferioridade e exclusão. Não há como negar que, em muitos aspectos importantes, a vida atual é melhor que a do passado.


Ainda assim, alguns velhos companheiros da humanidade, como a alienação, os ódios tribais e a violência em suas muitas manifestações, mostram-se avessos a todas as tentativas de erradicação. Como vírus que sofrem mutações e adquirem resistência contra as drogas mais potentes, o mal assume proporções assustadoras em nosso “admirável mundo novo”. Apenas começou o novo milênio e os povos já experimentam o recrudescimento do terrorismo, da criminalidade e da guerra. A tragédia de 11 de setembro de 2001, a guerra do Afeganistão, a invasão do Iraque e o extremismo político e religioso assustam a todos, gerando desesperança e ceticismo. E não basta esbravejar contra os Estados Unidos ou contra os fundamentalistas islâmicos, embora certamente mereçam censuras as mais enfáticas, porque a sociedade brasileira também está imersa na violência e na desumanidade do crime, da miséria, das desigualdades, das injustiças.


Em algumas de suas passagens mais sublimes, os profetas do Antigo Testamento expressaram os sonhos de um mundo melhor, mais humano e mais fraterno. É o caso das conhecidas palavras de Isaías: “[Deus] julgará entre os povos, e corrigirá muitas nações; estes converterão as suas espadas em relhas de arados, e suas lanças em podadeiras: uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (2.4-5). Outra mensagem de um futuro de paz afirma que “o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará... A criança de peito brincará sobre a toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco” (11.6, 8). Essas visões têm sido chamadas de utopias (“nenhum lugar”, em grego), não no sentido de serem fantasias inatingíveis, mas de algo que só poderá ser alcançado através de uma transformação radical do ser humano, transformação essa para a qual a maior parte das pessoas não está preparada.


A raiz última de problemas humanos como a violência, a agressividade e o preconceito está na dureza e insensibilidade do coração – em uma palavra, no egoísmo. Enquanto indivíduos, grupos e nações ficarem aferrados aos seus próprios interesses, desejos e ambições, à exclusão das necessidades e direitos dos outros, nada poderá mudar de modo profundo. Nem o progresso, nem a educação, nem as leis, nem qualquer outra iniciativa produzirá o mundo de justiça e paz que todos almejamos, se as pessoas não tratarem primeiro do mal do egoísmo, da centralização no eu, da ânsia de auto-afirmação a qualquer custo e a qualquer preço, da incapacidade de abrir mão de algumas prerrogativas em favor do bem-comum.


É mais fácil criticar as manobras tortuosas da política internacional, as manipulações dos grandes grupos econômicos e a atuação questionável das estruturas do poder – ou seja, realidades que estão muito distantes –, mas devemos compreender que esse é um problema que tem a ver com cada indivíduo, com cada cidadão. A menos que nos esforcemos para ser fatores de transformação e humanização nos pequenos círculos em que atuamos (família, trabalho, comunidade), não podemos esperar que haja mudanças nas esferas mais amplas da sociedade. E isso só será possível se primeiro pacificarmos o nosso ser e os nossos relacionamentos. Esse é o grande desafio que temos à frente – estejamos à sua altura.


 
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