Alderi Souza de Matos
Não é fácil escrever sobre mais um aniversário da IPB sem repetir as frases tantas vezes usadas nessas ocasiões, já cansativas para muitas pessoas. A tendência num momento como este é voltar ao passado, celebrar pessoas e eventos há muito transcorridos. Todavia, se fosse dada aos nossos pioneiros a oportunidade de se manifestarem sobre o assunto, eles possivelmente recomendariam que olhássemos para o presente... e para o futuro. Eles diriam: “Nós fizemos o nosso trabalho conforme as circunstâncias e desafios do nosso tempo; procuramos servir fielmente o Senhor em nossa geração; façam o mesmo nos dias em que vocês vivem”.
A comemoração de mais um aniversário da igreja só tem sentido se trouxer algum benefício e incentivo para os dias atuais. Os vultos do passado foram importantes e devemos ser gratos a Deus por suas vidas. Mas eles se foram, e com eles o seu mundo, um passado que não pode voltar. Vivemos 100, 150 anos depois, num mundo diferente, caracterizado por condições que eles jamais poderiam prever. Precisamos viver a vida cristã, trabalhar como igrejas e dar o nosso testemunho sintonizados com as realidades e necessidades do nosso tempo. Seria interessante considerarmos algumas áreas em que temos a tentação de viver em função do passado, imersos no saudosismo, como se o tempo tivesse parado e as coisas continuassem as mesmas.
Uma dessas áreas é a atividade litúrgica. Nós não podemos ter cultos exatamente como os reformados faziam há 100 ou 400 anos. Muitos dos primeiros calvinistas não admitiam o uso de instrumentos musicais no culto e só cantavam os salmos metrificados. Isso mais tarde mudou. Foram admitidos alguns instrumentos (órgão, piano, violino) e passaram a ser cantados hinos, não somente salmos. Foi bom que tenham ocorrido essas mudanças. Por que não podemos fazer o mesmo em nossos dias? Não se quer aqui defender a balbúrdia litúrgica que existe em tantas igrejas atuais. Não se trata de usar quaisquer instrumentos, quaisquer ritmos. Alguns deles simplesmente não se prestam para criar uma atmosfera espiritual de recolhimento, de comunhão com Deus. Todavia, temos de admitir que muitos de nossos hinos soam estranhos aos ouvidos de hoje, por causa da melodia, do ritmo e do vocabulário. Muitos desses hinos são tremendamente tristes, melancólicos, não expressam a alegria da vida cristã, a celebração das bênçãos de Deus, o valor da presente vida. Podemos e devemos utilizar hinos e cânticos contemporâneos, contanto que de boa qualidade melódica e teológica. Ao invés de simplesmente condenar os corinhos (tantas vezes pobres em sua letra e música), devemos incentivar nossos compositores a produzirem cânticos que expressem a alegria da vida cristã e a vibração da nossa cultura, mas que ao mesmo tempo sejam sólidos em seu conteúdo bíblico e teológico. No século 19, tivemos no Brasil grandes hinólogos presbiterianos como os missionários James Theodore Houston e John Boyle e o Rev. Manoel Antônio de Menezes. Onde estão os nossos compositores sacros reformados do século 21? É perfeitamente possível termos uma liturgia que reúna o que há de melhor na tradição reformada e na cultura do nosso tempo. Assim fizeram os presbiterianos de outras gerações.
Quando estudamos os primórdios da IPB, verificamos que outra área de grande interesse era a expansão da igreja. Havia a preocupação constante não só de consolidar os locais já ocupados, mas de buscar incessantemente novos campos para a pregação do evangelho e a plantação de igrejas. Para isso se investiu muito em termos de recursos e pessoal. As igrejas norte-americanas, através de suas juntas missionárias, fizeram um imenso esforço, ao longo de um século, para implantar a obra presbiteriana no Brasil. Os irmãos presbiterianos dos Estados Unidos oraram, contribuíram, escreveram, e muitos deles se ofereceram como voluntários em prol da causa de Cristo em nosso país. Houve o caso de missionários que vieram para cá, trabalharam muitos anos, permaneceram no Brasil após a sua aposentadoria e aqui escolheram terminar os seus dias, por causa do grande amor que devotaram a este país e ao seu povo. Parece que nos falta o mesmo espírito hoje em dia. Apesar de ter sido gerada pelas missões, a nossa igreja não é uma igreja missionária. O evangelismo e as missões não nos empolgam como acontece em outras denominações. É como se os nossos pioneiros estivessem nos dizendo: “Nós procuramos cumprir a Grande Comissão em nossos dias, levando aos nossos contemporâneos o evangelho que redime e transforma. Façam o mesmo em sua geração”. Para que isso aconteça, é preciso que os nossos líderes mobilizem a igreja em torno dessa grande prioridade, com coragem e sabedoria.
Essa questão nos leva a um tema correlato: a preparação dos nossos obreiros. Os reformados sempre se preocuparam, desde o século 16, com um ministério bem preparado. Disso testifica a Academia de Genebra, fundada por Calvino, visando especialmente a formação de pastores para as igrejas reformadas da França. Disso testificam os grandes colégios de Harvard, Yale e Princeton, entre outros, fundados pelos calvinistas norte-americanos nos séculos 17 e 18. Os homens e mulheres que vieram para o Brasil como missionários no século 19 eram herdeiros dessa nobre tradição. Eram pessoas dotadas de uma educação esmerada, tanto secular como religiosa, e preocuparam-se desde o início em formar líderes bem treinados para a igreja nascente. Os pastores nacionais que estudaram aos pés de mestres como George W. Chamberlain, John B. Howell, Donald C. McLaren e William A. Waddell (da Igreja do Norte), bem como George Nash Morton, Edward Lane, John Rockwell Smith, Samuel R. Gammon e George E. Henderlite (da Igreja do Sul), tornaram-se eficientes pastores e líderes do presbiterianismo brasileiro. Essa preocupação também se expressou com a criação do Seminário Presbiteriano (1888), do Seminário do Norte (1899) e de várias escolas para a formação de evangelistas, como o Instituto Bíblico de Jaú (1887), pelo Rev. J. B. Howell, e o Instituto Ponte Nova (1906), pelo Rev. William A. Waddell, soluções simples e inteligentes para as necessidades da época.
E hoje como estamos? Padecendo de muitos problemas por causa da formação insatisfatória de parte dos nossos quadros ministeriais. O problema começa com a seleção dos candidatos ao ministério, nem sempre ditada pelos critérios mais sadios, pelas razões mais legítimas. Outra dificuldade diz respeito à recepção em nossos presbitérios de pastores oriundos de outras denominações, com formação pastoral e teológica por vezes deficiente do ponto de vista da fé reformada. Finalmente, há que se repensar a educação teológica proporcionada pelos seminários da igreja. Será que os conteúdos transmitidos aos nossos seminaristas são os mais relevantes e prioritários para o seu futuro trabalho pastoral e evangelístico? Será que não estamos tendo uma proliferação desenfreada de instituições teológicas, todas elas carentes de recursos adequados, em detrimento da boa qualidade da formação acadêmica dos futuros líderes da igreja? O fato é que se verifica através do país uma diversidade tão grande de práticas e ênfases teológicas nas nossas igrejas, a ponto de se colocar em dúvida a identidade e os rumos da denominação. Precisamos refletir com carinho e agir com energia quanto a essa questão fundamental, tomando decisões sábias e inovadoras como o fizeram os nossos primeiros.
Uma outra esfera em que podemos aprender com os vultos do passado, mas devemos encontrar soluções para os nossos próprios problemas no presente, é a que diz respeito à educação e à cultura. Nossos fundadores deram prioridade máxima à evangelização e à plantação das igrejas, mas isso não os impediu de atuarem em outras áreas importantes para a cosmovisão reformada. Uma delas foi a educação geral, que causou algumas controvérsias, mas foi entendida como um importante instrumento de serviço à coletividade. Em quase todas as regiões do país, os presbiterianos criaram boas escolas, algumas de grande porte, como a Escola Americana (São Paulo, Curitiba), o Colégio Internacional (Campinas), o Instituto Gammon (Lavras), o Colégio Agnes Erskine (Recife) e o Colégio 15 de Novembro (Garanhuns). Muitos pastores que estudaram ou trabalharam nessas instituições deram relevantes contribuições à sociedade na área intelectual. Alguns exemplos conhecidos são os Revs. Antônio Trajano (livros didáticos de matemática), Eduardo Carlos Pereira (compêndios de gramática), Modesto Carvalhosa (escrituração mercantil), Erasmo Braga (cartilhas da Série Braga) e muitos outros. E hoje, como está o desempenho dos presbiterianos nas áreas educacional e cultural? Precisamos de mais escolas cristãs, numa época em que a educação secular tem tomado rumos preocupantes. Onde está a atuação dos reformados brasileiros na política, nas universidades, nas artes cênicas, na comunicação, na música, nas organizações sociais?
Talvez a melhor maneira de comemorarmos o 145º aniversário da IPB seja refletirmos seriamente sobre o papel e o lugar da igreja no mundo contemporâneo, na sociedade complexa e confusa em que vivemos, para a qual podemos dar uma contribuição inestimável com os valores do evangelho. Não podemos desprezar o trabalho valioso e abençoado de presbiterianos e presbiterianas que tem dado à igreja e ao reino de Deus, nos dias atuais, o melhor da sua inteligência, dos seus esforços e do seu talento. Não queremos dar a impressão de que nada de bom está acontecendo nos dias de hoje, de que só existem problemas a reclamar solução. O que se espera, sim, é que, além de preservarmos e celebrarmos as conquistas do passado e do presente, busquemos maneiras de tornar ainda mais eficiente o nosso trabalho, mais vivo o nosso testemunho, mais enfática a nossa atuação nas diferentes esferas em que somos chamados a servir a Cristo em nossa geração.(Texto publicado em 2004)