Presbítero Henrique Gomes de Oliveira: o patriarca de Boa Vista do Jacaré
Alderi Souza de Matos
O presbítero Henrique Gomes nasceu na cidade de Bragança, Província de São Paulo, em outubro de 1820. Cinco anos mais tarde, a família transferiu-se para Socorro. Chegada a adolescência, ele não pôde continuar vivendo em companhia do padrasto, que o maltratava. Incentivado pela mãe e mesmo sabendo das dificuldades que teria de enfrentar, contraiu matrimônio com apenas quinze anos e sete meses de idade! Naqueles tempos difíceis, defrontou-se com duras lutas. No entanto, havia herdado de sua família um caráter nobre e inquebrantável que o capacitou a suportar as adversidades.
De Socorro voltou para Bragança, de onde, alguns anos mais tarde, levando a mãe viúva, mudou-se para Itaqueri da Serra, nas proximidades de Brotas. Dali se transferiu pouco depois para a localidade de Santa Maria, vindo em 1864 a residir num sítio de 2.000 alqueires que comprou no alto da Serra do Jacaré e denominou “Boa Vista do Jacaré”. Nesse período continuou a enfrentar imensas dificuldades e privações, não tendo muitas vezes o alimento do dia seguinte para a numerosa família. Segundo o seu biógrafo, Rev. Herculano Ernesto de Gouvêa, referindo-se à pobreza dos pais e à sua criação em circunstâncias humildes, ele dizia com um sotaque característico: “Eu fui criado com os catchorros e os gatos na cinza”.
Apesar da pobreza e falta de cultura, Henrique Gomes era correto em seu procedimento, não freqüentando tavernas ou casas de reputação duvidosa. No final da vida, disse ao Rev. Herculano: “Tenho sido um homem sadio. Nunca contraí moléstia por quaisquer irregularidades de proceder. Nunca uma pessoa me auxiliou por motivo de doença. Agora, tendo chegado a ponto de necessitar de auxílios estranhos, sei que não mais levantarei”. Era um homem sincero e, quando ainda não conhecia o evangelho, ai de quem duvidasse de sua palavra! Bravo e valente na extensão da palavra, não suportava insultos. Deixava então sua mansidão aparente ou a cordialidade rara de que era dotado por natureza, para tornar-se um leão perigoso e destemido.
Pouco depois de se mudar para o sítio em que viveu durante 32 anos, converteu-se ao evangelho. Naquela época, a região estava começando a ser evangelizada de maneira sistemática por pregadores como os Revs. Alexander L. Blackford e Ashbel G. Simonton, o colportor Manoel Pereira da Cunha Bastos e especialmente o ex-sacerdote José Manoel da Conceição. Graças ao trabalho desses pioneiros, no dia 13 de novembro de 1865 foi organizada a Igreja Presbiteriana de Brotas, a terceira do Brasil. Em 7 de maio de 1866, numa de suas visitas àquele campo, o Rev. Francis J. C. Schneider recebeu por batismo e profissão de fé sete pessoas, entre as quais José Castilho de Morais, sua esposa Ana Maria de Morais, Henrique Gomes de Oliveira e o casal Gertrudes e José Rufino de Cerqueira Leite (irmã e cunhado do Rev. Conceição). Outros missionários que trabalharam nessa região nos primeiros tempos foram William D. Pitt, Emanuel N. Pires, Hugh W. McKee e Robert Lenington.
Foi José Castilho de Morais, compadre e amigo de Henrique Gomes, que o evangelizou. Conta-se que quando este ouviu dizer que Castilho havia aceitado o evangelho, exclamou horrorizado: “Como não estará preta a alma do compadre Castilho!” José Castilho apresentou-se um dia no seu portão e lhe disse: “Compadre, dê-me licença de entrar. Eu sou protestante. Talvez o compadre tenha medo de mim”. “Não, compadre”, disse ele, “pode entrar, contanto que não fale de sua religião, que eu não quero”. Depois de falar sobre outros assuntos, Castilho disse: “O compadre não deseja ouvir a Palavra de Deus?”. Diante da resposta positiva, Castilho, que não sabia ler, convidou-o para ir até a casa de Antônio Francisco de Gouvêa (1825-1902), o primeiro membro da Igreja de Brotas. No dia combinado, foram juntos àquela residência. O Sr. Gouvêa dirigiu o culto e leu a Bíblia para eles até a meia-noite. No dia seguinte, antes da partida, leu ainda muitos capítulos. Henrique Gomes saiu profundamente impressionado, prometendo voltar para ouvir mais do livro, o que de fato fez.
Ao chegar em casa, perguntaram-lhe o que tinha visto e ele disse: “Vi coisas bonitas. O que entendi é a própria verdade. Sei que as imagens para nada prestam e não têm mais que ficar em minha casa”. Com grande espanto da família, tomou o oratório, despejou-o, pos os santos em um balaio e mandou um filho atirá-los no rio Jacaré, no poço mais fundo que encontrasse. Cumprida a ordem do pai, voltava o filho quando a avó, que morava à margem do caminho, lhe perguntou o que tinha ido fazer. Antônio respondeu: “Fui djogá no sarto os mudinho de nhô pai”. Ela disse: “Pois então nhô Henrique mandou pintchá os santo dele? Leve os meu também Antônio”. E foi buscar o oratório. Quando o neto disse que os despejasse no balaio, ela disse com toda a naturalidade: “Os meu que vá com catcha e tudo!”
Dali em diante, Henrique Gomes recebeu os ministros do evangelho em sua casa e por fim, como foi dito, professou publicamente a sua fé perante o Rev. Francis Schneider, estando também presentes os Revs. George Chamberlain e José Manoel da Conceição. Ele e sua esposa Maria de Oliveira tiveram 16 filhos, dos quais 13 estavam vivos quando do seu falecimento. Sua numerosa família acompanhou-o abraçando o evangelho. Muitos agregados, parentes e conhecidos seus também se converteram graças ao testemunho de sua fé inquebrantável. Aos cinqüenta anos (1870), tentou aprender a ler com Antônio Pedro de Cerqueira Leite e seu irmão José Rufino. Todavia, não obteve muitos resultados pela dificuldade de adaptar-se aos óculos. Sabia, no entanto, muita coisa da Bíblia, discutindo e confundindo adversários. Uma ocasião, disse-lhe certa pessoa: “O senhor aceitou religião de estrangeiros”, ao que ele objetou imediatamente: “Cristo era brasileiro?”
Henrique Gomes foi eleito presbítero da Igreja de Brotas no dia 30 de junho de 1875, junto com Joaquim José de Gouvêa. No ano seguinte também seria eleito Manoel Pereira de Toledo Magalhães. Eles foram os primeiros presbíteros dessa igreja histórica. Nessa época, dava assistência pastoral a toda aquela região o Rev. João Fernandes Dagama, que havia se fixado recentemente em Rio Claro. No sítio dos Gomes surgiu uma próspera congregação e foi fundada uma escola. O patriarca reunia os muitos filhos, netos e vizinhos para os cultos no pequeno templo ali construído. Esse local é mencionado nas atas da igreja como a capela do Alto da Serra ou Cabeceira do Jacaré. Herculano de Gouvêa (1861-1931), filho de um dos fundadores da Igreja de Brotas e futuro pastor, freqüentou os cultos nessa congregação durante a infância e a adolescência, pois o sítio do seu pai ficava nas proximidades de São Pedro. Ele professou a fé na referida congregação no dia 10 de dezembro de 1876, aos 15 anos, após ser examinado pelo Rev. Dagama e pelo presbítero Henrique Gomes. Mais tarde, escreveria o livreto Do Alto da Serra, dando impressões da sua mocidade nessa região.
Quando os Revs. Dagama e Herculano de Gouvêa organizaram a Igreja Presbiteriana de Boa Vista do Jacaré, em 18 de outubro de 1891 (segundo Dagama, foi em 27 de setembro), Henrique Gomes passou a exercer o presbiterato na nova igreja. Além dos ministros já citados, outros pastores que trabalharam nesse campo foram os Revs. Antônio Bandeira Trajano, John Beatty Howell, Zacarias de Miranda, Bento Ferraz e João Vieira Bizarro, todos os quais deram um testemunho invejável sobre o veterano presbítero. Entre seus vizinhos estava o capitão Veríssimo Prado, que declarou certa vez: “O homem mais sincero e reto que conheço é Henrique Gomes”. O Dr. João Batista Silveira Melo, genro de Prudente de Morais, comprou uma fazenda próxima à residência de Gomes, honrando-o e distinguindo-o como amigo. Outro amigo chegado foi Francisco Lopes Ribeiro (1842-1915), o primeiro presbítero da Igreja de Boa Vista do Jacaré. O presbítero Henrique Gomes esteve preso durante cinco meses pela grave enfermidade que o prostrou. Apesar de cadavérico e trêmulo, era possível perceber em seu rosto uma íntima satisfação ao ouvir a Palavra de Deus. Dizia com freqüência: “Eu sou um grande pecador; só a graça de Cristo pode salvar-me”. Faleceu aos 76 anos no dia 29 de julho de 1896.
Em notas biográficas publicadas na cidade de Jaú em 1911, o Rev. Herculano de Gouvêa preservou algumas histórias interessantes sobre o seu amigo. Como presbítero zeloso, Henrique Gomes dirigia os cultos, apascentando o rebanho sob seus cuidados. Mandando um filho ler uma porção bíblica escolhida, ele tomava um versículo por tema, discorrendo sobre a matéria de modo interessante. Num desses discursos, ele disse em seu linguajar caboclo: “O ‘querente’ que não lê a Bíblia, que não procura observar os mandamentos de nossa santa religião, que não é constante em assistir os cultos, mas anda em ‘panguidas’, procedendo como os ‘incredos’, vai mal! Eu venço com a mão canhota, e vai arruinado”. Explicando certa vez como o caminho da vida é estreito, ele disse: “Há muitos que pensam andar pelo caminho do céu como nos caminhos do mundo, à vontade. Não! O caminho do céu é estreito e apertado, poucos acertam com ele. Não se pode andar por esse caminho como quem mata cobra, dando por paus e por pedras. É necessário, uma vez no caminho, seguir por ele, pondo os olhos no Senhor Jesus”.
Procurando mostrar quanta sabedoria os crentes devem ter em suas relações com o mundo, ele falou certa vez: “Meus irmãos, nós somos carneiros e os ‘incredos’ são os cabritos... Embora andem juntos, às vezes os cabritos não se dão com os carneiros, sempre são inimigos. Assim somos nós também. Ainda que tenhamos certas relações com o mundo, o mundo não gosta, porque não somos do mundo. A nossa luz confunde os homens das trevas”. Defendendo a Bíblia – “o livro de Deus”, como ele dizia – falou as seguintes palavras: “Quando vejo o ‘querente’ aceitando uma parte da Escritura e rejeitando outra, digo logo: ‘Vai mal!’ A Bíblia deve ser aceita de uma capa na outra, ou rejeitada inteira. Não pode ser verdade e mentira ao mesmo tempo!”
Seu modo de discutir também era interessante. Certa ocasião apareceu em sua casa um “arcademu”, com quem travou discussão religiosa. O acadêmico, usando de sutilezas, o confundiu. Suspirou então pela presença de seu Gouvêa (Joaquim José), que era muito versado na Bíblia. Qual não foi a sua alegria, quando viu o Sr. Gouvêa chegar inesperadamente à porta da sua casa. Ele em poucas palavras confundiu o adversário, o que fez Henrique Gomes saltar pela sala e dizer, usando a linguagem patriarcal da época: “Então, conheceu teu marido, conheceu teu matcho?” (ou seja, teu superior).
Achando-se ele presente numa festa de casamento a convite do fazendeiro vizinho, o padre que viera celebrar a cerimônia quis provar a Gomes que a Escritura manda cultuar as imagens. Ele retorquiu: “Sr. padre, você tem coragem de dizer isto neste ‘limpão’?” E citando a Escritura confundiu o sacerdote. Os circunstantes depois disseram ao padre: “Nós bem dissemos não haver o senhor motivar discussões com este velho, porque ele sabe a Escritura”.
Sua capacidade em discernir certas questões é exemplificada pelo seguinte fato. Um filho de Gomes vendera alguns alqueires de feijão a um vizinho, que era agregado no sítio. Mais tarde, quando o vizinho veio procurar o feijão, o moço, que ainda não havia recebido o dinheiro, disse que não poderia ceder o produto, visto verificar que poderia ter colhido pouco. Resultando daí uma contenda, disse o agregado: “Vamos com o nhô Henrique. O que ele disser, isso é”. Chegando à casa do velho, este lhes mandou que expusessem a questão. Feito isto, o velho disse ao filho: “É entregar o feijão, embora seja preciso comprar de outro para o seu gasto, porque o homem quando trata uma coisa há de cumpri-la, ainda que seja com as tripas no tchão”.
“Padrinho Henrique”, como é chamado pela família, teve muitos filhos, tais como Pedro, João Henrique, José, Vicente, Silvestre, Antônio, Gertrudes, Maria, Francisca, Mariana e Leocádia. Outras fontes mencionam ainda Fortunato, Manoel, Arcibino, Caetano, Benedito, Francisco e Jesuíno, embora alguns destes possam ter sido netos. Deixou inúmeros descendentes, muitos dos quais até hoje integram a Igreja de Boa Vista do Jacaré, situada no município de São Pedro (a 16 km da sede), quase na divisa com o município de Brotas. Um dos descendentes mais idosos é o Sr. José Xavier de Oliveira (“Xavierzinho”), com 92 anos, evangelista jubilado da Junta de Missões Nacionais, residente em São José dos Campos. Seu filho Dorival Xavier de Oliveira, nascido em Brotas em 1939 e residente em São Paulo, estudou no Instituto José Manoel da Conceição, do qual foi deão e capelão em 1969 e 1970. Ao lado do Rev. Olson Pemberton Jr., liderou a Caravana Evangélica do JMC em muitas viagens pelo Brasil. Foi membro do Presbitério de São Paulo e pastoreou por breve tempo a Igreja de Jandira. Dona Guiomar Gomes Machado (nome de solteira), segunda esposa do Rev. Olson, residente em Campinas, é tataraneta de Henrique Gomes.
Vários descendentes residem na cidade de São Pedro, como a Sra. Ana Gomes de Oliveira Soares, com cerca de 90 anos, uma das pessoas que mais conhecem a história da família; o Rev. Samuel Gomes de Oliveira Sobrinho, atual pastor da Igreja de Boa Vista do Jacaré; e o Rev. Dirceu Xavier de Mendonça. O Rev. Samuel, nascido em Astorga, no Paraná, em 1954, e ordenado em 1994, pastoreou anteriormente a Igreja de Diadema. O Rev. Dirceu nasceu em 1940 e foi ordenado em 1968, em São Carlos. Foi pastor em Bariri, Marília, Bauru, Dracena, Sorocaba (Igreja do Calvário), Rio Claro (2ª Igreja), São Pedro, Ribeirão Preto (Igrejas de Nova Canaã e Filadélfia), Americana (Igreja Filadélfia) e Nova Odessa. Lecionou por breve tempo no Seminário de Campinas. Foi jubilado em 2004. É casado com D. Cleomar, filha do Rev. Armando Amorim. Seu filho, Rev. Dirceu Amorim de Mendonça, é missionário da APMT em Don Benito, na Espanha. O Rev. Márcio Soares, pastor em Nova Odessa, filho da Sra. Léia Gomes de Oliveira, também descende do presbítero Henrique Gomes. Vários outros pastores são considerados filhos da Igreja de Boa Vista, como o Rev. Jofre Botão, que trabalhou no norte do Paraná.