Página InicialApresentaçãoCorpo DocenteProgramas AcadêmicosFides ReformataAlunosContato
 
Imprimir a página Procura no Site Mapa do Site
Calvino - 500 anos
Simonton - 150 anos
Igreja Antiga e Medieval
Reforma Protestante
Mov. Reformado (Calvinismo)
Ig. Moderna e Contemporânea
Protestantismo Brasileiro
Presbiterianismo no Brasil
Presbiterianismo no Brasil - fotos
Temas Diversos
Apostilas
Data-shows
Contato
Selecione a unidade:
Matrícula:
Senha:

A síndrome de Adão – Por que devemos valorizar a história


Alderi Souza de Matos


Freqüentemente nos deparamos com pessoas que não gostam de história. Isso pode ser conseqüência de experiências desagradáveis em sala de aula, da dificuldade em guardar nomes e datas ou simplesmente uma questão de preferência. Certos indivíduos não sentem atração por história, assim como outros não apreciam inglês, química ou matemática.


Porém, uma coisa é não gostar de história como matéria, como área de estudo; outra coisa bem diferente e não gostar da história, ou seja, não valorizar a história, não considerá-la algo importante. Essa é uma tendência muito comum em nossos dias: o desprezo ou indiferença em relação à história, como se fosse algo dispensável, algo que só interessa a estudiosos ou diletantes.


Essa atitude é no mínimo lamentável e no máximo perigosa. Lamentável porque devido a esse desinteresse as pessoas deixam de conhecer muitas coisas valiosas que poderiam enriquecer as suas vidas e dar-lhes maior apreço por tantas realidades que as cercam. Perigosa porque a história é repleta de lições e advertências sobre coisas muito sérias, e quando as pessoas a ignoram, deixam de aprender com ela e correm o risco de repetir os seus erros.


Essa posição negativa em relação à história pode ser descrita como a “síndrome de Adão”. Sendo o primeiro ser humano, Adão não tinha história, não tinha um passado, uma herança social e cultural. Muitas pessoas se comportam como se fossem Adão, como se tudo tivesse começado com elas, como se nenhuma coisa importante tivesse acontecido antes do seu tempo. Esta lição tem o objetivo de mostrar que tal atitude não é saudável, por várias razões importantes.


1. História e identidade
Mesmo que não valorizem a história no sentido amplo, a maior parte dos seres humanos se preocupam com ela num âmbito mais restrito, pessoal. Por exemplo, quase todas as pessoas têm curiosidade em conhecer a sua árvore genealógica, em obter informações sobre a sua família, os seus antepassados. Hoje em dia existem firmas especializadas em fazer esse tipo de pesquisa para os interessados. Com freqüência, os meios de comunicação mostram pais procurando filhos e especialmente filhos procurando pais, buscando preencher lacunas importantes em suas vidas, em sua personalidade.


As pessoas em geral também gostam de relembrar os eventos importantes da sua vida – e mesmo aqueles não tão importantes, mas que as marcaram de algum modo. Essa é uma das razões porque temos álbuns de fotografias, escrevemos diários, contamos “casos” e comemoramos datas especiais. Isso resulta da consciência de que essas coisas são muito nossas e de que, se não as valorizarmos, ninguém mais o fará. Quanto mais idosas as pessoas se tornam, mais importantes se tornam essas recordações e reminiscências – essa história.

Qual a razão desses comportamentos? É o fato de que a história, mesmo que apenas pessoal e familiar, tem a ver com quem nós somos, com a nossa identidade como seres humanos. Quem não conhece a sua história, fica privado dos seus referenciais, das suas raízes. Por isso é tão triste a situação de indivíduos que, por causa de um acidente, trauma ou doença, perdem a memória e não sabem mais quem são. Em outros casos, um incêndio, inundação ou sinistro semelhante pode destruir documentos e objetos que marcaram a trajetória de uma vida, de uma família, com grande perda para a auto-imagem das pessoas envolvidas.


É por esse motivo que, de acordo com a legislação brasileira, existem certos bens muito pessoais que nunca podem ser retirados de alguém a título de pagamento de dívida, como é o caso de cartas, fotos e outros objetos de valor afetivo. Essas coisas têm um significado para essas pessoas que não pode ser avaliado economicamente, por serem parte da sua trajetória de vida.


O que muitas pessoas deixam de perceber é que não só os eventos da nossa vida pessoal contribuem para a nossa identidade, mas também os acontecimentos mais amplos da sociedade e do mundo ao nosso redor. Não só os indivíduos e famílias têm uma identidade, mas os grupos, a coletividade e nações inteiras. Talvez seja essa uma das principais causas da crise de identidade que vive o Brasil contemporâneo – a incapacidade de encarar de frente a nossa história e aprender com os seus acertos e desacertos.


Uma apreciação da nossa história irá nos ajudar a entender os aspectos positivos do nosso patrimônio cultural. Por um lado, iremos saber de onde veio a mistura de raças, o jeito alegre de ser, a musicalidade, o folclore, a riqueza do idioma e da literatura, a afetividade e tantas outras características positivas do nosso caráter nacional. Por outro lado, compreenderemos melhor como surgiram o individualismo, o desprezo pela lei, a corrupção na vida pública e as desigualdades sociais que tanto nos envergonham e prejudicam. Compreendendo os mecanismos que deram origem a esses problemas, estaremos mais capacitados para corrigi-los.


2. Uma fé histórica
Os cristãos têm fortíssimas razões adicionais para valorizar a história – razões de natureza bíblica e teológica. A Escritura nos mostra que o povo de Deus, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, tem uma profunda ligação com a história. Mais ainda: Deus e a sua salvação estão intimamente ligados à história humana.


A fé judaico-cristã afirma que o Ser Divino é ao mesmo tempo transcendente e imanente. Como um Ser transcendente, Deus está acima e além do tempo e do espaço, sendo, portanto, aistórico, ou seja, não sujeito aos condicionamentos da história. Ele é infinito, eterno e imutável, ao contrário de tudo o mais que existe, do universo criado.


Ao mesmo tempo, Deus é imanente, isto é, relaciona-se de perto com a sua criação, atua diretamente no mundo em atividades de revelação, providência e redenção. Como diz o título original de um livro de Francis Schaeffer, “ele está presente e não está calado” (publicado pela Editora Cultura Cristã com o título O Deus que se revela).


Deus se relaciona com a história de duas maneiras principais. Em primeiro lugar, em sua soberania ele dirige a história, ainda que muitas vezes o faça de maneira incompreensível e insondável para nós. O cristianismo tem uma concepção linear da história, como algo que tem um princípio, um meio e um fim. Em cada uma dessas etapas, Deus é o personagem central. O grande teólogo e bispo da antiguidade Agostinho de Hipona foi o primeiro a elaborar uma filosofia cristã da história em sua obra A cidade de Deus, na qual analisa a história do mundo desde a criação até a consumação, à luz da obra da redenção.


Todavia, em um sentido ainda mais rico e sublime, Deus se relaciona com a história entrando ele mesmo, pessoalmente, nessa história através de Jesus Cristo, seu Filho. Por isso a verdade da encarnação é tão importante para os cristãos. Crer na encarnação significa crer que o Deus transcendente e eterno literalmente veio ao mundo e se identificou profundamente com a sua criação, assumindo uma natureza humana integral. Ele o fez com o objetivo de restaurar o seu relacionamento com as suas criaturas. Ninguém expressou isso de modo tão claro e direto quanto o apóstolo Paulo, quando disse: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2Co 5.19).


A própria Bíblia é um livro de histórias e da grande história. No Antigo Testamento, os judeus foram instruídos a lembrar continuamente os grandes eventos libertadores de Deus, através de cerimônias e festividades, bem como ensiná-los de contínuo a seus filhos (ver Êx 12.11-14,24-27; 13.6-9,14-16; Lv 23.41-43; Dt 6.6-9,20-23). Isso era fundamental para a preservação da sua identidade religiosa e nacional e para que nunca deixassem de ser gratos a Deus por suas bênçãos (ver os Salmos 105 e 136).


Os livros do Novo Testamento foram escritos para que a história de Jesus fosse preservada e compartilhada com as próximas gerações. Nos evangelhos e nas epístolas, os apóstolos revelam a sua convicção de que essas informações eram fundamentais para a fé e a vida dos cristãos (Lc 1.1-4; Jo 20.30-31; 1Co 15.1-4). Jesus quis que o ato central da sua obra redentora recebesse especial atenção e por isso instituiu a ordenança da Ceia, recomendando: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22.19; 1Co 11.24-25).


Ao contrário de muitas religiões, cujas convicções se baseiam em mitos supramundanos e supratemporais, a fé bíblica insiste que os seus grandes atos redentores foram realizados por Deus em eventos históricos concretos com o êxodo, a encarnação, a cruz e a ressurreição. Ora, se a história é tão importante assim para Deus, certamente o deve ser para os seus filhos. Sendo o cristianismo uma religião profundamente histórica, os cristãos, se quiserem ser coerentes com a sua fé, devem valorizar intensamente a história, palco da atuação soberana e graciosa de Deus em ações providenciais e redentoras.


3. O exemplo dos reformadores
Os reformadores protestantes do século 16 se sentiram tentados pela síndrome de Adão. Ao romperem com a sua antiga igreja – por entenderem que ela havia se afastado do ensino das Escrituras em muitos pontos importantes –, eles correram o risco de deixar tudo para trás, inclusive certos elementos válidos e bons que deviam ser preservados.


Alguns grupos protestantes cometeram esse erro, principalmente entre os chamados “radicais”, “fanáticos” ou “espiritualistas” (apelidos dados aos anabatistas extremados). Lutero questionou muitas coisas da igreja medieval, mas manteve determinados elementos doutrinários e litúrgicos da antiga tradição. Ulrico Zuínglio, o reformador de Zurique, na Suíça, foi mais longe que Lutero em sua obra de retorno às Escrituras e reforma da igreja. Por isso, os seus seguidores ficaram conhecidos como “reformados”.


Pois bem, em Zurique, alguns simpatizantes iniciais de Zuínglio chegaram à conclusão de que ele não estava sendo profundo o suficiente em sua obra de reforma, pois ainda mantinha certas práticas “papistas” como o batismo por aspersão e o batismo de crianças. Assim sendo, os anabatistas passaram a atacar Zuínglio e seu trabalho de reforma, dizendo que queriam viver como nos dias do Novo Testamento, conforme se vê no livro de Atos dos Apóstolos.


Zuínglio e depois dele Calvino disseram não a essa atitude. Eles sabiam que o cristianismo e a igreja não haviam começado com eles, mas que eram herdeiros de 1.500 anos de história. Não era possível voltar do século 16 diretamente para o século 1º como se nada tivesse acontecido ao longo desse período. Dizer que entre o final da era apostólica e a Reforma não havia ocorrido nada de bom seria o mesmo que dizer que Deus ficou mais de um milênio sem um povo no mundo, que o Espírito Santo se manteve ausente da igreja, que a promessa de Jesus – “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” – ficou inoperante.


Portanto, ao mesmo tempo em que os reformadores foram implacáveis em condenar e abandonar tudo o que, no seu entender, conflitava com a Palavra de Deus, eles foram sábios o bastante em manter muitos elementos que consideraram não só válidos, mas um patrimônio precioso a ser preservado e cultivado pelos cristãos – nas áreas da reflexão teológica, da interpretação bíblica, da elaboração litúrgica, da pregação, das missões transculturais e assim por diante.


Citemos alguns exemplos concretos no caso da tradição reformada. João Calvino e os seus simpatizantes tinham grande apreço pelas declarações de fé da igreja antiga, como o Credo dos Apóstolos, que é analisado em muitos documentos doutrinários e confessionais da fé reformada. Eles também nutriam grande admiração pelas formulações teológicas sobre Deus, a Trindade e a pessoa de Cristo feitas pelos grandes concílios dos séculos 4º e 5º (Nicéia, Constantinopla, Calcedônia). Além disso, o reformador de Genebra citou abundantemente em seus escritos autores antigos e medievais como Agostinho, João Crisóstomo, Bernardo de Claraval e outros, reconhecendo as suas valiosas contribuições nas áreas da doutrina e da espiritualidade cristã.


Na verdade, o débito dos reformadores para com Agostinho, que viveu no 5º século, é imenso. Em áreas como a antropologia (doutrina do ser humano), soteriologia (salvação) e eclesiologia (igreja) a teologia da Reforma inspirou-se diretamente e profundamente nas reflexões do bispo de Hipona, que viveu muito tempo depois dos apóstolos, mas foi uma testemunha fiel de Cristo em sua geração.


4. O que devemos fazer
As considerações acima nos mostram a importância da história bíblica, da história da igreja e até mesmo da história secular. Portanto, quais devem ser as nossas atitudes diante disso? Em primeiro lugar, precisamos recordar continuamente a história em busca de ensinos relevantes para a nossa vida. Essa é uma ênfase encontrada com freqüência nas páginas da Escritura. A recordação pode ter como objeto episódios negativos, quer na vida pessoal (Dt 24.9; Lc 17.32) ou coletiva (Salmos 78 e 106), servindo assim de solene advertência. Mais comumente, essa recordação é positiva, constituindo-se em motivo de humildade, aprendizado, gratidão e louvor (Dt 8.1-20; 15.15; 16.12; Ef 2.1-7; Tt 3.3-7).


Em segundo lugar, deve-se ter em mente que para recordar a história é preciso conhecê-la. E só podemos conhecer lendo, pesquisando e estudando. Isso se aplica tanto à história bíblica quanto à história da igreja e da sociedade. Atualmente as editoras evangélicas brasileiras disponibilizam uma grande quantidade de obras valiosas nessa área, de autores nacionais e estrangeiros. Essas obras variam no seu grau de complexidade e abrangência, estando ao alcance de pessoas com diferentes graus de instrução.


Em terceiro lugar, é preciso considerar que não se deve conhecer e valorizar a história por um simples saudosismo e apego ao passado. A história pode nos ajudar a viver melhor o presente e a construir um futuro mais promissor. Uma coisa de que nunca se deve esquecer é o fato de que todos nós somos parte do grande fluxo da história e de que continuamos a escrevê-la no presente, com as nossas ações, com a nossa vida, sob a orientação de Deus.


A história nos permite acreditar na capacidade humana para o bem, para a nobreza, para a virtude, mas também nos alerta para não subestimarmos a horrível potencialidade humana para a crueldade e para a vileza, como os acontecimentos hodiernos nos revelam a cada momento. O mesmo século 20 que viu tantas conquistas e realizações notáveis nos campos da arte, da ciência e da tecnologia, também testemunhou a barbárie do genocídio, a loucura do terrorismo e a insensatez da devastação ambiental.


Conclusão
É importante que nessa área, como em todas as outras, nós tenhamos uma cosmovisão ou perspectiva bíblica, cristã e reformada. Sim, porque existem na atualidade as mais diferentes concepções e interpretações da história – evolucionistas, niilistas, marxistas, fatalistas e outras.


Como cristãos, cremos que a história tem um sentido e um propósito. Vivendo num mundo de pecado e alienação, nem sempre podemos discernir esse sentido e propósito em cada evento. Mas confiamos que Deus está no controle último de todas as coisas. Ele nos convida para sermos, não expectadores passivos, mas co-participantes na construção do seu reino de justiça e paz. Como alguém alertou, “para que o mal triunfe, basta que os homens de bem não façam nada”.


Tenhamos uma visão equilibrada da história e do nosso lugar nela. Conforme acentuou Agostinho, no centro da história humana, com suas inquietações e perplexidades, está a cruz de Cristo como sinal de contradição e de esperança. Remidos pelo Senhor, iluminados por seu Espírito e sustentados por sua graça, façamos uso consciencioso das nossas capacidades e recursos, dando assim a nossa contribuição, ainda que modesta, para a prosperidade e o bem-estar da igreja e do mundo.


 
Copyright© 2011 - DTI - Divisão de Tecnologia da Informação
Instituto Presbiteriano Mackenzie