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Temas Reformados

 

O PENSAMENTO TEOLÓGICO REFORMADO: ORIGEM E DESENVOLVIMENTO

 

Alderi Souza de Matos

 

Introdução

 

· Abrangência e complexidade do tema
· Abordagem histórica
· Seqüência das apresentações

 

1. Definições

 

(a) Teologia

- Compõe-se de duas palavras: “theós” (Deus) + “logos” (discurso); daí, linguagem ou discurso sobre Deus.

 

- Uma tentativa científica e metódica de compreender a revelação de Deus.

 

- Fé em busca de compreensão (“fides quaerens intellectum”) – Agostinho, Anselmo.

 

- A ciência de Deus e do seu relacionamento com o homem e o mundo (B.B. Warfield).

 

- Qualquer estudo que responda à pergunta “O que a totalidade da Bíblia nos diz hoje?” a respeito de um tópico específico (John Frame, Seminário Westminster).

 

- A disciplina que procura oferecer uma declaração coerente das doutrinas da fé cristã, baseada primariamente nas Escrituras, colocada no contexto da cultura em geral, expressa em linguagem contemporânea e relacionada com as questões da vida (Millard J. Erickson).

 

- A disciplina que apresenta uma formulação unificada das verdades acerca de Deus e do seu relacionamento com a humanidade e o universo, conforme apresentadas na revelação divina, e que aplica tais verdades a todo o conjunto da vida e do pensamento humano (B. A. Demarest).

 

(b) Reformada

- Designação dada à “Segunda Reforma” ou “Reforma Suíça”, em contraste com as reformas luterana, anabatista e anglicana. Daí “tradição reformada”, “fé reformada”, “teologia reformada”. Em muitos aspectos é equivalente a “calvinista”.

 

(c) Teologia reformada

- A tradição teológica que emergiu da obra de João Calvino e de outros reformadores do século 16, bem como de documentos produzidos nos séculos 16 e 17. Não é uniforme, mas apresenta diferentes manifestações. É abraçada pelas igrejas reformadas ou presbiterianas ao redor do mundo, bem como por muitas igrejas congregacionais, batistas e outras.

 

2. O Iniciador da Tradição Reformada

 

(a) Ulrico Zuínglio (1484-1531)

- Foi um sacerdote católico influenciado pelo humanismo renascentista.

 

- 1515-1517: conhece Erasmo de Roterdã e lê a sua tradução do Novo Testamento.

 

- 1518-1519: é nomeado “sacerdote do povo” na principal igreja de Zurique e começa a pregar uma série de sermões sobre o Novo Testamento (Mateus).

 

- 1522-1523: primeiras controvérsias: jejum da quaresma e celibato clerical. Apresenta os Sessenta e Sete Artigos num debate público promovido pelas autoridades civis.

 

- 1525: é instituído o culto em lugar da missa; rompe com os anabatistas. Publica A Verdadeira e a Falsa Religião.

 

- 1531: morre na segunda batalha de Kappel.

 

(b) Ênfases teológicas de Zuínglio

A centralidade das Escrituras: a Reforma de Zurique começou com um retorno às fontes da fé cristã na Bíblia. Zuínglio: “Eventualmente cheguei ao ponto em que, dirigido pela Palavra e pelo Espírito de Deus, vi a necessidade... de aprender a Doutrina de Deus diretamente da sua Palavra”. A igreja seria purificada e reformada através do estudo e da pregação das Escrituras. Essa ênfase radical da Reforma Suíça em uma reforma segundo a Palavra de Deus é a fonte da designação “reformado”.

 

- O princípio regulador: na aplicação das Escrituras à vida da igreja, os reformadores suíços foram mais radicais do que Lutero. Este queria eliminar da vida da igreja tudo o que fosse condenado pelas Escrituras; Zuínglio e seus colegas insistiram que toda crença e prática cristã devia ter justificativa expressa na Palavra de Deus.

 

- A Ceia do Senhor: para Zuínglio, a Ceia não era um sacrifício, mas a recordação de um sacrifício, isto é, um memorial do que Jesus Cristo havia feito, e uma oportunidade para os crentes reafirmarem a sua fé. A presença de Cristo era espiritual, não física. Esse foi o ponto de maior divergência entre Zuínglio e Lutero no Colóquio de Marburg, em 1529. As razões dessas diferenças são atribuídas às diferentes experiências religiosas dos dois reformadores e à sua formação (humanista x tradicional).

 

- A justificação pela fé: Zuínglio concordava com Lutero que a justiça de Cristo é imputada ou atribuída ao crente; mas esse entendimento forense não era suficiente: a justiça de Cristo também devia ser infundida no crente. Ou seja, o crente não apenas é declarado justo, mas precisa tornar-se moralmente justo.

 

- A lei de Deus: Zuínglio também discordou de Lutero quanto à função da lei, porque para ele a lei tinha um papel permanente na vida do cristão. Ele não fez uma oposição entre lei e evangelho, mas incluiu a lei dentro do evangelho, como um instrumento da santificação.

 

(c) Sucessores

- Zuínglio foi sucedido por Johann Heinrich Bullinger (1504-1575), um teólogo extremamente hábil e criativo. Subscreveu com Calvino o Consenso Tigurino (1549), um acordo sobre a Ceia do Senhor. Escreveu muitas obras, sendo mais conhecido como autor da Segunda Confissão Helvética (1566), um documento moderado que foi aceito por muitas igrejas reformadas ao redor da Europa. Alguns tópicos importantes do seu pensamento são: o pacto, a comunidade cristã e o papel do magistrado e do ministro, a Santa Ceia. Outro teólogo importante na tradição zuingliana foi Ecolampádio (1482-1531), o reformador de Basiléia.

 

3. O Consolidador da Tradição Reformada

 

(a) João Calvino (1509-1564)

- 1523-1528: estuda humanidades e teologia na Universidade de Paris.

 

- 1528-1532: estuda direito em Orléans e Bourges; tem aulas de grego com o luterano Melchior Wolmar.

 

- 1532-1534: retorna a Paris e reinicia seus estudos humanísticos; experimenta uma “conversão repentina” e foge da cidade (01-11-1533); visita o humanista Jacques Lefèvre D’Étaples.

 

- 1536-1538: publica a primeira edição da Instituição da Religião Cristã (Institutas); tem sua primeira estadia em Genebra.

- 1538-1541: expulso de Genebra, passa três anos produtivos em Estrasburgo, onde atua o reformador Martin Bucer; pastoreia, leciona e escreve.

- 1541-1555: escreve a Resposta a Sadoleto e é convidado a voltar para Genebra; organiza a igreja reformada; tem um relacionamento tenso com as autoridades.

- 1555-1564: período mais harmonioso; desenvolve sua grande obra em prol da Reforma; publica a última edição das Institutas e cria a Academia de Genebra.

 

(b) Contribuições

- Teólogo e escritor prolífico e criativo: sua vasta obra aborda todas as áreas da vida e da sociedade.

 

- Pastor e estruturador da igreja reformada: deu forma à teologia reformada e ao sistema presbiteriano de governo eclesiástico.

 

- Articulador do movimento reformado: seus contatos e correspondência contribuíram para a difusão do movimento por toda a Europa.

 

- Outros teólogos reformados influentes foram: Martin Bucer (†1551), Jan Laski (†1560), Pedro Mártir Vermigli (†1562), João Knox (†1572), Girolamo Zanchi (†1590), Teodoro Beza (†1605), etc.

 

(c) Escritos

- A vasta produção literária de Calvino ocupa 59 volumes da coleção intitulada Corpus Reformatorum. As concepções teológicas do reformador encontram-se em seis categorias de escritos:

 

- 1. As Institutas: a mais influente exposição da teologia protestante e reformada. Calvino produziu ao todo oito edições do texto latino (1536-1559) e cinco traduções para o francês. A 1ª edição tinha apenas seis capítulos; a última totalizou oitenta. Tem quatro partes, que seguem a estrutura do Credo dos Apóstolos:

 

            Livro I – O Conhecimento de Deus, o Criador: o duplo conhecimento de Deus, as Escrituras, a Trindade, a criação e a providência.

            Livro II – O Conhecimento de Deus, o Redentor: a queda e a corrupção humana, a Lei, o Antigo e o Novo Testamento, Cristo o Mediador – sua pessoa (profeta, sacerdote, rei) e sua obra (expiação)

            Livro III – A Maneira Como Recebemos a Graça de Cristo, Seus Benefícios e Efeitos: fé e regeneração, arrependimento, vida cristã, justificação, predestinação, ressurreição final.

            Livro IV – Os Meios Externos Pelos Quais Deus nos Convida Para a Sociedade de Cristo: a igreja, os sacramentos, o governo civil.

 

- 2. Comentários: são um complemento das Institutas. Calvino escreveu comentários de todos os livros do Novo Testamento, exceto 2 e 3 João e Apocalipse, e sobre o Pentateuco, Josué, Salmos e Isaías. Deixou preleções sobre muitos livros da Bíblia.

           

- 3. Sermões: Calvino expunha sistematicamente os livros da Bíblia. Ele costumava pregar sobre o Novo Testamento aos domingos e sobre o Velho Testamento durante a semana. Seus sermões eram anotados taquigraficamente por um grupo de refugiados franceses. A série Corpus Reformatorum contém 872 sermões do reformador.

         

- 4. Folhetos e tratados: temas apologéticos (contra católicos e anabatistas) e gerais.

           

- 5. Cartas: escritas a outros reformadores, soberanos, igrejas perseguidas, protestantes encarcerados, pastores, colportores.

           

- 6. Escritos litúrgicos e catequéticos: confissão de fé, catecismo, saltério.

 

4. O Pensamento Teológico de Calvino

 

(a) Princípios gerais

- Conteúdo bíblico: Calvino tem a sua reflexão teológica firmemente ancorada nas Escrituras. Ela é fruto do seu estudo cuidadoso e sistemático das Escrituras. Antes de ser sistemática ou especulativa, a sua teologia é bíblica, revelando o seu impressionante conhecimento das Escrituras.

- Abrangência: em sua reflexão teológica, Calvino procurou abordar todos os temas presentes nas Escrituras. Seu pensamento não só cobre todas as áreas da teologia, mas vai além da mesma, para abordar questões éticas, políticas, sociais e econômicas. Isso é típico da cosmovisão reformada: a preocupação de relacionar a fé bíblica com todas as dimensões da vida.

- Respeito pela herança cristã: Calvino sabe que a teologia cristã não começou com ele e por isso está pronto a aceitar tudo aquilo de bom e proveitoso que foi produzido antes do seu tempo. Ele valoriza e utiliza a tradição dogmática e exegética da igreja antiga, expressa nos credos do 4º e do 5º séculos e no pensamento de pais da igreja como Ambrósio, Agostinho, João Crisóstomo, Bernardo de Claraval, etc.

- Teocentricidade: a teologia de Calvino gira em torno do Deus triúno, sua soberania, graça e glória. Segue abaixo uma amostragem dos principais temas e ênfases dessa teologia.

 

(b) Sua Perspectiva Teológica

1. O conhecimento de Deus

- A verdadeira sabedoria consiste de dois elementos: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Daí a importância da revelação. Não podemos conhecer a Deus em sua essência, mas somente na medida em que ele se dá a conhecer a nós.

- Existe um duplo conhecimento de Deus: como criador e como redentor. Todo ser humano é essencialmente uma criatura religiosa, tendo em si a “semente da religião” (semen religionis). Deus se revela não só através desse senso inato de si mesmo, mas também através das maravilhas da criação.

- Esse conhecimento de Deus revelado na natureza exige uma resposta humana, seja de piedade ou idolatria. O fim último da piedade não é a salvação individual, mas a glória de Deus.

 

2. A condição humana

- O pecado torna a revelação natural totalmente insuficiente para o correto conhecimento de Deus. Ela tem somente uma função negativa – deixar os seres humanos inescusáveis por sua idolatria. O ser humano encontra-se perdido como que em um labirinto. A imagem de Deus ainda permanece nele, mas foi totalmente distorcida e desfigurada.

 

3. O Deus que se revela

- Todo verdadeiro conhecimento de Deus decorre do fato de que Deus, em sua misericórdia, houve por bem se revelar. Calvino usa aqui o conceito de “acomodação” ou adaptação. Deus desce ao nosso nível, adapta-se à nossa capacidade. Vemos isso na encarnação, nas Escrituras, nos sacramentos e na pregação.

 

- Nas Escrituras, Deus balbucia a nós, fala-nos como uma ama fala a um bebê. Outra figura: a Bíblia é como óculos divinos para os que são espiritualmente míopes. Assim, a verdadeira teologia é uma reverente reflexão sobre a revelação escrita de Deus; não deve, pois, perder-se em “vãs especulações,” mas ater-se às Escrituras.

 

4. A doutrina das Escrituras

- A Bíblia é a Palavra de Deus inspirada, revelada em linguagem humana e confirmada ao crente pelo testemunho interno do Espírito Santo. Calvino tratava o texto bíblico tanto reverentemente quanto criticamente (por exemplo, ao conciliar Atos 7.14 e Gn 46.27). A capacidade de reconhecer a Bíblia como a Palavra de Deus não depende de provas, mas é um dom gratuito do próprio Deus.

 

- Calvino afirma a unidade entre a Palavra e o Espírito contra dois erros opostos. Os católicos subestimavam o papel da iluminação ao subordinarem as Escrituras à igreja. Calvino, como Lutero, afirmou que as Escrituras foram o ventre do qual nasceu a igreja, e não vice-versa. Por outro lado, os “fanáticos” concentravam-se de tal modo no Espírito que subestimavam a Palavra escrita.

 

- Toda a teologia de Calvino foi elaborada dentro destes parâmetros: a objetividade da revelação divina nas Escrituras e o testemunho iluminador do Espírito Santo no crente. A verdadeira teologia deve manter-se dentro dos limites da revelação.

 

- A função principal das Escrituras é a nossa edificação, capacitando-nos a ver o que de outro modo seria impossível. Seu propósito é revelar o que precisamos saber sobre Deus e nós mesmos.

 

(c) O Deus Que Age

 

1. O Deus triúno

- Calvino deu mais atenção à doutrina da trindade do que Lutero ou Zuínglio. Ele basicamente sustentou a doutrina da igreja antiga de que Deus é uma única essência que subsiste em três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. Ele advertiu quanto a especulações sobre o mistério da essência divina e recusou-se a torcer a Escrituras para sustentar essa doutrina.

- Como no caso de Atanásio, no quarto século, a Trindade era fundamental por ser um testemunho da divindade de Jesus Cristo e, assim, da certeza da salvação realizada por ele. Somente alguém que era verdadeiramente Deus poderia redimir os que estavam totalmente perdidos.

- A fé na trindade é confessada na liturgia do batismo e na doxologia, não para definir plenamente o ser de Deus, mas somente para permanecer em silêncio diante do mistério da sua presença (Agostinho).

 

2. Criação

- A seguir, ainda no Livro I das Institutas, Calvino descreve a atividade de Deus em relação ao mundo na criação e na providência. O mundo criado é o “deslumbrante teatro” da glória de Deus. Depois que as pessoas são iluminadas pelo Espírito Santo e têm o auxílio dos “óculos” das Escrituras, a criação pode fornecer um conhecimento de Deus mais lúcido e edificante (teologia da natureza), fortalecendo a fé dos crentes.

 

- Deus criou o mundo a partir do nada (ex nihilo). O mundo foi criado para a glória de Deus, mas também para o benefício da humanidade. Os crentes devem contemplar a bondade de Deus em sua criação de tal modo que seus próprios corações sejam despertados para o louvor (Jonathan Edwards).

 

3. Providência

- Calvino reflete acerca do caráter precário e incerto da vida humana sobre a terra. Sua doutrina da providência não reflete um otimismo piedoso, mas resulta de uma avaliação realista das vicissitudes da vida e da ansiedade que elas produzem.

 

- Ele critica duas concepções errôneas: o fatalismo e o deísmo. A doutrina estóica do destino pressupõe que todos os eventos são governados pela necessidade da natureza. Calvino pondera que, na concepção cristã, o “regente e governador de todas as coisas” não é uma força impessoal, mas o Criador pessoal do universo, que em sua sabedoria decretou desde a eternidade o que iria fazer e agora, em seu poder, realiza o que decretou.

 

- Ele também combate a idéia de que Deus fez o mundo no princípio, mas depois o deixou entregue a si mesmo. Como mostram as Escrituras, Deus está contínua e eficazmente envolvido no governo da sua criação. Assim, a providência é uma espécie de continuação do processo criador, tanto nos grandes como nos pequenos eventos.

 

- Essa ênfase na atividade imediata e direta de Deus no mundo leva Calvino a rejeitar a teoria traducianista da origem da alma, a idéia de que a alma é transmitida de geração a geração pelo processo da procriação humana (Lutero). Calvino cria que, toda vez que uma criança é gerada, Deus cria uma nova alma ex nihilo.

 

- Apesar de sua interação direta com o mundo, Deus também pode usar causas secundárias para realizar a sua vontade. Ele pode até mesmo usar instrumentos maus (como Satanás e suas hostes), transformando o mal em bem.

 

- Se Deus decreta cada evento, onde fica a responsabilidade humana? Calvino responde que a providência de Deus não atua de modo a negar ou tornar desnecessário o esforço humano. As próprias ações humanas são um dos meios pelos quais Deus realiza os seus propósitos.

 

- O governo divino de todos os eventos não torna Deus o autor do pecado? Assim como Lutero, Calvino distingue entre a vontade revelada e a vontade oculta de Deus. Ao enviar Cristo para a cruz, a Bíblia diz que Herodes e Pilatos estavam cumprindo o que Deus havia determinado (Atos 4.27-28). Ao mesmo tempo, eles também estavam violando a vontade expressa de Deus revelada em sua lei.

 

- Vez após vez Calvino apela ao mistério e incompreensibilidade das ações de Deus. O problema do mal é tão difícil precisamente porque não podemos entender como as tragédias da vida contribuem para a maior glória de Deus.

 

- A fé verdadeira percebe que, por trás dos sofrimentos, que em si mesmos são maus, existe um Pai de justiça, sabedoria e amor que prometeu nunca abandonar-nos. Nessas questões, não se pode submeter Deus aos padrões humanos de julgamento.

 

(d) O Cristo Que Salva

1. A doutrina do pecado

- A partir do Livro II das Institutas, Calvino trata de Deus, o Redentor. Calvino geralmente é visto como o autor de uma concepção totalmente pessimista do ser humano. Todavia, o reformador sempre mostrou profunda apreciação pelas realizações humanas na ciência, literatura, arte e outras áreas, atribuindo-as à graça comum de Deus. A imagem de Deus no ser humano está terrivelmente deformada, mas não inteiramente apagada.

 

- Todavia, as muitas virtudes e dons da natureza humana nada valem para alcançar a justificação. Para entender plenamente a natureza humana, é preciso olhar para Jesus Cristo, o verdadeiro ser humano.

 

- Calvino define o pecado original como “uma depravação e corrupção hereditária de nossa natureza, difundida em todas as partes da alma, que primeiramente nos torna sujeitos à ira de Deus e depois também produz em nós aquelas obras que a Escritura chama de ‘obras da carne’” (Inst., 2.1.8).

 

- Vale destacar dois aspectos: (a) não podemos simplesmente culpar Adão por nossa condição pecaminosa; o pecado de Adão é também o nosso pecado; (b) o pecado original não se limita a uma dimensão da pessoa humana, mas permeia toda a vida e a personalidade.

- Pecado não é somente o ato, mas a inclinação da própria natureza humana em sua condição decaída. Cometemos pecados porque somos pecadores. A essência do pecado de Adão, que se repete em diferentes graus nos seus descendentes, é orgulho, desobediência, incredulidade e ingratidão. Somente a consciência da nossa total pecaminosidade pode preparar-nos para ouvir as boas novas da libertação do pecado através de Jesus Cristo.

 

2. A pessoa de Cristo

- A teologia de Calvino é profundamente cristocêntrica e o tema que domina a sua cristologia não é o conhecimento de Cristo em sua essência, mas em seu papel salvífico como Mediador. A revelação de Deus em Cristo é o supremo exemplo da sua acomodação à capacidade humana. Precisamos de um Mediador tanto por sermos pecadores quanto por sermos criaturas.

 

- Cristo como Mediador é verdadeiro Deus e verdadeiro homem (1 Tm 3.16). Ele é o Verbo eterno de Deus gerado do Pai antes de todas as eras, que, em sua encarnação, ocultou a sua divindade sob o “véu” da sua carne.

 

- Uma formulação peculiar da cristologia de Calvino é o chamado extra Calvinisticum: a noção de que o Filho de Deus tinha uma existência “também fora da carne.” Ver Institutas 2.13.4.

 

3. A obra de Cristo

- Mais importante que conhecer a essência de Cristo é conhecer com que propósito ele foi enviado pelo Pai. Calvino explicou a obra de Cristo em conexão com o seu tríplice ofício de Profeta, Rei e Sacerdote, todos os quais eram ungidos no Antigo Testamento, prefigurando o Messias.

 

- Como Profeta, ele foi ungido pelo Espírito para ser arauto e testemunha da graça de Deus, fazendo-o através do seu ministério de ensino e pregação. Na qualidade de Rei, Cristo atua como o vice-regente do Pai no governo do mundo; uma dia sua vitória e senhorio se manifestarão plenamente. Em seu ofício sacerdotal, ele foi um Mediador puro e imaculado que aplacou a ira de Deus e fez perfeita satisfação pelos pecados humanos.

 

- Calvino observa que Deus poderia resgatar os seres humanos de outra maneira, mas quis fazê-lo através do seu Filho. Ele dá ênfase não tanto à justiça de Deus, mas à sua ira e amor, ambas ilustradas na obra de Cristo. Não somente a morte de Cristo tem efeito redentor, mas toda a sua vida, ensinos, milagres e sua contínua intercessão nos céus, à destra do Pai. A obra expiatória de Cristo tem também um aspecto subjetivo, pelo qual somos chamados a uma vida de obediência.

 

(e) A Vida no Espírito

- Toda a obra de Calvino pode ser interpretada como um esforço de formular uma espiritualidade autêntica, isto é, uma vida no Espírito, baseada na Palavra de Deus revelada, vivida no contexto da igreja e direcionada para o louvor e a glória de Deus. O Livro 3 das Institutas é um belo tratado sobre a vida cristã no qual Calvino elabora uma grande quantidade de tópicos como a obra do Espírito Santo, fé e regeneração, arrependimento, negação de si mesmo, justificação, santificação, oração, eleição e ressurreição. Três deles merecem destaque especial:

 

1. A Fé

- Calvino começa por rejeitar certas noções equivocadas: “fé histórica” (mero assentimento intelectual), “fé implícita” (submissão ao juízo coletivo da igreja), “fé informe” (estágio preliminar da fé). O que é então a fé? “Um conhecimento firme e certo da benevolência de Deus para conosco, fundado na verdade da promessa dada gratuitamente em Cristo, revelado a nossas mentes e selado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Institutas 3.2.7).

 

- Antes de ser uma capacidade inata do ser humano, é um dom sobrenatural do Espírito Santo. É também uma resposta humana genuína pela qual os eleitos ingressam na sua nova vida em Cristo. Entre os efeitos da fé estão a regeneração, o arrependimento e o perdão dos pecados.

 

- O arrependimento é “a verdadeira conversão de nossa vida a Deus, procedente de um sincero e real temor de Deus, que consiste da mortificação de nossa carne e do velho homem e da vivificação do espírito” (Inst. 3.3.5). É um processo contínuo que deve estender-se por toda a vida.

 

- Embora possa ser assaltada por dúvidas, a fé verdadeira por fim triunfará sobre todas as dificuldades. Os descrentes podem, quando muito, ter uma “fé temporária.” Já os crentes verdadeiros, ainda que cometam pecados, mesmo pecados graves, são sustentados pelo Espírito e finalmente não irão perder-se.

 

2. A Oração

- O mais longo capítulo das Institutas é dedicado à oração, que Calvino chamou “o principal exercício da fé e o meio pelo qual recebemos diariamente os benefícios de Deus”. Porém, se toda a vida cristã, desde o primeiro passo até a perseverança final, é um dom de Deus, por que orar? A resposta é que os fiéis não oram para informar ou convencer Deus de alguma coisa, mas para expressarem sua fé, confiança e dependência dele.

 

- Calvino propôs quatro regras para a oração: (a) reverência: evitar toda ostentação ou arrogância; (b) contrição: deve proceder de um coração arrependido; (c) humildade: ter em mente a glória de Deus; (d) confiança: firme esperança de que a oração será respondida. Isso se aplica tanto à oração individual quanto às orações coletivas da igreja. O oração é a parte principal do culto a Deus (Is 56.7; Mt 21.13).

 

3. A Predestinação

- Calvino usou a palavra “predestinação” pela primeira vez na edição de 1539 das Institutas. A sua doutrina nessa área não tem nada de original: nos pontos essenciais ele não difere de Lutero, Zuínglio ou Bucer, os quais recorreram todos a Agostinho. A inovação de Calvino consistiu no lugar em que colocou a doutrina em seu sistema teológico, não em conexão com a doutrina da providência (Livro I), mas no final do Livro III, que trata da aplicação da obra da redenção.

 

- Calvino não começou com a predestinação e depois foi para a expiação, regeneração, justificação e outras doutrinas. Ele a introduziu como um problema resultante da pregação do evangelho. Por que, quando o evangelho é proclamado, alguns respondem e outros não? Nessa diversidade, ele afirmou, torna-se manifesta a maravilhosa profundidade do juízo de Deus. Trata-se, pois, de uma preocupação pastoral.

 

- A doutrina de Calvino sobre a predestinação pode ser resumida em três termos: (a) absoluta: não é condicionada por quaisquer circunstâncias finitas, mas repousa exclusivamente na vontade imutável de Deus; (b) particular: aplica-se a indivíduos e não a grupos de pessoas; Cristo não morreu por todos indiscriminadamente, mas somente pelos eleitos; (c) dupla: Deus em sua misericórdia ordenou alguns indivíduos para a vida eterna e em sua justiça ordenou outros para a condenação eterna.

 

- Calvino cria que essa doutrina era claramente encontrada nas Escrituras e não queria dizer nada sobre a predestinação que não pudesse ser tomado da Bíblia. Ele também não permitiu que a doutrina fosse usada como desculpa para não proclamar o evangelho a todos. De fato, na história da igreja, alguns dos maiores evangelistas e missionários foram firmes defensores dessa doutrina (George Whitefield, Jonathan Edwards).

 

- Alguns textos bíblicos sobre a eleição: Jo 6.37-39; Jo 17.9; Atos 13.48; Rm 8.28-30; Rm 9.11-24; Ef 1.4-5; Ef 2.8-9; 2 Ts 2.13; 2 Tm 1.9; 2 Tm 2.19.

 

(f) Os Meios Externos de Graça

- No Livro IV das Institutas, Calvino trata dos seguintes temas: a igreja verdadeira e seus oficiais, o desvios do romanismo, os sacramentos, o governo civil. Ele também aborda essas questões nos seus comentários das Epístolas Pastorais.

 

1. Pressupostos

- Calvino, mais que os outros reformadores, preocupou-se com a relação entre a igreja invisível e a igreja como uma instituição que pode ser reconhecida como verdadeira através de certas marcas distintivas. As marcas que constituem a igreja visível são, acima de tudo, a correta pregação da Palavra e a fiel ministração dos sacramentos. Embora não tenha incluído a disciplina eclesiástica entre as marcas da igreja, ele certamente a valorizava.

 

- A preocupação de Calvino com a ordem e a forma da congregação resultou de sua ênfase na santificação como o processo e o alvo da vida cristã. Em contraste com a ênfase luterana unilateral na justificação, Calvino deu precedência à santificação. O contexto da santificação é a igreja visível, na qual os eleitos participam dos benefícios de Cristo não como indivíduos isolados, mas como membros de um corpo. Assim, a igreja visível torna-se uma “comunidade santa.”

 

- A eclesiologia de Calvino tem dois pólos em contínua tensão: a eleição divina (igreja invisível) e a congregação local (igreja visível). Por isso, a igreja ao mesmo tempo enfrenta perigos mortais e é preservada por Deus. A igreja visível é um corpo misto composto de trigo e joio; já a igreja invisível compõe-se de todos os eleitos (inclusive anjos, fiéis do Velho Testamento e eleitos que se encontram fora da igreja verdadeira).

 

2. A igreja como mãe e escola

- A igreja é a mãe de todos os crentes porque os leva ao novo nascimento através da Palavra de Deus, bem como os educa e alimenta durante toda a sua vida. Esse caráter maternal da igreja é visto de modo especial na sua ministração dos sacramentos.

 

- O batismo é o ingresso do crente na igreja e o símbolo de sua união com Cristo. Ele visa confirmar a fé dos eleitos, mas deve ser aplicado a todos os que estão na igreja visível. Quanto à Santa Ceia, Calvino adotou uma posição intermediária entre Lutero e Zuínglio. Embora Cristo esteja nos céus à destra do Pai, a ceia não é mero símbolo, mas um meio de “verdadeira participação” em Cristo (Inst. 4.17.10-11).

 

- A igreja é também uma escola que instrui seus alunos no caminho da santidade. Essa instrução perdura por toda a vida e também se dirige aos alunos rebeldes, na esperança de que um dia sejam transformados.

 

3.Ordem e ofício

- Calvino encontrou nas Escrituras o quádruplo ofício de pastor, mestre, presbítero e diácono, que é a base da forma de governo incorporada nas Ordenanças Eclesiásticas.

 

- Ele cria que os ofícios de profeta, apóstolo e evangelista eram temporários e cessaram no final da era apostólica. Dentre os ofícios que permaneceram, o de pastor é o mais honroso e o mais necessário para a ordem e o bem-estar da igreja. Depois da aceitação de doutrinas puras, a nomeação de pastores é a coisa mais importante para a edificação espiritual da igreja.

 

- Para ser escolhido, o aspirante deve preparar-se e depois ser comissionado publicamente segundo a ordem prescrita pela igreja. Em Genebra, esse processo incluía a companhia de pastores, o conselho municipal e a igreja. A ordenação é um rito solene de instalação no ofício pastoral.

 

- As funções dos pastores são ensino, pregação, governo e disciplina. Os pastores devem ter um profundo conhecimento das Escrituras para que possam instruir corretamente as suas igrejas. Sua pregação deve revelar conhecimento e habilidade para ensinar. A pregação visa a edificação da igreja e deve ser prática e perspicaz. A função disciplinar do pastor requer que a sua própria conduta esteja acima de qualquer suspeita.

 

4. A igreja e o mundo

- Calvino rejeitou o conceito anabatista de que a igreja devia isolar-se da sociedade e cultura circundantes. A relação entre a igreja e o mundo inclui tanto tensão quanto interação. O seu entendimento do governo de Deus e da soberania de Cristo sobre toda a criação, e não somente sobre a igreja, levou-o a defender a participação na sociedade.

- O governo de Cristo deve manifestar-se idealmente através de governantes piedosos. Os magistrados deviam manter a ordem cívica e a uniformidade religiosa. Todavia, igreja e estado têm esferas separadas e autônomas de atuação. Os cristãos devem obedecer até mesmos os governantes que oprimem a igreja, orando por seu bem-estar, porque foram instituídos por Deus.

Fonte: Timothy George, Teologia dos Reformadores (São Paulo: Vida Nova, 2000).

 

5. Declarações Confessionais Reformadas

- Além do pensamento dos reformadores suíços, outra fonte da teologia reformada são as declarações de fé articuladas pelos calvinistas nos séculos 16 e 17. Essas declarações são notáveis pelo seu número e variedade: a comunidade reformada formulou pelo menos cinqüenta confissões de alguma importância nos primeiros 150 anos. Seus tópicos são os temas clássicos da teologia reformada: Deus e seu senhorio, a autoridade das Escrituras, o pecado e a salvação, a eleição, os sacramentos, a vida cristã (ética), etc. Muitos desses documentos abordam passagens clássicas da Escritura e da tradição cristã, tais como os Dez Mandamentos, a Oração do Senhor e o Credo dos Apóstolos. Classificam-se em dois tipos de textos: (1) confissões de fé e (2) catecismos (estes geralmente na forma de perguntas e respostas).

 

(a) Confissões de fé

- Sessenta e Sete Artigos (1523): apresentados por Zuínglio no primeiro debate teológico realizado em Zurique. Parágrafo introdutório: “Os artigos e opiniões abaixo, eu, Ulrico Zuínglio, confesso ter pregado na nobre cidade de Zurique, com base nas Escrituras, que são tidas como inspiradas por Deus...”

 

- Confissão de Genebra (1536): apresentada por João Calvino e Guilherme Farel às autoridades de Genebra em 10 de novembro de 1536. Distingue-se de documentos suíços anteriores, como os Sessenta e Sete Artigos, por sua argumentação mais cuidadosa e perspectiva teológica mais consistente. Caracteriza-se por sua concisão e senso de autoridade. Aborda 21 tópicos, começando com a afirmação de convicções teológicas e concluindo com temas em disputa com os católicos.

 

- Confissão da Guanabara (1558): escrita por quatro huguenotes que faziam parte da França Antártica, uma colônia francesa fundada por Nicolau Durand de Villegaignon na baía da Guanabara; com base nessa declaração de fé, Villegaignon os condenou à morte, executando três deles. A confissão compõe-se de 17 parágrafos que tratam dos seguintes temas: as pessoas da Trindade, os sacramentos da Ceia e do batismo, o livre arbítrio, a autoridade dos sacerdotes, casamento e celibato, a intercessão dos santos e orações pelos mortos. Parágrafo inicial: “Segundo a doutrina de São Pedro Apóstolo, em sua primeira epístola, todos os cristãos devem estar sempre prontos para dar a razão da esperança que neles há, e isso com toda doçura e benignidade. Nós, abaixo assinados, senhor de Villegaignon, unanimemente (segundo a medida de graça que o Senhor nos há concedido), damos razão a cada ponto, segundo nos haveis apontado e ordenado”.

 

- Confissão Galicana (1559): adotada pela Igreja Reformada de França por ocasião do seu primeiro sínodo nacional, realizado nas proximidades de Paris. O autor principal do texto foi o reformador Calvino.

 

- Confissão Escocesa (1560): produzida em quatro dias a pedido do Parlamento Escocês como parte da reforma da igreja; foi escrita por uma comissão de seis membros, entre os quais o reformador João Knox (1505-1572).

 

- Confissão Belga (1561): escrita por Guido de Brès “para os fiéis que estão dispersos por toda parte nos Países Baixos”; foi adotada por um sínodo reunido em Antuérpia em 1566 e, com algumas modificações, tornou-se um documento oficial do protestantismo reformado holandês, junto com o Catecismo de Heidelberg e os Cânones de Dort.

 

- Segunda Confissão Helvética (1566): escrita por Johann Heinrich Bullinger a pedido de Frederico III, príncipe eleitor do Palatinado (Alemanha). Em um tom moderado, apresenta o calvinismo como o cristianismo evangélico que está em harmonia com os ensinos da igreja antiga. Foi aceita oficialmente na Suíça, Alemanha, França, Escócia, Hungria e Polônia, e bem recebida na Holanda e na Inglaterra.

 

(b) Catecismos

- Instrução na Fé (1537): escrita por Calvino pouco depois de se radicar em Genebra, contém uma apresentação clara e serena dos pontos essenciais do seu pensamento inicial. Possui 33 seções que abordam os mais deferentes tópicos. Primeiro parágrafo: “Visto que não há nenhum homem, por mais bárbaro e selvagem que possa ser, que não seja tocado por alguma idéia de religião, está claro que todos nós fomos criados a fim de que possamos conhecer a majestade do nosso Criador, para que, tendo-a conhecido, possamos estimá-la acima de tudo e honrá-la com toda admiração, amor e reverência”.

 

- Catecismo de Genebra (1542): escrito por Calvino a pedido de várias pessoas, no início da sua segunda estadia em Genebra. Foi um aperfeiçoamento do catecismo de 1537. Ao mesmo tempo preparou-se um calendário indicando como ele podia ser aprendido e recitado num período de 55 semanas. Foi adotado pela Igreja Reformada da França e pela Igreja da Escócia.

- Catecismo de Heidelberg (1563): principal documento da Igreja Reformada Alemã. Foi escrito por dois teólogos, Zacarias Ursinus e Gaspar Olevianus, a pedido do príncipe Frederico III, do Palatinado. É um documento conciliador, combinando o calvinismo com um luteranismo moderado. É considerado um dos documentos reformados mais calorosos e pessoais, sendo adotado por muitas igrejas reformadas. Suas 129 perguntas e respostas classificam-se em três partes: 1) Nosso pecado e culpa, 2) Nossa redenção e liberdade, 3) Nossa gratidão e obediência. Sua primeira pergunta e resposta dizem: “Qual é o teu único consolo, na vida e na morte? É que, de corpo e alma, tanto nesta vida como na morte, eu pertenço não a mim mesmo, mas a Jesus Cristo, meu fiel Salvador, o qual pelo seu precioso sangue resgatou-me inteiramente de meus pecados e me livrou de todo o poder do Diabo. Ele cuida de mim tão bem que nem mesmo um cabelo de minha cabeça pode cair sem a vontade de meu Pai celeste e todas as coisas devem contribuir para a minha salvação. É por isso que ele me dá, pelo seu Espírito Santo, a certeza da vida eterna e me ensina a viver de ora em diante para ele, amando-o de todo o meu coração”.

 

6. A Ortodoxia Reformada

- Os séculos 16 e 17 ficaram conhecidos como o período da ortodoxia ou escolasticismo protestante. Passado o primeiro período do avivamento religioso que foi a Reforma, surgiu a necessidade de definir melhor a herança doutrinária dos diferentes grupos, muitas vezes no contexto de intensas controvérsias teológicas. Nessa época surgiram as primeiras teologias sistemáticas e documentos confessionais mais longos e elaborados. O escolasticismo caracterizou-se por uma teologia especulativa e filosófica, por uma preocupação com definições precisas e organização lógica do pensamento, de maneira extremamente detalhada.

 

- Alguns teólogos destacados desse período foram os holandeses Johannes Cocceius (1603-1669) e Gisbertus Voetius (1588-1676), o francês Moise Amiraut (1596-1664) e especialmente o suíço François Turretin (1623-1687). Este último escreveu uma teologia sistemática muito influente, Institutio Theologiae Elencticae (1679-85), que seria utilizada por muitos anos no Seminário de Princeton, nos Estados Unidos, servindo de base para a chamada Teologia de Princeton.

 

- Duas importantes manifestações da ortodoxia reformada na primeira metade do século 17 foram o Sínodo de Dort, na Holanda, e a Assembléia de Westminster, na Inglaterra.

 

(a) O Sínodo de Dort:

- Este sínodo reuniu-se para resolver uma controvérsia teológica resultante dos ensinos de Tiago Armínio (1560-1609), um pastor e professor da Universidade de Leyden que havia questionado a doutrina calvinista da predestinação. Após a sua morte, os seus simpatizantes publicaram um documento conhecido como Remonstrância (1610), que continha os Cinco Pontos do Arminianismo. Em síntese, o documento declarava que: 1) o decreto eterno de salvação refere-se àqueles que irão crer e perseverar na fé; 2) Cristo morreu por todos os homens, embora somente os crentes sejam beneficiados por sua morte; 3) o homem não pode fazer nada realmente bom até que tenha nascido de novo por meio do Espírito Santo; 4) a graça não é irresistível; 5) os fiéis são assistidos pela graça nas tentações e são impedidos de cair se desejaram o auxílio de Cristo e “não forem inativos”.

 

- A controvérsia que se seguiu despertou muitas paixões e ameaçou mergulhar a Holanda em uma guerra civil. Finalmente foi convocado o Sínodo de Dort (1618-1619), que aprovou os célebres Cinco Pontos do Calvinismo, sintetizados em cinco expressões: Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível (ou Vocação Eficaz) e Perseverança dos Santos. Os Cânones do Sínodo de Dort passaram a fazer parte do conjunto de documentos doutrinários oficialmente aceitos pela Igreja Reformada da Holanda. 

 

(b) A Assembléia de Westminster:

- Esta famosa assembléia teve uma história muito pitoresca. Com a morte da rainha Elizabete (1603), subiu ao trono inglês o rei Tiago VI da Escócia, que foi muito rigoroso com os puritanos, como eram conhecidos os calvinistas ingleses. Seu filho e sucessor Carlos I (1625-1649) cometeu um erro fatal ao tentar impor a forma de governo episcopal à Igreja da Escócia (presbiteriana). Os escoceses repudiaram essa tentativa e entraram em guerra contra o seu rei. Precisando de recursos para financiar a guerra, Carlos viu-se forçado a promover a eleição de um Parlamento. Para sua frustração, os ingleses elegeram um Parlamento puritano, que foi prontamente dissolvido. Feita nova eleição, a maioria puritana tornou-se ainda mais expressiva. Diante da recusa do Parlamento em ser novamente dissolvido, resultou a guerra civil. Foi esse Parlamento puritano em guerra contra o rei que convocou a Assembléia de Westminster, que se reuniu na Abadia de Westminster, em Londres, a partir do dia 1º de julho de 1643.

 

- Há setenta e cinco anos os puritanos vinham insistindo para que a Igreja da Inglaterra tivesse doutrinas, culto e forma de governo mais puros, ou seja, mais bíblicos. Agora parecia ter surgido a oportunidade para que isso acontecesse. A Assembléia de Westminster era composta de 121 dos mais hábeis pastores da Inglaterra, 20 membros da Câmara dos Comuns e 10 membros da Câmara dos Lordes. Todos os 121 teólogos eram ministros da Igreja da Inglaterra e quase todos eram calvinistas. Quanto ao governo da igreja, a maioria era a favor da forma presbiteriana, muitos desejavam o modelo congregacional e uns poucos defendiam o episcopalismo. Os trabalhos se estenderam por cinco anos e meio, durante os quais houve mais de mil reuniões do plenário e centenas de reuniões de comissões e subcomissões.

 

- Tão logo a Assembléia iniciou os seus trabalhos, as forças parlamentares começaram a enfrentar dificuldades na guerra. O Parlamento buscou o auxílio dos escoceses, que concordaram em ajudar sob uma condição – que todos os membros da Assembléia e do Parlamento assinassem um pacto solene comprometendo-se a manter e defender a Igreja Presbiteriana da Escócia e a reformar a Igreja da Inglaterra e da Irlanda em sua doutrina, governo, culto e disciplina, de acordo com a Palavra de Deus, o que foi aceito. Os presbiterianos escoceses também puderam enviar representantes à Assembléia de Westminster, quatro pastores e dois presbíteros, que participaram dos trabalhos sem direito a voto e exerceram uma influência desproporcional ao seu número. Logo que chegaram e foi assinado o pacto solene (setembro de 1643), houve uma mudança radical no trabalho da Assembléia. Até então, a idéia era revisar os Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana. Agora, passou-se a fazer uma reforma completa da igreja.

 

(c) Os documentos:

- A Assembléia de Westminster caracterizou-se não somente pela erudição teológica, mas por uma profunda espiritualidade. Gastou-se muito tempo em oração e tudo foi feito em um espírito de reverência. Cada documento produzido era encaminhado ao Parlamento para aprovação, o que só acontecia após muita discussão e estudo. Os chamados “Padrões Presbiterianos” elaborados pela Assembléia foram os seguintes:

           

             Diretório do Culto Público: concluído em dezembro de 1644 e aprovado pelo Parlamento no mês seguinte. Tomou o lugar do Livro de Oração Comum. Também foi preparado o Saltério: uma versão metrificada dos Salmos para uso no culto (novembro de 1645).

            Forma de Governo Eclesiástico: concluída em 1644 e aprovada pelo Parlamento em 1648. Instituiu a forma de governo presbiteriana em lugar da episcopal, com seus bispos e arcebispos.

            Confissão de Fé: concluída em dezembro de 1646 e sancionada pelo Parlamento em março de 1648.

            Catecismo Maior e Breve Catecismo: concluídos no final de 1647 e aprovados pelo Parlamento em março de 1648.

 

(d) História posterior:

- Com o auxílio dos escoceses, as forças parlamentares derrotaram o rei Carlos I, que foi executado em 1649. O comandante vitorioso, Oliver Cromwell, assumiu o governo. Porém, em 1660, Carlos II subiu ao trono e restaurou o episcopado na Igreja da Inglaterra. Teve início uma nova era de perseguições contra os presbiterianos. Na Escócia, a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana adotou os Padrões de Westminster logo que foram aprovados, deixando de lado os seus próprios documentos de doutrina, liturgia e governo que vinham da época de John Knox. Isso é ainda mais surpreendente diante do fato de que somente quatro pastores escoceses participaram da Assembléia de Westminster (Alexander Henderson, Robert Baillie, George Gillespie e Samuel Rutherford). As razões para tanto foram os méritos dos padrões de Westminster e o desejo de maior unidade entre os presbiterianos das Ilhas Britânicas. Da Escócia, esses padrões foram levados para outras partes do mundo.

 

(e) A Confissão e os Catecismos de Westminster:

- A Confissão de Fé compõe-se de 33 capítulos cujos temas podem ser classificados da seguinte maneira: a Escritura Sagrada (Cap. 1), o Ser de Deus e suas obras (2-5), o pecado e a salvação (6-8), a aplicação da obra da salvação (9-15), a vida cristã (16-21), o cristão na sociedade (22-24), a igreja e os sacramentos (25-29), a disciplina eclesiástica e os concílios (30-31), as últimas coisas (32-33). Entre os temas especificamente reformados estão os decretos de Deus, o pacto (das obras e da graça), o conceito de livre arbítrio, a vocação eficaz, a perseverança dos santos, a lei de Deus e os sínodos e concílios.

 

- O Catecismo Maior compõe-se de 196 perguntas e respostas e se divide em três partes: 1) A finalidade do homem, a existência de Deus e as Escrituras Sagradas (perguntas 1-5); 2) O que o ser humano deve crer sobre Deus (6-90); 3) Quais são os nossos deveres (91-196). Algumas seções especiais são: Cristo, o Mediador (36-56), os Dez Mandamentos (98-148) e a Oração do Senhor (186-196). O Breve Catecismo tem 107 perguntas e respostas. A parte central trata da lei de Deus e dos Dez Mandamentos (perguntas 39-83).

 

7. A Teologia Puritana

 

(a) Características:

- O puritanismo foi uma das manifestações mais férteis e influentes do calvinismo em toda a sua história. Suas origens remontam aos primeiros reformadores ingleses e escoceses, mas o movimento claramente identificado surgiu no reinado de Elizabete I (1558-1603). Os puritanos receberam essa designação por insistirem na purificação da Igreja da Inglaterra em sua teologia, culto e forma de governo.

 

- Os puritanos incluíam alguns milhares de pastores ingleses, além de muitíssimos leigos. Eles eram solidamente calvinistas em sua teologia, mas infelizmente divergiram quanto à forma de governo eclesiástico, o que acabou por dividir e enfraquecer o movimento. Como já foi dito, muitos deles eram simpatizantes do presbiterianismo, mas outros se inclinavam para os sistemas congregacional e episcopal. Enquanto muitos queriam permanecer na Igreja da Inglaterra, alguns se tornaram separatistas (independentes, batistas e outros grupos).

 

- Alguns traços distintivos do puritanismo são os seguintes: (1) erudição e piedade: os puritanos valorizavam grandemente o estudo e a vida intelectual, ao mesmo tempo em que davam ênfase a uma espiritualidade rica e transbordante; (2) cristianismo prático: davam ênfase à experiência religiosa, à conversão e ao contínuo auto-exame espiritual, mas também a uma piedade prática que se manifestava em todas as áreas da existência; (3) preocupação ética: ênfase na santidade, tanto pessoal quanto comunitária (“santos no mundo”); (4) a centralidade da pregação: os puritanos foram grandes pregadores e expositores das Escrituras; com isso, sua teologia acessível e prática penetrou em todos os níveis da sociedade inglesa; (5) algumas de suas principais convicções foram: a salvação pessoal é uma dádiva exclusiva de Deus, a Bíblia é o guia indispensável para a vida, a igreja deve refletir o ensino expresso das Escrituras, a sociedade é um todo unificado. Eles também deram ênfase aos conceitos de lei e aliança e atribuíam grande importância ao Dia do Senhor (sabatarianismo).

 

- “A fidelidade da teologia puritana à revelação bíblica, sua abrangência, sua integração da teologia com outros tipos de conhecimento, sua profundidade pastoral e espiritual, seu êxito em criar uma tradição duradoura de culto, pregação e espiritualidade leiga fazem dela uma tradição de permanente importância no cristianismo de língua inglesa e nas igrejas reformadas mais amplas” (I. Breward).

 

(b) Teólogos representativos:

- William Perkins (1558-1602): foi o primeiro teólogo elizabetano a ter uma reputação internacional. Sua teologia foi o primeiro grande exemplo da aplicação do pensamento agostiniano e reformado à transformação da sociedade, da igreja e dos indivíduos. Sua obra principal, Armilla Aurea (A Corrente de Ouro, 1590), expôs a tradição reformada em torno do tema da teologia como a “arte de viver bem”. Refletiu sobre a majestade da ordem de Deus e suas implicações sociais e pessoais.

 

- William Ames (1576-1633): foi o discípulo mais destacado de Perkins e um escritor prolífico. Todavia, devido a suas críticas contra a Igreja da Inglaterra, foi para o exílio na Holanda e teve seus livros proibidos na Inglaterra. Sua obra mais conhecida é The Marrow of Theology (A Medula da Teologia, 1623). Sua teologia prática mostra de modo abrangente como cada aspecto da vida deve ser dedicado à glória de Deus.

 

- Richard Sibbes (1577-1635): notável pregador e erudito educado em Cambridge. Exemplificou a síntese entre profundidade bíblica e sensibilidade pastoral que caracterizou o que havia de melhor na teologia puritana. Seus escritos são práticos e mostram claramente porque as ênfases puritanas foram tão plenamente assimiladas por muitos leigos. Duas de suas obras são A Porção do Cristão e A Exaltação de Cristo Comprada por sua Humilhação.

- Thomas Goodwin (1600-1680): estava destinado a uma brilhante carreira eclesiástica na Igreja da Inglaterra quando foi convencido por John Cotton (1584-1652) acerca da legitimidade da independência. Teve atuação destacada na Assembléia de Westminster e no governo de Oliver Cromwell, e foi presidente do Magdalen College, em Oxford. Sua profunda experiência com Cristo permeou todos os seus escritos.

 

- John Owen (1616-1683): dotado de extraordinários dotes intelectuais, foi o grande pensador sistemático da tradição teológica puritana. Inicialmente um presbiteriano, depois abraçou a causa independente. Alguns de seus escritos importantes são: Uma Exibição do Arminianismo (1643), vigorosa exposição do calvinismo clássico; O Reino de Cristo e o Poder dos Magistrados (1652), análise das diferenças entre a autoridade civil e a religiosa; A Morte da Morte na Morte de Cristo (1647), um estudo clássico sobre a doutrina da expiação.

 

- Richard Baxter (1615-1691): ministro puritano que se notabilizou pelo seu trabalho pastoral. Além de dedicar-se zelosamente à pregação, todos os anos ele se encontrava com cada uma das 700 famílias da sua paróquia em Kidderminster para aconselhá-las e orar com elas. Escreveu uma obra influente de teologia pastoral, O Pastor Reformado (1656). Baseado em Atos 20.28, o livro articula uma filosofia de ministério que aborda os labores, as motivações, as limitações e a dedicação dos ministros.

- Alguns herdeiros conhecidos da tradição puritana foram John Bunyan, Jonathan Edwards, Charles H. Spurgeon, e mais recentemente D. M. Lloyd-Jones e J. I. Packer. Das Ilhas Britânicas, a tradição reformada foi levada através de imigrantes para os Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul.

 

8. O Calvinismo Norte-Americano

 

- Calcula-se que na época da Revolução Americana ¾ da população eram herdeiros da tradição reformada. Essa tradição foi levada para a América do Norte por três grupos principais:

 

(a) Puritanos ingleses:

- A primeira leva, composta de separatistas, chegou a Plymouth, Nova Inglaterra, em 1620. O segundo grupo, inicialmente não-separatista, fundou Salem e Boston em 1629-1630. Mais tarde, outros grupos fundaram as colônias de New Haven e Connecticut. Eventualmente esses puritanos criaram a Igreja Congregacional, que adotou a confissão de fé incluída na Declaração de Savoy (1658), essencialmente idêntica à Confissão de Westminster. Entre os seus líderes mais conhecidos estavam os governadores William Bradford e John Winthrop, os pastores John Cotton e Cotton Mather e o missionário aos índios John Eliot.

 

- O experimento dos puritanos da Nova Inglaterra foi singular porque, estando longe do alcance da coroa inglesa e da Igreja Anglicana, eles tiveram a liberdade de se organizar, social e eclesiasticamente, segundo as suas convicções. Acabaram criando uma sociedade extremamente próspera e deram grande ênfase à educação, começando com a criação do Harvard College (1636) e do Yale College (1701). Todavia, também tiveram muitos problemas, como a perda do fervor religioso das gerações posteriores. Ficaram tristemente famosos alguns casos de intolerância, como a execução de quakers e de pessoas acusadas de feitiçaria. Muitos batistas ingleses e americanos também abraçaram convicções reformadas.

 

- A tradição puritana produziu um dos mais notáveis teólogos norte-americanos, Jonathan Edwards (1703-1758). Após estudar em Yale, Edwards tornou-se pastor auxiliar e mais tarde o sucessor de seu avô Solomon Stoddard na cidade de Northampton, em Massachusetts. Durante o seu pastorado, a igreja experimentou um grande avivamento, que depois se repetiu em muitas outras localidades da Nova Inglaterra. O ano de 1740 foi particularmente notável por causa das pregações de George Whitefield (1714-1770), um calvinista inglês. Esse avivamento ficou conhecido como o Primeiro Grande Despertamento.

 

- Edwards foi um observador atento e um estudioso perspicaz dos fenômenos do avivamento, produzindo uma valiosa série de escritos sobre a psicologia da experiência religiosa, dentre os quais se destaca o Tratado sobre as Afeições Religiosas (1746). Esse texto apresenta uma série de critérios extremamente úteis mediante os quais se pode avaliar a autenticidade de um avivamento. Ele também escreveu algumas obras teológicas de grande profundidade, como A Liberdade da Vontade (1754) e O Pecado Original (1758). O centro da sua reflexão é o próprio ser de Deus, em sua soberania, graça e glória, e a absoluta dependência do pecador em relação ao esse Deus. Edwards manteve a fé reformada tradicional, mas procurou adaptá-la à nova situação cultural em que viveu, na época do Iluminismo.

 

- Seus discípulos criaram uma escola de pensamento conhecida como Teologia de Nova Inglaterra, depois Teologia de New Haven. Os principais foram Jonathan Edwards Jr., Samuel Hopkins, Joseph Bellamy, Timothy Dwight e Nathaniel William Taylor. Sua reflexão procurou atenuar certos aspectos do pensamento calvinista considerados excessivamente rígidos, especialmente quanto ao pecado original, à liberdade humana e à expiação. No clima cultural do século 18, o século da independência dos Estados Unidos, com o seu otimismo e sua ênfase na liberdade e nas possibilidades do ser humano, a antropologia e a soteriologia calvinistas tiveram dificuldade em ser mantidas.

 

(b) Reformados continentais:

- Entre os séculos 17 e 19, grandes contingentes de imigrantes reformados europeus foram para a América do Norte, principalmente holandeses, franceses (huguenotes), alemães e húngaros. Muitos deles, como os huguenotes, fugiam da intolerância religiosa em seus países. Os holandeses criaram duas denominações: a Igreja Reformada da América (1792) e a Igreja Cristã Reformada (1851); esta última tem dado grandes contribuições à teologia reformada através de seus pensadores e de suas instituições de ensino, como o Calvin Theological Seminary (Grand Rapids, Michigan). Refugiados de língua alemã vindos do Palatinado e de outras regiões criaram a Igreja Reformada Alemã da América, inicialmente ligada à sua congênere holandesa. O Seminário de Mercersburg, na Pensilvânia, tornou-se o centro de um reavivamento teológico conhecido como Teologia de Mercersburg, sob a liderança de John W. Nevin (1803-1886) e do historiador Philip Schaff (1819-1893). Os húngaros criaram a Igreja Reformada Húngara.

 

(c) Presbiterianos escoceses e irlandeses:

- A Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América (PCUSA) foi criada pelos imigrantes escoceses e pelos chamados “escoceses-irlandeses” (Scotch-Irish), que se fixaram nas colônias centrais: Pensilvânia, Nova Jersey, Virgínia, Carolinas e outras. O primeiro concílio (Presbitério de Filadélfia) foi organizado em 1706 e em 1717, o Sínodo de Filadélfia. Em 1729, a nova igreja adotou como padrões doutrinários a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster. O grau de adesão a esses padrões e diferentes atitudes em relação ao avivamento produziram uma divisão temporária entre a Ala Velha e a Ala Nova (Old Side/New Side, 1741-1758). O Rev. John Witherspoon foi o único pastor entre os signatários da Declaração de Independência dos Estados Unidos.

 

- Em 1788, a existência de quatro sínodos permitiu a organização da Assembléia Geral, cuja primeira reunião realizou-se no ano seguinte. No século 19 surgiu nova polarização de posições: Velha Escola e Nova Escola. No contexto da Guerra Civil (1861-1865), os presbiterianos do sul criaram a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos (PCUS), que também produziu uma importante tradição teológica.

 

- Dentro da melhor tradição reformada, os presbiterianos desde o início deram grande ênfase à educação e à preparação de seus ministros. Em 1746 foi criado o Colégio de Nova Jersey (atual Universidade de Princeton) e em 1812 o Seminário Teológico de Princeton. A teologia calvinista ortodoxa ensinada nessa instituição até o início do século 20 ficou conhecida como “teologia de Princeton”. As principais escolas teológicas do Sul foram o Seminário Union (Virgínia), criado em 1823, e o Seminário de Colúmbia (Carolina do Sul). Os principais teólogos presbiterianos norte-americanos do século 19 foram os seguintes:

 

- Charles Hodge (1797-1878): um dos teólogos mais influentes dos Estados Unidos; mais de três mil estudantes passaram por suas classes de teologia em Princeton (inclusive Ashbel G. Simonton e muitos missionários que vieram para o Brasil). Sua Teologia Sistemática (1871), que sintetizava a Teologia de Princeton, foi um dos compêndios mais amplamente utilizados na educação teológica americana.

 

- Archibald Alexander Hodge (1823-1886): filho de Charles Hodge, a quem sucedeu como professor de teologia sistemática em Princeton; sua obra Esboços de Teologia (1860) foi muito utilizada nos primeiros seminários presbiterianos do Brasil.

 

- Benjamin B. Warfield (1851-1921): sucedeu A. A. Hodge no Seminário de Princeton. Dotado de vasta cultura bíblica e teológica, escreveu uma enorme quantidade de livros e artigos. Foi um firme defensor da inerrância das Escrituras, sobre a qual sustentou uma acirrada controvérsia com os liberais Charles A. Briggs e Henry P. Smith. Um dos seus escritos mais conhecidos é Calvino e o Calvinismo.

- James Henley Thornwell (1812-1862): foi professor do Seminário de Colúmbia e articulador da chamada “teologia da igreja espiritual”, segundo a qual a igreja, como igreja, deve permanecer livre de qualquer envolvimento nas questões políticas e econômicas do estado, e concentrar-se na pregação do evangelho. Essa teologia apoiava a manutenção da ordem social conservadora e escravista do Sul.

- Robert Lewis Dabney (1820-1898): foi professor do Seminário Union, na Virgínia, e incentivou o início da obra missionária da Igreja do Sul no Brasil. Seus alunos George N. Morton e Edward Lane e seu sobrinho John W. Dabney foram missionários em Campinas. Sua principal obra foi Teologia Sistemática e Polêmica (1878), na qual desenvolve uma forma moderada de calvinismo. Deu ênfase às maneiras pelas quais a providência divina atua lado a lado com o curso regular da natureza, e não em oposição ao mesmo.

 

9. O Calvinismo Europeu no Século 19

 

(a) Escócia:

- No início do século 18, através da influência do pastor Thomas Boston e dos chamados “Marrow Men”, homens que haviam sido impactados pela obra puritana The Marrow of Modern Divinity (A Substância da Moderna Teologia), surgiu um vigoroso avivamento da pregação e da vida espiritual na Escócia, que depois se fundiu com o avivamento evangélico inglês através da influência de George Whitefield. Esse avivamento foi levado para o continente em 1818 quando Robert Haldane visitou a Suíça em uma turnê evangelística. Ele influenciou grandemente homens como César Malan e J. H. Merle D’Aubigné, e através deles o avivamento evangélico difundiu-se para outras partes da Europa. Todo esse movimento estava solidamente ancorado na tradição reformada.

 

(b) Holanda:

- Na Holanda, o avivamento evangélico teve um impacto particularmente intenso, resultando no trabalho de teólogos reformados como Groen van Prinsterer, Herman Bavinck e Abraham Kuyper. Herman Bavinck (1854-1921) foi professor de dogmática na Universidade de Kampen até 1903, quando se transferiu para a Universidade Livre de Amsterdã. Suas obras mais importantes foram Dogmática Reformada (1895-1901) e Nossa Fé Razoável (1909).

 

- Especialmente notável foi a carreira de Abraham Kuyper (1837-1920), que inicialmente foi um pastor grandemente influenciado pelo liberalismo teológico. Após marcante experiência de conversão, ele começou a destacar-se como líder do calvinismo ortodoxo em seu país. Foi o fundador da Universidade Livre de Amsterdã e liderou o movimento que se separou da antiga igreja estatal para formar a Igreja Reformada da Holanda. Como líder do Partido Anti-Revolucionário, tornou-se Primeiro Ministro da Holanda de 1901 a 1905. Como resultado do seu trabalho, ocorreu um reavivamento do calvinismo não somente nos círculos eclesiásticos, mas em muitos outros aspectos da vida holandesa. Sua obra mais importante é Calvinismo (1899), onde ele argumenta como a fé reformada atinge todos os aspectos da vida e da sociedade, como a política, a ciência e as artes.

 

10. O Século 20

- O século 20 testemunhou uma crescente fragmentação da tradição reformada e da teologia reformada em muitas correntes.

 

(a) A controvérsia modernista-fundamentalista:

- Até a década de 1880, a teologia presbiteriana dos Estados Unidos foi essencialmente conservadora. A partir daquela época, por influência do pensamento europeu, em especial alemão, o liberalismo começou a entrar nos seminários e nas igrejas. Em 1892, Charles A. Briggs, um professor de Antigo Testamento no Seminário Union, de Nova York, foi julgado por heresia pelo seu presbitério em virtude da sua interpretação liberal da Bíblia. Embora absolvido, no ano seguinte ele foi suspenso pela Assembléia Geral, que era controlada pelos conservadores desde 1837. Esse episódio acirrou os debates teológicos na Igreja do Norte.

 

- Em 1910, a PCUSA afirmou cinco doutrinas essenciais: a inerrância das Escrituras, o nascimento virginal de Jesus, sua expiação vicária, sua ressurreição física e os milagres. Essas doutrinas eram defendidas pelo fundamentalismo, um movimento surgido no início do século 20 que visava reafirmar o protestantismo ortodoxo e defendê-lo dos desafios da teologia liberal, da alta crítica alemã, do darwinismo e de outros pensamentos considerados danosos para a fé cristã histórica. O movimento tomou esse nome após a publicação de uma série de doze livretos denominada Os Fundamentos: Um Testemunho da Verdade (1910-1915).

 

- Essas doutrinas consideradas essenciais foram reafirmadas pela Igreja do Norte em 1916 e 1923, mas em 1927 a Assembléia Geral decidiu que os cinco fundamentos não mais seriam obrigatórios para os candidatos ao ministério. Com o passar do tempo, os liberais haviam ficado mais explícitos na sua oposição ao fundamentalismo. Um bom exemplo dessa atitude pode ser visto em Harry Emerson Fosdick (1878-1969), um pastor batista que atuava como pregador visitante na 1ª Igreja Presbiteriana de Nova York. No dia 21 de maio de 1922, ele proferiu um sermão intitulado “Os fundamentalistas irão vencer?”, que teve ampla divulgação. Os conservadores responderam as acusações de intolerância publicando o sermão “A incredulidade irá vencer?”

 

 

- O líder mais destacado dos conservadores da PCUSA era John Gresham Machen (1881-1937), um brilhante professor de Novo Testamento no Seminário de Princeton. Machen não gostava da palavra “fundamentalista” e era somente com hesitação que a aceitava para descrever a si mesmo, porque, conforme dizia, ela soava como uma nova religião e não como o mesmo cristianismo histórico no qual a igreja sempre tinha crido. Em sua obra mais conhecida, Cristianismo e Liberalismo (1923), argumentou que o liberalismo era uma religião diferente do cristianismo. Por outro lado, ele não apreciava a tendência fundamentalista de reduzir a fé a um conjunto de doutrinas essenciais.

 

- Liderados por Machen, os conservadores travaram suas batalhas em três frentes: na Assembléia Geral, no Seminário de Princeton e na Junta de Missões Estrangeiras. Quando um novo presidente do Seminário de Princeton declarou a sua intenção de dar maior abrangência teológica à escola, incluindo pontos de vista liberais, Machen liderou a resistência. Nesse processo, Princeton abandonou a teologia que havia abraçado por mais de um século. Ao ser derrotado, Machen retirou-se da instituição onde havia trabalhado por 23 anos e fundou com alguns colegas o Seminário Westminster, em Filadélfia (1929).

 

- Machen também questionou o fato de que os missionários estavam se afastando do propósito básico de pregar o evangelho para dedicar-se ao trabalho médico e social. Questionando a ortodoxia da Junta de Missões Estrangeiras, ele e seus simpatizantes fundaram em 1933 uma junta independente de missões. A Assembléia Geral declarou cismática essa iniciativa e ordenou que Machen voltasse atrás ou sofresse disciplina. Ele permaneceu firme em sua posição e foi suspenso do ministério presbiteriano em 1935. No ano seguinte, fundou a Igreja Presbiteriana da América, mais tarde denominada Igreja Presbiteriana Ortodoxa. Em 1937, Carl McIntire e alguns outros auxiliares de Machen romperam com essa igreja e fundaram a Igreja Presbiteriana da Bíblia.

 

- A derrota do grupo conservador foi facilitada pelo fato de que os centristas ou moderados apoiaram os liberais nas votações. Estes acabaram assumindo o controle da denominação, o que se mantém até o presente. Com isso a PCUSA afastou-se de modo cada vez mais rápido da sua herança reformada. A agenda social e política (direitos humanos, feminismo, aborto, teologia da libertação, defesa dos homossexuais, etc.) passou a dominar as preocupações da igreja. Na segunda metade do século 20, apesar da união com a Igreja do Sul em 1983, a denominação sofreu um acentuado declínio numérico, tendo perdido mais de um quarto dos seus membros.

 

(b) A neo-ortodoxia:

- Enquanto nos Estados Unidos ocorria a controvérsia modernista-fundamentalista, na Europa surgiu um movimento muito diferente em reação contra o liberalismo: a neo-ortodoxia dos teólogos suíços Karl Barth (1886-1968) e Emil Brunner (1889-1966). Esse importante movimento buscou resgatar algumas idéias e temas da Reforma Protestante, principalmente de Calvino, reinterpretando-os à luz do conhecimento moderno. Deu ênfase à transcendência de Deus, à responsabilidade do homem como criatura, ao pecado e à culpa, à singularidade de Cristo como mediador da revelação e da graça, e ao encontro pessoal com Deus na revelação. Todavia, seu entendimento das Escrituras (Barth: “A Bíblia é a Palavra de Deus até onde Deus permite que ela seja a sua Palavra”, Dogmática Eclesiástica), sua dependência do existencialismo e o seu pessimismo acerca da confiabilidade e validade da razão humana, entre outros fatores, fizeram com que a neo-ortodoxia fosse rejeitada por amplos setores do mundo teológico, entrando em declínio na década de 1960.

 

- Um momento importante da ascensão da neo-ortodoxia nos Estados Unidos foi a publicação da obra de Reinhold Niebuhr (1893-1971), O Homem Moral e a Sociedade Imoral, em 1932, na qual ele criticou o otimismo do liberalismo e a sua acomodação à cultura. Ficou particularmente famosa a frase com a qual o seu irmão H. Richard Niebuhr (1894-1962) definiu e criticou o liberalismo: “Um Deus sem ira levou homens sem pecado para um reino sem julgamento através das ministrações de um Cristo sem cruz”.

 

(c) Pensamento reformado tradicional:

- Ao longo do século 20, em instituições como a Universidade Livre de Amsterdã, o Seminário Westminster (Filadélfia), o Seminário Calvin (Grand Rapids) e outros, surgiu um importante esforço intelectual voltado para a valorização e defesa da teologia reformada clássica. Alguns pensadores destacados foram Herman Dooyeweerd, D.H.T. Vollenhoven, J. H. Bavinck e G. C. Berkouwer, na Holanda; Louis Berkhof, Francis Schaeffer e Cornelius Van Til, nos Estados Unidos; James Orr, na Escócia, e Pierre Marcel, na França.

 

- Mais recentemente, uma série de pastores e escritores tem se destacado por sua exposição popular dos grandes temas da tradição reformada. Entre eles podem ser citados J. I. Packer, D. James Kennedy, John MacArthur Jr., R.C. Sproul, Michael Horton, Sinclair B. Ferguson e James Montgomery Boice. Seus temas principais são as chamadas “doutrinas da graça”: a centralidade do Deus triúno e soberano, a incapacidade humana, a graça e a eleição, a importância das Escrituras e da pregação, o culto bíblico e o viver ético, bem como a crítica do relativismo e do pragmatismo que caracteriza tanto a cultura moderna quanto um grande número de igrejas evangélicas.

 

11. Teologia Reformada no Brasil

 

(a) A teologia dos missionários:

- Os primeiros reformados que vieram para o Brasil foram os huguenotes da França Antártica (1557-1558) e os holandeses que dominaram o Nordeste por um quarto de século (1630-1654). Dos primeiros, a única coisa que restou foi a notável Confissão de Fé da Guanabara. Já os holandeses tiveram a oportunidade de realizar um trabalho mais amplo, tendo criado mais de vinte igrejas, dois presbitérios e até mesmo um sínodo, e se dedicado à evangelização dos indígenas. Com a sua expulsão, extinguiu-se por dois séculos a presença calvinista no Brasil. Os responsáveis pela implantação definitiva da fé reformada em solo brasileiro foram os presbiterianos norte-americanos.

 

- Os missionários americanos que implantaram a Igreja Presbiteriana do Brasil, tanto da Igreja do Norte quanto da Igreja do Sul, eram todos firmemente calvinistas, tendo recebido a sua formação teológica nos grandes seminários do seu país: Princeton (Nova Jersey), Western (Pensilvânia), McCormick (Illinois), Union (Virgínia) e Colúmbia (Carolina do Sul). Todavia, muitos deles também haviam sido influenciados pela tradição puritana-pietista-avivalista do protestantismo norte-americano. Eram herdeiros de mais de um século de avivamentos, principalmente na região da “fronteira” oeste, com a sua ênfase na pregação apaixonada, nos apelos à conversão e na experiência religiosa. O próprio Rev. Simonton havia se convertido e sentido a chamada para o ministério durante um avivamento ocorrido em sua cidade, por ele descrito em seu Diário (março de 1855).

 

- Na época do início da obra presbiteriana no Brasil, o presbiterianismo norte-americano era composto de duas correntes. A “Velha Escola” (Old School) era simpatizante do calvinismo ortodoxo, apegada aos padrões de Westminster, ciosa da sua identidade denominacional e cheia de reservas em relação ao emocionalismo dos avivamentos. A Nova Escola (New School) tinha um calvinismo mais moderado, estava mais aberta para a colaboração com outras denominações e era simpatizante dos avivamentos. Porém, havia uma característica comum a ambas – o anticatolicismo, exacerbado no século 19 com a chegada aos Estados Unidos de grandes contingentes de imigrantes católicos (italianos, irlandeses e alemães). Além disso, a maior parte dos missionários vinha de regiões rurais, e não de grandes centros. Isso explica em parte a sua preferência por trabalhar no interior do Brasil, e não nas principais cidades.

 

- De qualquer modo, em seu trabalho prático, os missionários estavam mais preocupados com a evangelização, a plantação de igrejas e a polêmica com os católicos, o que os levava a dar pouca ênfase às peculiaridades da teologia reformada. Havia muita cooperação com as outras igrejas evangélicas, principalmente com os congregacionais e os metodistas. Curiosamente, no final do século 19 e início do século 20 surgiram nos concílios da IPB várias propostas de união orgânica com a Igreja Metodista.

 

- Na formação dos pastores nacionais, os missionários utilizaram amplamente a literatura teológica padrão em voga nos Estados Unidos. O Rev. Francis Schneider traduziu o livro O Caminho da Vida, de Charles Hodge, e os Esboços de Teologia, de A.A. Hodge. Em Garanhuns, o Rev. Martinho de Oliveira utilizou em sua classe teológica a Teologia Sistemática, de Charles Hodge. Seu sucessor, Rev. George Henderlite, exigia que os alunos dominassem tanto os Esboços de Teologia quanto O Evangelho Ensinado por Calvino, do Rev. R. C. Reed, um professor do Seminário de Colúmbia. Em 1888, quando se organizou o Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil, foram adotados a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster.

 

(b) Desdobramentos posteriores:

- Nas primeiras décadas do século 20, algumas correntes teológicas do hemisfério norte começaram a causar impacto no protestantismo brasileiro, especialmente entre os metodistas e os presbiterianos. Contribuíram para a isso a chegada de missionários com uma nova mentalidade, a difusão da literatura e a participação de líderes evangélicos brasileiros em conferências internacionais. A Conferência Missionária Mundial (Edimburgo, 1910) e o Congresso da Obra Cristã na América Latina (Panamá, 1916) foram particularmente influentes. Na IPB, o líder que mais absorveu as novas idéias foi o brilhante Rev. Erasmo de Carvalho Braga (1877-1932).

 

- Dois movimentos foram especialmente marcantes – o Movimento Ecumênico e o Evangelho Social. Nos dois casos, as tendências eram as mesmas: crescente aproximação e colaboração das igrejas evangélicas; menor ênfase nos elementos distintivos de cada igreja, em benefício da cooperação; a busca de um cristianismo menos dogmático ou doutrinário e mais prático. Isso fez com que alguns presbiterianos passassem a atribuir menor importância à sua herança reformada.

 

- O Evangelho Social ou Cristianismo Social foi um movimento muito importante no protestantismo norte-americano por cerca de cinqüenta anos (1880-1929), em reação contra os males da sociedade industrial. Seu principal expoente foi o pastor batista e professor de história da igreja Walter Rauschenbusch (1861-1918), que escreveu vários livros sobre o assunto. Suas idéias básicas eram: a construção do reino de Deus na terra, o descaso pelas formas tradicionais de piedade e teologia, religião e ética vistas como inseparáveis e a crença no aperfeiçoamento humano. Pregava a redenção da sociedade, mais que dos indivíduos (“salvar o organismo social... não os átomos humanos”). A ideologia do Evangelho Social teve grande difusão no Brasil através da publicação do livro Em Seus Passos Que Faria Jesus? (1902), de Charles Sheldon.

 

- Um fato curioso é que a controvérsia modernista-fundamentalista não chegou a abalar as igrejas brasileiras num primeiro momento. Indagado sobre as razões para isso, Erasmo Braga respondeu em 1931: “A maior parte dos líderes [evangélicos brasileiros] poderiam ser classificados como fundamentalistas, mas muito poucos são do grupo extremo. Tem havido alguns caçadores de heresias, mas existem poucos hereges para serem pegos. O evangelismo é o centro do interesse da vida eclesiástica brasileira, e não a controvérsia doutrinária. Aqueles que possam estar lendo teologia e crítica bíblica de linha modernista são sábios em não levar ao seu trabalho a complicação inútil de questões puramente acadêmicas. Nos seminários, as questões envolvidas nessa controvérsia são em geral discutidas com franqueza. Os jovens estudantes são informados acerca dos problemas e são capacitados a encará-los e a preservar os seus contatos intelectuais e espirituais com as igrejas, nas quais prevalece um espírito acentuadamente conservador” (The Republic of Brazil, p. 120).

 

- É interessante que o cisma presbiteriano, que resultou na criação da Igreja Presbiteriana Independente (1903), não decorreu de controvérsias teológicas, mas de dificuldades institucionais: o lugar dos missionários na vida da igreja, a tensão entre educação e evangelização, e a questão maçônica. Porém, ao longo do século 20, as duas denominações presbiterianas brasileiras iriam sofrer fortes abalos na área teológica. A primeira foi a Igreja Independente, que no final da década de 30 experimentou uma forte controvérsia em torno da questão das “penas eternas”. Insatisfeitos com o posicionamento da denominação, dois grupos opostos se desligaram da mesma. Em 1940, sob a liderança do veterano Rev. Bento Ferraz (1865-1944), um grupo ortodoxo formou a Igreja Presbiteriana Conservadora, que eventualmente se filiou ao Concílio Internacional de Igrejas Cristãs, de Carl McIntire.

 

- Dois anos depois, a ala liberal criou a “Igreja Cristã de São Paulo” (05-04-1942), tendo entre os líderes mais conhecidos os Revs. Eduardo Pereira de Magalhães (neto de Eduardo Carlos Pereira), Epaminondas Melo do Amaral (sucessor de Erasmo Braga na Confederação Evangélica do Brasil) e Otoniel Mota (intelectual e fundador da Associação Evangélica Beneficente). Nos seus documentos de organização, a nova igreja declarou o seu compromisso com o espírito ecumênico e com a liberdade doutrinária, afirmando no último artigo de sua declaração de fé: “Cremos na proeminência da vida espiritual e ética sobre símbolos de fé, que, embora necessários, e baseados nas Escrituras, são falíveis e devem ser aceitos no espírito de livre exame e tolerância”.

 

- A IPB continuou a ser essencialmente conservadora em sua teologia, embora alguns líderes abraçassem um liberalismo moderado que não chegou a criar perturbações. Um exemplo disso por ser visto nos escritos e projetos do Rev. Miguel Rizzo Jr. (1890-1975), com o seu Instituto de Cultura Religiosa, fundado em 1939. Todavia, a partir dos anos 50 e 60 uma forma bem mais radical de liberalismo haveria de penetrar no presbiterianismo brasileiro através de homens como M. Richard Shaull (1919-2002) e toda uma geração de estudantes influenciados por eles. Destes, o mais brilhante foi sem dúvida Rubem Azevedo Alves; outros nomes de expressão foram Zuínglio Mota Dias e Joaquim Beato.

- Concomitantemente, um movimento de natureza radicalmente oposta, a “renovação carismática”, também afetou o presbiterianismo brasileiro. Em 1968, como resultado do “movimento de renovação” na IPB, surgiu em Cianorte, no Paraná, a Igreja Cristã Presbiteriana. Em 1972, um segmento também se separou da IPI para formar a Igreja Presbiteriana Independente Renovada, em Assis (SP). Em 1975, os dois grupos se uniram, criando a Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil.

- Por sua vez, os progressistas igualmente criaram a sua própria denominação, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, por discordarem da postura conservadora da IPB durante a administração do Rev. Boanerges Ribeiro (1966-1978). Em 1974, membros do Presbitério de São Paulo criaram a Aliança de Igrejas Reformadas. Em 1978, foi criada a Federação Nacional de Igrejas Presbiterianas (FENIP), em Atibaia. Em 1983, na cidade de Vitória, a FENIP adotou o nome de Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. Essa igreja sofreu recentemente uma divisão (abril de 2004), quando o Presbitério Haroldo Cook desligou-se da mesma e formou o Conselho de Igrejas Cristãs Livres (CICL). O manifesto de organização declara: “O alvo do CICL é tornar realidade conquistas que deram origem à Igreja Presbiteriana Unida, mas foram esquecidas e abandonadas, depois de 25 anos, pela corrente presbiteriana, que marcava princípios de renovação libertadora, progressista e ecumênica”.

 

Conclusão

- Essas crises e conflitos revelam as dificuldades de muitos que se dizem herdeiros da tradição reformada quanto à sua própria identidade e objetivos. De um lado, há o risco do conservadorismo estéril, que apenas repete as formulações do passado, sem atualizar a sua linguagem e sem relacionar a teologia com as realidades e necessidades do mundo presente. De outro lado, a preocupação excessiva com a contextualização e com a satisfação das expectativas da modernidade pode levar as igrejas a diluírem a sua teologia e a sua mensagem, tornando-se presas do relativismo e do pragmatismo.

 

- Não existe possibilidade de renovação eclesiástica, teológica e litúrgica sem se levar em conta, com muita seriedade, as contribuições duradouras do passado, as verdadeiras fontes da teologia cristã, evangélica e reformada. A igreja tem necessidade constante de reforma e essa reforma não irá ocorrer pela sua adaptação aos valores da cultura contemporânea, mas pela volta aos fundamentos bíblicos lançados pelos reformadores. Além de ser bíblica, reformada e contemporânea, a teologia também deve ser um empreendimento coletivo, expressando a fé de uma comunidade.

-  Algumas áreas que merecem reflexão especial da parte dos reformados brasileiros são as seguintes:

           

            Os “solas” da Reforma: sola Scriptura, solo Christo, sola gratia, sola fides, soli Deo gloria, e sua relevância atual.

            O sacerdócio universal dos fiéis (ausência da distinção clero/laicato) e o que representa para a atuação dos crentes na igreja e no mundo.

            A soberania de Deus sobre todas as áreas da existência e suas implicações para a vida, individual e social.

            A temática do culto segundo o entendimento reformado: bíblico, teocêntrico, reverente e ao mesmo tempo alegre; a importância da liturgia e da hinódia.

            A necessidade da pregação, da exposição bíblica e do ensino doutrinário e prático, levando em conta o que há de melhor na herança reformada.

            O conceito de missão em termos de evangelização, sim, mas também de testemunho profético e serviço ao próximo.

            A importância da ética bíblica, aplicando a Palavra de Deus a todas as áreas da vida.

 

Referências Bibliográficas:

 

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Leituras Recomendadas:

 

BOICE, James Montgomery e outros. Reforma Hoje: Uma convocação feita pelos evangélicos confessionais. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999.

 

BOICE, James Montgomery. O Evangelho da Graça: A aventura de restaurar a vitalidade da igreja com as doutrinas bíblicas que abalaram o mundo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

 

HORTON, Michael (Org.). Cristo, o Senhor: A Reforma e o senhorio na salvação. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.

 

HORTON, Michael. As Doutrinas da Maravilhosa Graça: Um antídoto contra o cristianismo cultural infiltrado no meio evangélico. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

 

KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002.

 

MACARTHUR JR., John. Sociedade Sem Pecado. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

 

PACKER, J. I. A Evangelização e a Soberania de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

 

SCHAEFFER, Francis A. A Obra Consumada de Cristo: A verdade de Romanos 1-8. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.

 

SPROUL, R. C. Eleitos de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.

SPROUL, R. C. Sola Gratia: A controvérsia sobre o livre arbítrio na história. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

 

VEITH JR., Gene Edward. Tempos Pós-Modernos: uma avaliação cristã do pensamento e da cultura da nossa época. São Paulo: Cultura Cristã, 1999.        

 

WRIGHT, R. K. McGregor. A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.

 





 
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