Brasil: diagnóstico preocupante
Alderi Souza de Matos
O conceito de cultura pode ser entendido de duas maneiras. No sentido estrito, é o conjunto das manifestações criativas de um povo ou grupo, tais como a literatura, a música, os ritmos, o folclore, as tradições, as artes plásticas, a culinária, etc. No sentido amplo, inclui todas as características distintivas de uma coletividade, o conjunto de traços que formam a identidade de um grupo; enfim, suas maneiras de ser, comportar-se, viver. Embora exista a tendência de se exaltar as culturas, numa época em que está em voga o multiculturalismo, o fato é que toda cultura possui elementos positivos e negativos.
Não é diferente com o Brasil. De um modo geral, os brasileiros se orgulham da sua cultura. Os meios de comunicação, os artistas, os intelectuais, os governantes e outros formadores de opinião costumam louvar as maravilhas da cultura nacional, colocá-la em um pedestal, considerá-la quase intocável. Contudo, existem em nossa cultura, entendida no sentido lato mencionado acima, alguns elementos altamente questionáveis e prejudiciais ao bem do nosso país. A menos que tenhamos a coragem de fazer uma autocrítica honesta, repensando e remodelando nossos conceitos e comportamentos, não seremos a nação próspera que almejamos.
Um dos aspectos negativos da nossa cultura é o nosso excessivo individualismo, já analisado amplamente por estudiosos brasileiros e estrangeiros. Herança do período colonial, em que os brasileiros se sentiam abandonados pela metrópole e tinham que enfrentar as suas dificuldades por conta própria no território imenso e pouco povoado, esse individualismo traz conseqüências danosas para a vida social. Entre essas conseqüências está a falta de um espírito coletivo e de responsabilidade cívica.
Os observadores da cultura brasileira e das culturas do hemisfério norte notam um contraste curioso entre ambas. Os brasileiros tendem a ser afáveis, cordiais e envolventes nos relacionamentos pessoais, mas são passivos no que diz respeito aos interesses coletivos. Com os americanos e europeus muitas vezes ocorre o contrário: pouco expansivos no trato pessoal, caracterizam-se por enorme capacidade de mobilização e reivindicação no que diz respeito aos interesses mais amplos da sociedade, aqueles que vão além dos reclamos meramente paroquiais e corporativistas.
Outro aspecto da nossa cultura que pode tornar-se profundamente deletério é o pragmatismo ético, ou seja, a ênfase no “jeitinho”, na esperteza, no levar vantagem em tudo, com o seu lamentável corolário, o flagrante e generalizado desrespeito pela lei e pelas normas da boa convivência social. Esse desrespeito é agravado pelo fato de verificar-se em todas as classes sociais: não só entre os incultos, mas também nas classes média e alta, entre os elementos mais esclarecidos e privilegiados da nossa sociedade.
Será que essas afirmações podem ser substanciadas por dados concretos? Citemos alguns exemplos. O Brasil tem um novo Código Nacional de Trânsito, aprovado em 1997, que na época foi saudado como um dos mais avançados do mundo. Todavia, o índice de violações das normas de trânsito continua alarmante, a ponto de o Código ter se tornado em mera letra morta. Além dos graves acidentes que matam e incapacitam, em grandes cidades como São Paulo o desrespeito às leis de trânsito já se tornou endêmico, com transgressões de toda espécie.
Um outro exemplo de individualismo e desrespeito pela lei refere-se à questão dos ruídos. São Paulo tem uma lei do silêncio, que, como tantas outras, torna-se ineficaz por causa da falta de espírito coletivo. Muitos entendem que, sendo os brasileiros um povo alegre, que gosta de celebrar a vida, não há nada de mais em fazer festas barulhentas que atravessam a madrugada, prejudicando o repouso de tantas pessoas. Um último exemplo vale ser mencionado. Fumar nos shoppings e em outros espaços coletivos fechados é proibido por leis federais e municipais. Em toda parte existem placas alertando sobre isso. Uma vez mais, essa lei é letra morta devido tanto à insensibilidade dos usuários quanto à passividade cúmplice dos administradores e das autoridades, que não aplicam as leis e assim contribuem para o descrédito das mesmas.
Pode ser que os exemplos citados pareçam banais. Todavia, como diz a expressão bíblica, “quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito”. Ou seja, quem amortece a sua consciência em relação a pequenos delitos, terá mais facilidade em cometer delitos maiores – basta surgir a oportunidade. O cidadão comum que avança o sinal vermelho, buzina insistentemente às três horas da madrugada ou insiste em fumar em local proibido é incoerente quando critica o funcionário público corrupto que pratica a extorsão. Ambos estão fazendo a mesma coisa: violando as leis, desrespeitando direitos alheios e contribuindo para o descrédito do ordenamento jurídico; enfim, estão prejudicando a si mesmos.
Qual a origem de práticas tão condenáveis? A nossa formação cultural defeituosa, do ponto de vista educacional, ético e cívico. O que nos falta é uma infusão de melhores valores na vida social, nos meios de comunicação, na política, no governo, nas escolas, nas empresas, nas instituições. É exatamente aqui que a cosmovisão bíblica e cristã pode dar uma grande contribuição, com sua forte ênfase em valores como a verdade, a fidelidade, o altruísmo, a generosidade, a responsabilidade, a honestidade, a justiça e a integridade, entre outros. Esses valores são expressos em memoráveis aforismos dos profetas e de Cristo, tais como: “Corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene” (Amós 5.24) e “Tudo quanto quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Mateus 7.12).
Tenhamos a ousadia de desmistificar a nossa cultura e de reconhecer honestamente que, ao lado de aspectos admiráveis, dignos de imitação por outros povos, temos características culturais profundamente distorcidas e inaceitáveis, que nos prejudicam a todos. Reconheçamos a necessidade imperiosa de um “salto de qualidade” no que se refere aos nossos valores e comportamentos, sabendo que isso exige esforço sério e conscientização constante, principalmente das novas gerações. Não nos iludamos – sem que haja uma profunda transformação de mentalidades, não alcançaremos o tão sonhado Brasil próspero, fraterno, igualitário e justo.