Alderi Souza de Matos
Uma questão de grande interesse, não só para os estudiosos e teóricos, mas para os líderes eclesiásticos, é a que diz respeito aos limites e abrangência da atuação missionária da igreja. Ao cumprir o seu papel junto à sociedade e desincumbir-se do que entende ser a sua vocação missionária, deve a igreja preocupar-se exclusivamente com a pregação da sua mensagem religiosa, visando atrair novos adeptos, ou deve também envolver-se com outras atividades que beneficiam os indivíduos e a coletividade mas podem produzir poucos resultados em termos de conversões?
Historicamente, as igrejas protestantes têm feito as duas coisas amplamente – têm anunciado a mensagem cristã e também têm criado escolas, proporcionado assistência médica, desenvolvido projetos agrícolas e feito uma série de outras coisas na área social ou de promoção humana. Destas últimas, a educação é não só a mais importante e influente, mas é também aquela que apresenta um maior potencial para conflitos e controvérsias. Tal tem sido o caso na história da Igreja Presbiteriana do Brasil.
O presbiterianismo foi implantado no Brasil por missionários procedentes de duas denominações presbiterianas norte-americanas: a Igreja do Norte (PCUSA) e a Igreja do Sul (PCUS). A agência missionária da primeira era a Junta de Missões Estrangeiras, sediada em Nova York, e a igreja do sul tinha um Comitê de Missões Estrangeiras, sediado em Nashville, Tennessee. Ambas as organizações eram firmes partidárias da educação como um importante instrumento da obra missionária.
Todavia, a ênfase na educação nem sempre foi uma unanimidade, e logo encontrou resistências, não só por parte de destacados líderes presbiterianos nacionais como também por parte de alguns missionários estrangeiros. E nenhuma escola missionária norte-americana sediada no Brasil foi centro de maiores debates do que o Colégio Protestante de São Paulo, eventualmente conhecido como Mackenzie College. Praticamente desde a sua fundação, no início da década de 1890, até o fatídico ano de 1903, a grande instituição esteve no centro de uma crise que dividiu a igreja, enfraqueceu o seu ímpeto evangelístico e limitou o seu crescimento.
O objetivo deste estudo é mostrar como a tensão entre evangelização e missão refletiu-se no Colégio Protestante e as conseqüências que isso trouxe para a própria instituição e para a igreja. O principal período estudado é aquele que vai de 1890 até 1912, quando o Mackenzie foi dirigido pelo grande educador Horace Manley Lane (1837-1912). Iniciamos com uma análise preliminar sobre o lugar da educação no protestantismo. Prosseguimos com um breve histórico da obra educativa das missões presbiterianas no Brasil, dando especial atenção ao Colégio Protestante de São Paulo. A parte principal do trabalho analisa a maneira como o Mackenzie College enfrentou em seus primeiros decênios essa tensão que parecia questionar a validade da sua própria existência.
1. Protestantismo e educação
Em muitos aspectos, a atividade didática pertence à essência mesma do cristianismo. Cristo foi um mestre e legou aos seus seguidores uma mensagem que devia ser ensinada a outros e transmitida de geração a geração. Desde o princípio, os cristãos entenderam a importância da educação como instrumento indispensável para comunicar a fé e ajudar os fiéis a se firmarem em suas convicções. Ao mesmo tempo em que realizava a atividade mais básica da educação cristã ou educação religiosa, a igreja, em sua interação com o mundo greco-romano, também sentiu a necessidade de preparar melhor os seus líderes e os seus fiéis. Dessa preocupação, resultaram na antiguidade importantes iniciativas como as famosas escolas catequéticas de Alexandria e Antioquia, entre outras.
Na Idade Média, os mosteiros cristãos espalhados por toda a Europa tornaram-se centros de preservação e transmissão da cultura. Ao lado de suas atividades de devoção e trabalho manual, os monges dedicavam-se ao estudo e à reprodução de manuscritos antigos, preservando assim o saber dos séculos anteriores. Muitos monastérios também possuíam escolas para a educação de crianças e jovens. Eventualmente, surgiram as escolas das catedrais (de onde veio o termo “escolasticismo”), que, durante o chamado “renascimento do século 12”, resultaram no aparecimento das primeiras universidades, como as de Paris, Oxford, Bolonha e Montpellier.[1] Nas universidades cristãs, como seria de se esperar, a mais importante área de estudo era a teologia, a “rainha das ciências”, vindo em seguida a filosofia, a medicina e o direito.
O movimento de reforma protestante do século 16 apropriou-se dessa herança, mas também deu-lhe novas ênfases e canalizou-a para novas direções. Muitos dos primeiros líderes protestantes – tais como Martinho Lutero, Filipe Melanchton, Ulrico Zuínglio, Henrique Bullinger, Martin Bucer e João Calvino – eram homens cultos, influenciados em maior ou menor grau pela cultura humanista do final da Idade Média e agora também profundamente impactados pelo estudo das Escrituras.
A centralidade da Bíblia no movimento protestante conduziu a um renovado interesse pela educação. As pessoas precisavam ser alfabetizadas a fim de poderem ler e estudar as Escrituras. Além disso, a reforma valorizou e incentivou a participação dos leigos na vida da igreja bem mais do que isso havia acontecido em qualquer outra época desde os primeiros séculos da era cristã. Outra importante inovação foi o novo entendimento do conceito de vocação. Os reformadores criam e ensinavam que todas as ocupações humanas são dignas e valiosas porque Deus é o senhor de toda a vida. Não mais se fazia uma distinção rígida entre a esfera religiosa e a secular. Esses valores de liberdade, autonomia e participação foram fortes incentivos para a ênfase protestante na educação.
O interesse pela educação tornou-se particularmente intenso na chamada “Segunda Reforma”, o movimento calvinista. João Calvino valorizava de tal maneira a educação cristã que, ao elaborar a constituição da igreja reformada de Genebra, no documento conhecido como Ordenanças Eclesiásticas, incluiu entre os quatro ofícios da igreja aquele dos mestres ou doutores, os homens que deviam estudar e ensinar as Escrituras. O reformador francês culminou a sua obra em 1559 com a criação da Academia de Genebra, uma escola em três níveis – primário, secundário e superior – que visava educar a infância e a juventude e também preparar os futuros líderes das igrejas reformadas. Outras tradições da reforma também deram importantes contribuições para a educação, como foi o caso dos pietistas e sua universidade em Halle, Alemanha. Já a Igreja Morávia deu ao mundo a figura notável de João Amós Comênio, o maior educador protestante do século 17.[2]
Ao migrarem para o Novo Mundo, os calvinistas trouxeram consigo o seu forte interesse pela educação. Foi assim que os puritanos se notabilizaram pelas grandes instituições que criaram na Nova Inglaterra, como os colégios de Harvard e Yale.[3] Os presbiterianos também, tão logo começaram a se organizar eclesiasticamente nos Estados Unidos, passaram a estabelecer os seus colégios, o primeiro dos quais foi o Colégio de Nova Jersey, hoje a Universidade de Princeton, fundado em 1746.
Poucas gerações mais tarde, em princípios do século 19, quando teve início o movimento missionário protestante em escala mundial, os missionários europeus e norte-americanos passaram a implantar as suas escolas, grandes e pequenas, na Ásia, na África e na América Latina. Por muitas décadas, essas instituições foram vistas como uma expressão natural da atividade missionária da igreja. Porém, ao longo do século foram surgindo vozes discordantes quanto à necessidade das mesmas. Nas primeiras décadas do século 20, com o crescente afastamento entre liberais e conservadores – que atingiu seu ápice na chamada “controvérsia modernista-fundamentalista”, ocorrida na década de 1920 nos Estados Unidos –, a questão educacional provocou intensos debates.[4]
Ao longo da sua história, os protestantes em geral e os calvinistas em particular, haviam entendido a educação como algo intimamente relacionado com a igreja. Havia uma estreita associação entre atividades educacionais e interesses religiosos. Durante alguns séculos, quando se falava em educação em conexão com as igrejas, entendia-se em primeiro lugar a educação religiosa, institucionalizada a partir de fins do século 18 na organização conhecida como a “escola dominical”. Nessa forma de educação, os conteúdos eram predominantemente religiosos e os fins visados eram espirituais. Outra forma de educação intimamente associada com as igrejas eram as “escolas paroquiais”, ou escolas anexas aos templos, que proporcionavam ensino geral, porém dentro de princípios estritamente cristãos. Geralmente os alunos dessas escolas eram filhos dos membros das igrejas, de modo que não havia conflitos entre os interesses educativos e religiosos.
Ao mesmo tempo, diferentes grupos protestantes criaram instituições maiores e mais complexas, muitas delas de nível superior, como já foi apontado em relação aos puritanos e aos presbiterianos da América do Norte. Originalmente, tais entidades estavam estreitamente ligadas às igrejas e visavam atender aos interesses das mesmas. Tanto a Academia de Genebra quanto os colégios dos calvinistas norte-americanos visavam, prioritariamente, formar ministros para as igrejas e outros profissionais cristãos. Todavia, devido à sua própria natureza, tais instituições corriam o risco de secularizar-se, afastando-se em maior ou menor grau dos seus propósitos originais.
Todos esses fatores reproduziram-se nos campos missionários. No Brasil, como em muitos outros países, presbiterianos e outros protestantes do hemisfério norte criaram as suas escolas dominicais, suas escolas paroquiais e seus colégios. No caso destes últimos, quando houve a percepção de que tais instituições não estavam atendendo às prioridades da igreja nacional, surgiram conflitos. O exemplo mais importante é o do Colégio Protestante de São Paulo.
2. Escolas missionárias presbiterianas
Ao lado da implantação de igrejas com suas escolas dominicais, os missionários presbiterianos norte-americanos que trabalharam no Brasil dedicaram-se entusiasticamente à criação de instituições de ensino, a começar das escolas paroquiais.[5] O missionário pioneiro, Ashbel Green Simonton (1833-1867), estabeleceu uma dessas escolas junto à Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. No edifício alugado pela missão no antigo Campo de Santana, hoje a Praça da República, funcionavam, lado a lado, a partir de 1867, o templo e a escola para meninos. Mais tarde, foi iniciada uma escola noturna para adultos. No local existia ainda um pequeno seminário, cujos alunos lecionavam na escola paroquial.[6]
Essas escolinhas foram se multiplicando em várias regiões do país, à medida que novas igrejas iam sendo criadas. Um exemplo notável é o do Rev. João Fernandes Dagama (1830-1906), um protestante que teve de fugir da sua terra natal, a Ilha da Madeira, em virtude de perseguição religiosa, estudou teologia nos Estados Unidos e veio para o Brasil como missionário em 1870, fixando-se três anos depois em Rio Claro, na Província de São Paulo. Em sua vigorosa atividade evangelística, Dagama sistematicamente criava pequenas escolas ao lado das muitas igrejas que plantou, permitindo assim que crianças e adultos fossem alfabetizados e habilitados a estudar por si mesmos as Escrituras.[7]
Todavia, desde o início os missionários também pensaram na criação de escolas maiores, que atendessem a um público mais amplo e tivessem objetivos mais ambiciosos.[8] O próprio Simonton assim se expressa em seu Diário, no dia 21 de janeiro de 1860: “O plano de uma escola protestante aqui [no Rio de Janeiro], de grau elevado, para ingleses e brasileiros que quisessem freqüentá-la, tem ocupado muito meus pensamentos ultimamente”.[9] Mais tarde, Simonton sugeriu ao seu irmão James que viesse abrir tal escola. James de fato veio em junho de 1861, mas a escola projetada não foi aberta e ele limitou-se a lecionar num colégio em Vassouras, por alguns anos.[10] Num conhecido estudo que leu diante do Presbitério do Rio de Janeiro em 15 de julho de 1867, Simonton falou da criação de escolas como um “meio indispensável para assegurar o futuro da igreja evangélica no Brasil”.[11]
Paul Pierson, citando atas da Missão Sul, menciona cinco alvos explícitos das instituições educacionais missionárias:
Auxiliar na propagação do evangelho, especialmente entre as classes superiores; preparar os crentes para viverem em um nível econômico mais elevado, o que lhes permitiria sustentar a igreja e exercer maior influência na sociedade; proporcionar um ambiente educacional de nível espiritual e moral mais elevado do que o encontrado nas escolas públicas e católicas; preparar líderes para a igreja; e contribuir de maneira geral para a cultura e o progresso da nação ensinando os alunos a usarem seus recursos de modo mais eficiente.[12]
2.1 A Escola Americana
Aquilo que Simonton desejou, seus colegas das igrejas do norte e do sul dos Estados Unidos realizaram amplamente. A primeira escola missionária presbiteriana no Brasil a ser mais que uma simples escolinha paroquial foi justamente a Escola Americana de São Paulo, a antecessora do Colégio Protestante. Essa escola teve um início muito modesto em 1870, na sala de jantar da residência do Rev. George Whitehill Chamberlain (1839-1902), na Rua Visconde de Congonhas do Campo, do bairro Campos Elísios. A primeira professora foi a própria esposa do missionário, Mary Ann Annesley, e as alunas iniciais eram meninas que não podiam freqüentar a escola pública em razão da intolerância religiosa.[13]
No ano seguinte, a escola foi organizada mais formalmente nas instalações da igreja, um velho sobrado localizado na Rua Nova de São José, nº 1 (hoje Rua Líbero Badaró), junto ao Largo de São Bento. A princípio, havia uma classe em inglês com vinte e três alunos de ambos os sexos e uma classe em português com dez crianças. As primeiras professoras norte-americanas foram as notáveis educadoras Mary Parker Dascomb, Harriet Greenman e Elmira Kuhl[14]; os primeiros mestres brasileiros foram o futuro escritor Júlio Ribeiro[15] e as jovens Palmira Rodrigues e Adelaide Molina. Logo, a nova escola começou a atrair a atenção do público, tanto é que, em 20 de agosto de 1872, o Correio Paulistano, noticiando os exames havidos na mesma, afirmou: “Mostraram todos maravilhosos desenvolvimentos, como não estamos nós brasileiros habituados a presenciar nas nossas escolas rotineiras do tempo colonial. Encontra-se ali o ideal americano – escola mista regida por mulher”.[16]
Em 1875, Chamberlain adquiriu um terreno na esquina da Rua de São João com a Rua do Ipiranga, onde foi construída no ano seguinte a nova sede da Escola Americana. Uma evidência da importância da escola para os missionários é o fato de que, invertendo o procedimento usual, foi a escola que passou a hospedar a igreja. Por cerca de sete anos a Igreja Presbiteriana de São Paulo reuniu-se na “sala grande” da Escola Americana, até que o novo templo foi inaugurado em janeiro de 1884, num terreno contíguo, com frente para a Rua 24 de Maio. Em 1878 foi inaugurado o Kindergarten, possivelmente o primeiro jardim da infância do Brasil, tendo à frente a educadora Phoebe R. Thomas.[17]
Foi nesse mesmo ano de 1878 que o imperador D. Pedro II fez a sua conhecida visita à Escola Americana, agora em suas novas instalações. Ao visitar a classe dirigida por D. Adelaide Molina, indagou quanto à “doutrina” ali ensinada e ouviu como resposta: “O evangelho só”. Favorável a um ensino inteiramente leigo, o monarca opinou que nem mesmo a Bíblia devia achar-se nas escolas e que o ensino religioso deveria ser ministrado na lar e na igreja. A isso, o diretor respondeu: “A Bíblia tem estado aberta na Escola desde o primeiro dia de sua abertura e, quando fechar-se, fechar-se-ão as portas da Escola Americana”.[18]
A Escola Americana tinha também um modesto curso de teologia, ministrado pelo Rev. John Beatty Howell, que esteve por dez anos em São Paulo (1874-1884), auxiliando Chamberlain na igreja, lecionando na escola e preparando futuros ministros. Inicialmente, a escola tinha apenas um internato para meninas. Mais tarde, o casal Chamberlain adquiriu de D. Maria Antonia da Silva Ramos uma chácara no bairro de Higienópolis, na qual foi inaugurado em 1885 o internato masculino.[19] Nesse mesmo ano, passou a trabalhar na Escola Americana o homem que seria o implantador do Colégio Protestante, Horace Manley Lane.
2.2 Outras instituições
No mesmo ano em que Chamberlain passou a residir em São Paulo (1869), chegaram em Campinas os dois primeiros missionários da igreja do sul dos Estados Unidos – George Nash Morton e Edward Lane. Após fundarem a igreja presbiteriana local em 1870, os dois ministros igualmente entusiasmaram-se com a criação de uma escola, que veio a chamar-se Colégio Internacional, formalmente estabelecido em 1873. A curta história dessa instituição iria ilustrar o tipo de problemas que podiam resultar dessas iniciativas.
Inicialmente, o colégio teve um sucesso extraordinário, atraindo muitas crianças e adolescentes de ambos os sexos, estrangeiros e brasileiros, muitos destes últimos sendo membros de famílias influentes do interior de São Paulo. Ainda em 1872, haviam chegado para trabalhar na instituição as missionárias educadoras Arianna Henderson e Mary Videau Kirk. Todavia, George Morton, o dirigente da escola, embora fosse um notável educador, era um administrador pouco eficiente. Em poucos anos, o Colégio Internacional viu-se atolado em dívidas, devido a um ambicioso programa de ampliação das instalações e teve de restringir as suas atividades. Em 1880, Morton mudou-se para São Paulo e abriu um colégio particular, que logo enfrentou os mesmo problemas. Frustrado, o operoso missionário regressou para os Estados Unidos dois anos mais tarde.[20]
O Colégio Internacional continuou o seu trabalho em termos mais modestos e em 1882 recebeu o valioso concurso da grande educadora Charlotte Kemper (1837-1927). Em 1893, devido aos contínuos surtos de febre amarela que atingiam a região de Campinas, e que vitimaram o pioneiro Edward Lane, o colégio foi transferido para Lavras, Minas Gerais, sob a liderança de um novo missionário, Samuel Rhea Gammon, cujo nome mais tarde foi dado à instituição.[21] Curiosamente, divergências quanto ao lugar da educação no programa de missões levariam à divisão da Missão Sul (PCUS) em 1906. O principal motivo foi a criação da escola de agricultura em Lavras. Os dois grupos ficaram conhecidos como Missão Leste, sediada em Lavras, favorável à criação de escolas seculares, e Missão Oeste, sediada em Campinas, partidária da evangelização direta.[22]
Além do Colégio Internacional e do seu sucessor, o Instituto Gammon, os missionários da igreja do sul (PCUS) também criaram importantes instituições educacionais no nordeste. Em 1895, o Rev. William Calvin Porter e sua esposa Katherine Hall Porter fundaram em Natal o Colégio Americano, a primeira escola evangélica do norte do Brasil. Nesse colégio trabalharam, além de Katherine Porter, outras notáveis educadoras como Rebecca Morrisette, Elisa M. Reed e Katie Hall (mais tarde esposa do Rev. Alva Hardie). O colégio tornou-se a melhor escola da cidade, mas entrou em declínio por falta de apoio de Nashville, encerrando suas atividades em 1907. Em 1904, a missionária Elisa Reed havia sido transferida para o Recife, onde fundou o Colégio Americano de Pernambuco, hoje o Colégio Agnes Erskine, que visava preparar professoras para as escolas primárias evangélicas.[23]
Em Garanhuns, os missionários da Northern Brazil Mission criaram escolas que estavam mais diretamente ligadas às necessidades das igrejas e do trabalho evangelístico. Uma delas foi o Seminário do Norte, idealizado pelo Dr. George Butler, fundado por Martinho de Oliveira em 1899 e consolidado por George E. Henderlite. Em 1908, Henderlite, Jerônimo Gueiros, Cecília Rodrigues e Soriano Furtado fundaram o Colégio 15 de Novembro como um curso anexo ao seminário.[24]
Os missionários de Nova York foram muito ativos como educadores na Bahia, tanto na capital quanto no interior. Nesse aspecto, a principal iniciativa da Central Brazil Mission foi o Instituto Ponte Nova, a 350 km de Salvador, fundado por William Alfred Waddell em 1906. Eventualmente, surgiu naquele local um complexo que incluía uma fazenda, uma escola secundária e normal, um hospital e um curso de enfermagem.[25] Sob a liderança de Waddell, mais de quarenta escolas paroquiais foram criadas na Bahia e Sergipe, muitas delas servidas por professores formados em Ponte Nova. No sul do Brasil, além da Escola Americana e do Colégio Protestante de São Paulo, os missionários da PCUSA fundaram outras importantes instituições de ensino, como a Escola Americana de Curitiba (1891) e o Instituto Cristão de Castro (1914), este último iniciado pelo Rev. Harry Preston Midkiff.[26]
Em todas essas iniciativas, as missões queriam, por um lado, instruir a juventude brasileira, dando-lhe a oportunidade de progredir cultural e socialmente. As escolas destinavam-se prioritariamente a pessoas de origem evangélica, mas também estavam abertas a alunos de outras persuasões. Por outro lado, havia a intenção explícita de que as escolas apoiassem o trabalho religioso das missões e igrejas, educando os jovens em um ambiente cristão, dando aos alunos não evangélicos o conhecimento de Cristo e formando servidores da causa tais como evangelistas e professores. Às vezes, esses objetivos podiam entrar em conflito e em nenhum outro lugar isso aconteceu de modo tão intenso como no Colégio Protestante de São Paulo.
3. Os propósitos da Escola Americana
Desde o início, a Escola Americana, mais tarde também conhecida como Instituto de São Paulo, experimentou uma tensão entre interesses religiosos e seculares. A princípio, os estudantes, primeiramente meninas e depois crianças de ambos os sexos, eram procedentes de famílias protestantes, brasileiras e estrangeiras. Todavia, logo passaram a ser admitidos filhos de republicanos, abolicionistas e até mesmo positivistas, que também estavam sendo submetidos a constrangimentos nas escolas públicas. É o próprio Chamberlain quem observa:
O fato de as filhas de muitos pais brasileiros, não evangélicos, pertencentes às correntes republicanas e abolicionistas, também sofrendo perseguições nas escolas públicas, buscarem refúgio junto à Srª. Chamberlain, aconselha-nos agora a recebê-las, e a seus irmãos varões, quando se organiza esta nova escola.[27]
Embora entre os pais dos alunos não se encontrassem nomes tão ilustres como no caso do Colégio Internacional de Campinas, havia indivíduos ligados à nobreza imperial, bem como bacharéis da Academia de Direito. Eventualmente, a escola também passou a contar com professores não protestantes, como o jornalista Rangel Pestana e o poeta Teófilo Dias. Além disso, o próprio nome “Escola Americana” foi sugerido por um conhecido liberal e amigo dos protestantes, José Carlos Rodrigues.[28] Entre os homens ilustres que fizeram donativos para custear os estudos de alunos carentes estavam, além de Rangel Pestana, Bernardino de Campos, Prudente de Morais e Campos Sales.[29]
No que concerne à religião, a filosofia da escola era a de que, em respeito à liberdade de consciência, não se faria qualquer proselitismo direto. A escola era nitidamente cristã e evangélica, mas as convicções religiosas dos alunos não evangélicos seriam respeitadas. A Bíblia ocuparia um lugar de destaque e também a transmissões dos valores éticos do protestantismo. Mais uma vez, Chamberlain pondera:
A escola ministraria, antes de mais nada, educação evangélica nos moldes dos mais sagrados princípios da moral cristã e protestante; e, dentro desse conceito, ficava excluído todo o elemento de propaganda religiosa na escola e limitada sua função às questões de moralidade ética, baseadas no ensino de Cristo.[30]
Apesar de ser um dos mais ardorosos evangelistas dos primórdios do presbiterianismo no Brasil, Chamberlain também achava necessário influenciar as novas gerações através da educação. Seus colegas, todavia, desde o princípio tiveram reservas quanto a essa preocupação. Tanto a Junta de Nova York quanto o Presbitério do Rio de Janeiro desejavam que a nova escola atendesse prioritariamente aos interesses da igreja e da obra missionária, formando pastores, evangelistas e professores para as escolas paroquiais.
O próprio Chamberlain, nos contatos que fazia no exterior a fim de obter recursos para ampliar a nova escola, destacava esse aspecto dos seus objetivos. Em fevereiro de 1875, ele Howell e Alexander L. Blackford[31] assinaram um apelo ao presbiterianismo internacional quanto à importância de uma “instituição literária para a educação de um ministério nacional para o Brasil.[32] No mesmo ano, em seu relatório ministerial ao Presbitério do Rio de Janeiro, Chamberlain escreveu: “Já chegou o tempo de realizar o plano por vós, irmãos do Presbitério, concebido há cinco anos, de plantar na cidade de São Paulo um Instituto Literário e Escola Normal para preparar pregadores e mestres de escola”.[33] No final de 1876, noticiando o retorno de Chamberlain de uma viagem ao exterior com o objetivo de angariar fundos, o jornal Imprensa Evangélica observa: “Nos Estados Unidos ele conseguiu arranjar meios entre os amigos do Evangelho para a edificação de um seminário evangélico na cidade de São Paulo”.[34]
O fato é que se passaram muitos anos e esse plano não foi cumprido. Em 1885, A Escola Americana continuava com o curso primário, o curso secundário e o jardim da infância, mas o Curso Normal e o Instituto Teológico não haviam sido implantados. O que havia era somente uma “classe teológica” ou “escola de treinamento” (Training School), de nível secundário, na qual haviam lecionado Howell e Chamberlain.[35] Foi então que entrou em cena o personagem que haveria de influenciar decisivamente o caráter e os rumos da instituição.
4. De Escola Americana a Colégio Protestante
No que diz respeito ao binômio evangelização-educação, Chamberlain era ardoroso partidário de ambos os elementos. Esse missionário ficou conhecido na história da Igreja Presbiteriana do Brasil como um dos seus mais dedicados evangelistas, um homem que, além de pastorear a Igreja de São Paulo, visitava os bairros da capital e viajava incansavelmente pelo litoral e pelo interior da província, pregando a mensagem cristã. Mais tarde, ele faria o mesmo na Bahia, tanto em Salvador quanto em outras regiões. Ao mesmo tempo, Chamberlain achava que uma escola de alto nível, nos moldes das melhores instituições norte-americanas, poderia fazer muito não só pela educação, mas pela implantação do verdadeiro cristianismo no Brasil. Sendo primariamente um pregador, Chamberlain precisava urgentemente de alguém que assumisse a direção da Escola Americana, que crescia a olhos vistos. Foi então que lhe veio à mente o nome de Horace M. Lane.[36]
4.1 Horace M. Lane
Nascido em Readfield, Maine, em 1837, Lane chegara pela primeira vez ao Brasil ainda bem jovem, no início de 1859, tendo trabalhado como professor no Colégio João Kopke, no Rio de Janeiro, e mais tarde em São Paulo. Foi companheiro de viagem do Rev. Simonton em 1863, quando este retornava ao Brasil logo após haver se casado. Lane também dedicou-se ao comércio, no Rio e em Ouro Preto, onde introduziu a iluminação a querosene. Mais tarde, regressou aos Estados Unidos com a esposa, Ellen M. Williams, e dois filhos, e formou-se em medicina, passando a clinicar numa pequena cidade do Estado de Missouri. O casal teve três outros filhos e Ellen veio a falecer em 1879.[37]
Chamberlain havia conhecido Lane logo que chegara ao Brasil, em meados de 1862. Agora, em fins de 1884, conhecendo as suas grandes qualidades como educador, convidou-o para dirigir a Escola Americana. Havia, porém, um sério entrave. Lane não era presbiteriano e aparentemente não estava filiado a nenhuma igreja. Assim sendo, logo que chegou a São Paulo, foi examinado pelo conselho da Igreja Presbiteriana e dois dias depois, em 26 de agosto de 1885, fez a sua profissão de fé e foi batizado pelo Rev. Alexander L. Blackford, que achava-se a caminho da reunião do presbitério, em Sorocaba.[38]
No segundo semestre de 1885, a escola já funcionou com sua presença e direção. Em março do ano seguinte, Lane foi buscar quatro dos seus filhos nos Estados Unidos, retornando ao Brasil em outubro. Ribeiro observa que ele “embarcou para sempre. Suas outras viagens fora do Brasil foram ocasionais, para tratar de interesses da Escola, ou para férias. Veio aqui para viver, trabalhar, e morrer”.[39] Pouco depois, ele seria formalmente nomeado como missionário pela Junta de Nova York.
Logo, começaram a surgir os sinais da nova administração, como catálogos do “Instituto de São Paulo” e anúncios na imprensa. Os objetivos originais de formação de pastores e professores para a igreja continuavam existindo – o curso teológico, antes dirigido por Howell, agora estava a cargo de um novo missionário, Donald Campbell MacLaren. Porém, o Instituto de São Paulo em 1885 era uma instituição muito mais complexa do que a pequena Escola Americana de 1870. E essa complexidade se tornaria ainda maior sob a direção de Horace Lane. Ribeiro observa:
De agora em diante, Horace Lane vai lentamente assumir a liderança do trabalho educacional da Missão e a liderança da própria Missão. Seus planos escolares ocuparão, nos próximos anos, mais páginas de Atas que os relatórios e planos evangelísticos de todos os outros missionários; sua personalidade se voltará inflexivelmente para a introdução, na sociedade brasileira, da filosofia educacional, métodos, organização e escopo da escola norte-americana – em todos os níveis, do Jardim de Infância à Universidade... Houve um preço, e não foi pequeno.[40]
No ano de 1888 verificaram-se dois importantes acontecimentos que trariam profundas conseqüências para a Igreja Presbiteriana do Brasil e para a escola missionária de São Paulo. O primeiro deles foi a criação do Sínodo do Brasil, ocorrida em 6 de setembro. Até então, o presbiterianismo brasileiro era constituído apenas de presbitérios: o antigo Presbitério do Rio de Janeiro, fundado em 1865 por missionários da Igreja do Norte, e dois presbitérios recentes, fundados por missionários da Igreja do Sul: o de Campinas e Oeste de Minas, criado em 1887, e o de Pernambuco, criado em 1888, todos ligados às igrejas-mães. Agora, com a formação do Sínodo, a Igreja Presbiteriana do Brasil alcançava a sua autonomia eclesiástica.[41]
O Sínodo teve como primeiro moderador o veterano Alexander L. Blackford, que não via com bons olhos os rumos tomados pelo Instituto de São Paulo. Sob sua liderança, foram tomadas algumas importantes decisões: por um lado, solicitar às igrejas-mães um apoio decidido ao trabalho religioso, através do envio de novos missionários-evangelistas e da formação de pastores nacionais; por outro lado, criar um seminário para a formação desses pastores. Esse seminário deveria funcionar no Rio de Janeiro, tendo como professores os Revs. John Rockwell Smith, da Igreja do Sul, e o próprio Blackford, da Igreja do Norte.[42] Esse foi o germe de um conflito que iria estender-se por quase toda a década de 1890.
A Junta de Nova York esperava que o seminário viesse a ser uma das faculdades do futuro “college”, e por isso enviou MacLaren para ensinar teologia, em 1885. O Sínodo decidiu criar o seu próprio seminário, em outra cidade, e elegeu outros professores.[43] Manifestou-se assim uma dupla polarização, nacional e eclesiástica: de um lado estavam a Junta e os missionários do norte; do outro lado, o Sínodo, os missionários do sul e dois dissidentes do norte, John M. Kyle e Alexander L. Blackford.
O outro acontecimento importante de 1888, poucas semanas antes da criação do Sínodo, foi a eleição do primeiro pastor nacional da Igreja Presbiteriana de São Paulo – Eduardo Carlos Pereira (1855-1923). Ordenado em 1881, Pereira havia passado vários anos em Campanha, Minas Gerais, onde começou a destacar-se como um líder influente e o articulador de um projeto de nacionalização para a Igreja Presbiteriana. Dentre as suas primeiras iniciativas estavam a Sociedade Brasileira de Tratados Evangélicos (1883), o Plano de Missões Nacionais (1886) e a Revista de Missões Nacionais (1887).[44] Por uma grande ironia, quando Pereira foi eleito pastor da Igreja de São Paulo, o Dr. Horace Lane, membro daquela igreja, propôs que a sua eleição fosse considerada unânime.[45]
Enquanto isso, o Dr. Lane ia imprimindo a sua marca sobre a Escola Americana ou Instituto de São Paulo. Grande educador e administrador, e profundo conhecedor do Brasil, providenciou a formação de professores, o preparo de compêndios para as diferentes disciplinas e a adaptação dos métodos à realidade brasileira. Também obteve garantias legais para a instituição e aperfeiçoou as suas acomodações. Com o advento da república, a pedagoga Marcia P. Brown e quatro professoras treinadas por ela e pelo Dr. Lane serviram o Estado de São Paulo na reforma do seu sistema educacional, mediante lei especial.[46]
4.2 O Colégio Protestante
Há vários anos, Chamberlain havia planejado a criação de um curso superior como parte do Instituto de São Paulo. Este plano pode concretizar-se com o apoio da Junta de Nova York e a liderança de Horace Lane. Quando o Sínodo foi organizado, a Igreja do Norte enviou dois representantes, os Revs. J. Aspinwall Hodge e Charles E. Knox. Estes, ao apresentarem o seu relatório à Assembléia Geral da sua igreja, afirmaram que o Sínodo havia considerado a ampliação das instituições educacionais, “especialmente a criação de um colégio para o treinamento de jovens para a vida profissional”.[47] Os referidos delegados concluíram o seu relatório fazendo, entre outras, a seguinte recomendação:
Que a Assembléia Geral recomende aos membros liberais de nossas igrejas a imediata dotação de um colégio verdadeiramente cristão em São Paulo, Brasil, semelhante ao Colégio Robert, em Constantinopla, e ao Colégio Protestante Sírio, em Beirute, como uma medida necessária para o progresso de nossas missões naquele império”.
A Assembléia Geral aprovou a recomendação, e Chamberlain, que encontrava-se de licença nos Estados Unidos, foi autorizado pela Junta de Missões Estrangeiras a levantar os recursos necessários para o funcionamento da nova instituição.[48] Em novembro de 1889, foi formada uma Junta de Curadores ligada à igreja norte-americana, tendo à frente os citados Revs. Hodge e Knox, bem como o Rev. George Alexander e outros quatro integrantes. Consultado a respeito do aspecto jurídico, Rui Barbosa recomendou a organização da corporação nos Estados Unidos. De conformidade com esse parecer, a Junta de Curadores solicitou incorporação à Universidade do Estado de Nova York, que foi eventualmente concedida.[49]
Em 1890, a Junta de Curadores publicou um panfleto intitulado “Um Colégio Cristão Brasileiro”, solicitando contribuições para a nova escola. Contendo um mapa do Estado de São Paulo, o decreto de liberdade religiosa emitido pelo governo republicano (07-01-1890) e declarações elogiosas ao Brasil feitas pelo eminente cientista Louis Agassiz e pelo jornal New York Times, o texto afirma a necessidade de um colégio cristão, “para que o vasto território agora colocado sob a forma benéfica do governo republicano possa ter seu bem-estar público assegurado por princípios cristãos”. Adiante, os curadores afirmam: “Que [o Colégio] seja organizado de acordo com um plano prático, com dotação adequada, e ele irá remodelar a nação... Uma Universidade Cristã inteiramente equipada, plantada naquele centro [São Paulo], contribuiria mais do que qualquer outra coisa para moldar o caráter da vigorosa nacionalidade que está se formando”.[50]
Enquanto o Colégio Protestante era constituído, novos desdobramentos na vida da igreja contribuíram para criar um clima de crescente afastamento entre alguns líderes brasileiros e os missionários ligados à escola. Quando o Sínodo reuniu-se pela segunda vez, em 1891, o pretendido seminário ainda não havia sido criado.[51] Em parte isso se devia à falta de apoio da Junta de Nova York, que entendia estar o Colégio perfeitamente aparelhado para formar os futuros pastores. Em lugar do Rev. Blackford, falecido no ano anterior, o Sínodo elegeu como professor do Seminário o Rev. Thomas Jackson Porter, que havia chegado ao Brasil em 1890. Propositalmente, foi preterido outro missionário que também havia chegado no ano anterior, para lecionar no curso teológico do Colégio Protestante em substituição a Donald MacLaren, que havia regressado aos Estados Unidos por motivos de saúde. Esse novo missionário, um homem que teria enorme influência na história do Colégio Protestante, era William Alfred Waddell.[52] Ao mesmo tempo, o Sínodo elegeu como primeiro professor nacional do seminário o Rev. Eduardo Carlos Pereira, num claro reconhecimento da sua capacidade e crescente prestígio.
O fator que agravou de modo especial o relacionamento entre a Igreja Presbiteriana e o Colégio Protestante foi o surgimento de uma questão pessoal envolvendo o Rev. Pereira e o Dr. Lane. Como foi visto, Lane era membro da igreja de Pereira e as relações entre ambos haviam sido cordiais por alguns anos. Todavia, em 1891, Pereira teria comentado que considerava “um desastre” a nomeação de Lane como presidente do “College”, alegando que lhe faltavam “hábitos de piedade”.[53] Isso era uma referência ao fato de que só em 1885, aos quarenta e oito anos de idade, Lane havia feito a sua profissão de fé e ingressado na Igreja Presbiteriana. Pereira esperava que o Colégio Protestante pudesse ajudar a igreja treinando adequadamente os seus ministros e evangelizando a mocidade brasileira, mas via Lane como o menos capacitado para ambos os fins.
Lane havia contribuído para essa atitude ao transgredir alguns valores importantes da jovem igreja presbiteriana brasileira. Os missionários haviam transmitido às igrejas uma forte valorização de certas práticas, como a guarda criteriosa do dia do Senhor e a participação regular do sacramento da Ceia. Lane, embora inatacável em sua integridade pessoal, ofendia as sensibilidades ao ser visto em bondes e cafés em dias de domingo e ao ausentar-se das celebrações mensais da comunhão.[54] Quanto a esta alegação, defendia-se dizendo que, sendo um médico, muitas vezes era solicitado a dar assistência a enfermos no domingo, não podendo comparecer aos cultos.
Em 1892, a sessão da igreja fez uma admoestação formal a Lane. Em agosto, o Presbitério de São Paulo, dirigido por Thomas J. Porter e William A. Waddell, decidiu eliminar a admoestação da ata da sessão porque Lane não havia sido citado para defender-se. Nesse ínterim, um outro missionário havia entrado em conflito com a Igreja de São Paulo e o seu enérgico pastor. Tratava-se do Rev. Emmanuel Vanorden, um judeu holandês que possuía uma tipografia e livraria evangélica na cidade.[55] Afastado da igreja de Pereira, onde fora colaborador, Vanorden iniciou uma pequena igreja no bairro da Bela Vista e, solidarizando-se com os colegas do Colégio Protestante, passou a fazer críticas a Pereira através de periódicos. A recusa do presbitério em disciplinar Vanorden provocou intensos protestos na igreja de Pereira. Líderes dessa igreja e outros pastores brasileiros assinaram um manifesto e escreveram à Junta de Nova York alegando que a permanência de Lane e Waddell seria desastrosa para o Colégio e para a evangelização do Brasil.[56]
Em dezembro de 1892, Lane demitiu do Colégio Protestante o professor Remígio de Cerqueira Leite, ardoroso partidário de Pereira e membro da sua igreja. D. Adelaide Molina, uma das primeiras professoras da Escola Americana, o acompanhou. Em setembro de 1893, após uma ausência de mais de um ano aos cultos e à Ceia, Lane foi suspenso da comunhão pela sessão da igreja. A Junta de Nova York e o curadores do Colégio ficaram indiferentes e Lane filiou-se a uma igreja nos Estados Unidos.[57] Estava, pois, desligado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Pouco depois, em 18 de outubro de 1893, foi organizada, mediante autorização do presbitério, a 2ª Igreja Presbiteriana de São Paulo, liderada pelos Revs. William Waddell e Frederick J. Perkins, tendo entre os seus membros familiares de missionários e professoras da Escola Americana, ou seja, pessoas que já não se sentiam bem na 1ª Igreja por causa dos conflitos surgidos.[58] No ano seguinte, essa igreja passou a ser pastoreada pelo Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa (†1917), natural da Ilha da Madeira, que por muitos anos foi professor da Escola Americana e do Colégio Protestante, e era grande amigo dos missionários.
Enquanto se desenrolavam esses acontecimentos, as duas instituições, uma da Junta de Nova York (o Colégio) e outra do Sínodo da Igreja Presbiteriana do Brasil (o Seminário), consolidavam as suas posições. O Colégio Protestante ou Universidade Cristã, organizado em 1891 e colocado sob a direção de Horace Lane, recebeu seus primeiros alunos no ano seguinte. Ao mesmo tempo em que Chamberlain e Mary Ann doavam à nova escola a sua chácara da Consolação, a instituição recebeu de um advogado de Nova York uma doação que possibilitou a construção do primeiro edifício e a adoção de um novo nome. O advogado chamava-se John Theron Mackenzie e a doação, feita por ele e duas irmãs, totalizou 50 mil dólares.[59] Em 16 de novembro de 1893 deu-se início às obras de edificação, supervisionadas pelo Dr. Waddell, que além de pastor era também engenheiro. No ano seguinte o edifício foi concluído, sendo lançada a pedra angular, onde se lê: “Mackenzie College – Anno Domini 1894 – Às Sciencias Divinas e Humanas”. O nome Mackenzie, inicialmente dado ao edifício da Escola de Engenharia, foi logo aplicado pelos estudantes a toda a obra educacional da missão em São Paulo, sendo eventualmente oficializado pela Junta de Nova York.
Quanto ao Seminário Presbiteriano, o Sínodo de 1892 decidiu instalá-lo em Campinas, nas dependências do Colégio Internacional. Com o surgimento da febre amarela naquela cidade, optou-se por Botucatu e depois por Nova Friburgo, onde as aulas tiveram início em 15 de novembro daquele ano, o mesmo em que o Colégio Protestante recebeu os primeiros alunos. Os primeiros professores do seminário sinodal foram os Revs. John R. Smith, que veio de Pernambuco, John M. Kyle, pastor da igreja de Friburgo, e João Gaspar Meyer, ministro luterano.[60] Curiosamente, faziam parte da sua diretoria alguns homens ligados ao Colégio Protestante, como Chamberlain e Carvalhosa.
4.3 A crise de 1892-1903
Em meio a esses acontecimentos, Pereira dava continuidade ao seu projeto nacionalista para a igreja e batia-se pela instalação do seminário em São Paulo, porém desvinculado do Colégio Protestante. Nos últimos dias de 1892, ele e alguns amigos lançaram na Revista de Missões Nacionais o seu “Plano de Ação”, que criava um novo periódico para a igreja, O Estandarte, e um seminário alternativo denominado Instituto Teológico, cujas aulas tiveram início em fevereiro seguinte, nas dependências da 1ª Igreja.[61] O Sínodo de 1894 determinou a transferência temporária do seminário para São Paulo, até que pudesse ir para Campinas, e em fevereiro de 1895 a transferência foi feita e o seminário uniu-se ao Instituto Teológico. Em meados de 1896, fracassadas os entendimentos com o Comitê de Nashville com vistas à transferência da propriedade de Campinas para o Sínodo, O Estandarte iniciou uma campanha pela construção do edifício do seminário em São Paulo.[62]
O segundo semestre de 1896 foi um período de crescente radicalização das posições, em que os concílios brasileiros reiteraram seus protestos contra o Mackenzie College e seus líderes, que já não gozavam da confiança e simpatia da igreja nacional, e alertavam as juntas norte-americanas quanto ao risco de um “divórcio entre nós e vós”.[63] Ao mesmo tempo, novamente solicitavam o apoio das juntas para o seminário do Sínodo. Por sua vez, as organizações missionárias responderam alegando que o seminário era fruto de rivalidade com o Mackenzie, de um nacionalismo extremado e do espírito faccioso e das ambições pessoais do Rev. Eduardo Carlos Pereira. Ao mesmo tempo, a Junta de Nova York reafirmava o seu pleno apoio aos líderes do Mackenzie.
Essa crescente rivalidade entre elementos brasileiros e americanos tem relação com a que os historiadores identificaram como a “questão missionária”, apontada como uma das causas da divisão da Igreja Presbiteriana do Brasil em 1903.[64] À parte as questões pessoais, o que havia por trás desses problemas era o desejo da igreja brasileira de alcançar a sua plena emancipação e autodeterminação, libertando-se da tutela das igrejas-mães, e a relutância dos missionários e das juntas norte-americanas em abrir mão de suas prerrogativas, a sua insensibilidade diante dos reclamos da jovem igreja nacional, a sua falta de confiança de que os brasileiros pudessem gerir a si mesmos e às instituições criadas pelos norte-americanos.[65] Além disso, o fato de os missionários terem uma dupla filiação – nos concílios da igreja brasileira e nas missões a que pertenciam – gerava insuperáveis conflitos de lealdade.
Ao lado da questão missionária, manifestou-se de modo patente na década de 1890 a “questão educacional”, ou seja, a percepção de que havia um conflito entre duas prioridades: evangelização e educação. A igreja brasileira, que lutava com tantas dificuldades para consolidar o seu trabalho, sentia que uma parcela ponderável dos recursos humanos e financeiros vindos do exterior estavam sendo aplicados em atividades e instituições que pareciam pouco beneficiar a igreja e contribuir para os seus principais objetivos. Essa preocupação foi explicitada na quarta reunião do Sínodo, em 1897, através da famosa “Moção Smith”, apresentada pelo primeiro professor do seminário, John Rockwell Smith, missionário da Igreja do Sul. O texto afirmava o seguinte:
Considerando a grande necessidade de evangelização em todo o território do nosso Sínodo e os muitos campos abertos que não podemos suprir com os meios da graça;
Considerando as quantias avultadas despendidas nos grandes colégios, internatos, etc., como meios de propaganda;
Considerando o quase completo malogro de tais instituições, entre nós, quer como meio de propagação da fé, quer como de preparação de um ministério evangélico;
Considerando as contendas e amarguras que têm sempre resultado de tais institutos, tirando-nos às vezes o franco apoio e simpatia dos nossos irmãos na América do Norte;
Nós, o Sínodo do Brasil, respeitosamente, recomendamos e rogamos às Assembléias das nossas Igrejas-Mães que o auxílio que quiserem prestar-nos seja no sentido de ajudar-nos no grande trabalho de evangelização pelos métodos mais diretos, incluindo o trabalho da educação e preparação de um ministério conforme os planos do Sínodo, e no sustento de escolas paroquiais para os filhos dos crentes.[66]
Entre os signatários estavam muitos ministros nacionais (como Álvaro Reis, Antonio Trajano, Belmiro de Araújo César, Bento Ferraz, Eduardo Carlos Pereira, Herculano Gouvêa, Lino da Costa, Zacarias de Miranda), alguns missionários do sul (além de Smith, George Henderlite, William Calvin Porter e Horace Allyn) e apenas um missionário do norte (John M. Kyle). Chamberlain e outros missionários da Igreja do Norte, alguns deles ligados aos grandes colégios, apresentaram um protesto contra a moção, que dizia a certa altura: “Não podemos concordar no parecer de que tais institutos não concorrem direta e poderosamente para a propagação da fé e preparação de um ministério evangélico”.[67] Os signatários do protesto lembraram que em 1891 o Sínodo havia agradecido aos curadores do Colégio Protestante o seu interesse na educação superior e fizera votos de que a resolução de criar um curso superior se tornasse em breve uma realidade, visto que esse projeto seria “uma força potente na evangelização deste país”.[68] Mas o fato é que, com foi visto acima, muita coisa havia acontecido entre 1891 e 1897.
A “Moção Smith” foi a última vitória de Eduardo Carlos Pereira no sentido de implementar o seu projeto para a Igreja Presbiteriana do Brasil. Ele, que até então contara com o apoio da maior parte dos seus colegas brasileiros, passou a perder esse apoio, porque suas posições passaram a ser vistas como excessivamente radicais e intransigentes. Em 1896, a diretoria do seminário havia decidido criar um curso preparatório para os aspirantes ao ministério. Pereira, acompanhado de seu amigo Remígio C. Leite, começou a insistir na criação de uma escola secundária completa, só para filhos de evangélicos, ligada ao seminário. Foi a nova bandeira que passou a defender e que encontrou expressão no lema “a educação dos filhos da igreja, pela igreja e para a igreja”.[69] A idéia era que, dentre os alunos desse planejado colégio, alguns seguiriam a carreira ministerial, outros se tornariam professores de escolas paroquiais e os demais, ainda que seguissem carreiras seculares, levariam consigo, “não as influências más de um colégio irreligioso ou suspeito, mas o estímulo poderoso dos bons exemplos e os conselhos íntimos da fé não abalada”.[70] Seus colegas da diretoria do seminário, especialmente Álvaro Reis, o novo pastor da Igreja do Rio de Janeiro, opuseram-se a tal idéia. Queriam que a igreja brasileira preparasse os seus próprios ministros, mas reconheciam a utilidade do Mackenzie em outras áreas.
Em julho de 1899, surgiu um abaixo-assinado solicitando a organização de uma terceira igreja presbiteriana em São Paulo, que ficou conhecida como Igreja Filadelfa.[71] Pereira sentiu-se ofendido, retirou o seu filho do seminário e renunciou à cadeira que ocupava no mesmo, sendo acompanhado por seu amigo Remígio.[72] A 1ª Igreja, reunida em assembléia, solidarizou-se com o seu pastor e a sessão resolveu reter as ofertas destinadas a missões e ao seminário. Esses fatos foram especialmente lamentáveis porque a 1ª Igreja havia lançado e liderado a campanha pela construção do edifício do seminário. No ano anterior, fora adquirido o terreno, por ironia bem próximo ao Mackenzie, na Rua Maranhão, e lançada festivamente a pedra fundamental. Agora, em setembro de 1899, quando as aulas foram iniciadas no novo edifício, não houve inauguração solene e ninguém da 1ª Igreja compareceu.
A criação da Igreja Filadelfa estava ligada a uma terceira questão, além da missionária e da educativa, a “questão maçônica”. Em dezembro de 1898, o Dr. Nicolau Soares do Couto, um ex-membro da igreja de Pereira que agora residia no Rio de Janeiro, começou a publicar uma série de artigos sobre a maçonaria em O Estandarte. Os artigos provocaram um vigoroso debate e o Sínodo, reunido em 1900, deliberou que a filiação ou não à maçonaria era uma questão de consciência individual. No ano seguinte, Pereira abraçou essa causa de modo mais direto, alegando através do seu jornal a incompatibilidade entre a maçonaria e a igreja. Pouco depois, ele e seus simpatizantes começaram a divulgar uma plataforma com cinco tópicos sobre as questões missionária, educativa e maçônica, gerando intensa discussão nos presbitérios. A controvérsia chegou ao seu temido desfecho na reunião do Sínodo em julho de 1903. Ao ver sua posição rejeitada pela maior parte do plenário, o grupo de Pereira desligou-se do Sínodo e criou uma nova denominação evangélica, a Igreja Presbiterina Independente.[73]
4.4 A trajetória do Mackenzie
Com o passar dos anos, o Mackenzie ao mesmo tempo fortaleceu a sua estrutura interna e afastou-se progressivamente da Igreja Presbiteriana do Brasil. Em 1895, tanto a Escola Americana de São Paulo quanto as escolas missionárias de Salvador, Laranjeiras (SE) e Curitiba foram colocadas sob a administração e supervisão do Mackenzie College. As razões alegadas foram maior economia e eficiência, bem como o desejo de afastar dessas escolas “a perigosa influência das discussões eclesiásticas”.[74] O passo seguinte visando emancipar as escolas de qualquer possível controle seja pelo Sínodo ou pela Missão foi deixar o Mackenzie inteiramente nas mãos da sua diretoria, o que ocorreu em 1900. Todos os missionários que trabalhavam no Mackenzie passaram a ser contratados diretamente pela diretoria, sendo automaticamente colocados na condição de inativos no rol da Missão. A Junta de Nova York continuou a remeter fundos para o Colégio. Em geral, isso era feito diretamente à escola, embora a Missão geralmente fosse consultada sobre o assunto.[75]
No externato misto da rua de São João continuavam a funcionar os cursos primário, intermediário e secundário. O curso superior, sediado no Higienópolis, oferecia bacharelados em letras, ciências e engenharia civil, sendo os graus conferidos pelos regentes da Universidade de Nova York. Em 1900 formaram-se os dois primeiros engenheiros e em 1902, mais quatro. Nesse último ano começou a funcionar o Curso Comercial Prático. Em 1897, o Mackenzie tinha, em todos os seus departamentos, 528 alunos, 60 dos quais no curso superior, e as escolas filiais contavam com mais de 400 estudantes.
O Mackenzie College secularizou-se progressivamente. O ensino era de excelente qualidade e a escola gozava do mais alto prestígio, mas os propósitos originais dos seus fundadores, no sentido de que a instituição tivesse uma orientação nitidamente cristã e evangélica, eram difíceis de ser mantidos. Nos seus escritos, ao longo dos anos, Horace Lane insistiu no caráter religioso da escola. Em junho de 1898, ele lançou uma publicação denominada The Brazilian Bulletin – Organ of Mackenzie College. No primeiro número, Lane diz que o propósito do boletim é chamar atenção para o Brasil e o seu povo e despertar o interesse pelo sistema de educação americana, com fundamento cristão, que está sendo experimentado em São Paulo. Mais além, ele observa que esse sistema leva em consideração o indivíduo integral, treinando a mente, o coração e a consciência para o desenvolvimento do caráter, um caráter cristão, e que as Escrituras Sagradas, como fundamento da educação, fornecem a única base ética sobre a qual se pode organizar a sociedade com segurança.[76] Em outro trecho, citado por Ribeiro, Lane afirma:
Não é o objetivo principal nem primário das escolas ensinar religião, i.e., ensinar credos. Considerada em sua relação com os cursos escolares, a instrução religiosa é um meio para o desenvolvimento do caráter e para dar-se fundamento seguro ao treinamento moral; mas em relação com o aluno, é um fim absoluto; deve dar-lhe, de modo que ele as compreenda, as verdades salvadoras do cristianismo.[77]
Boanerges Ribeiro observa: “Não sei se isto tem qualquer sentido. Mas se tiver, está oferecendo uma solução apenas cerebrina ao relacionamento da criança com Deus; e quer “as verdades salvadoras” desencarnadas de qualquer credo (e, pois, de todas as igrejas?)”.
São particularmente interessantes os relatórios anuais que Lane enviava aos curadores do colégio em Nova York. As ligações com a Junta de Nova York, que enviava recursos para a escola, tornam recomendável que se fale dos propósitos religiosos da instituição. Diz ele:
Em uma instituição como a nossa, que recebe auxílio da Junta de Missões Estrangeiras e das igrejas, é necessário ter sempre em mente a sua origem e caráter missionários. A essência e o efeito final do trabalho deve ser aproximar as pessoas do Evangelho de Cristo, no conhecimento e na vida. Se o nosso trabalho, em algum grau, não leva a isto e não tem esse propósito claramente impresso sobre o mesmo, torna-se falho. Os princípios do cristianismo protestante devem estar na base de todos os seus programas e afetar todos os seus métodos de trabalho.[78]
Nove anos mais tarde, em outro relatório, Lane sente-se na necessidade de afirmar a continuidade do caráter missionário da instituição que dirige. Ele fala da pressão para concentrar-se no lado puramente material e utilitário do trabalho, e acrescenta:
Para neutralizar isso, nos esforçamos para ter sempre diante de nós o fato de que a única razão da nossa existência neste lugar é essencialmente como um empreendimento missionário, cujo trabalho principal é educar a juventude do país em um conceito mais elevado e mais puro do cristianismo, no pensamento e na vida. Todavia, devemos utilizar métodos educacionais antes que os de um evangelista pregador. Apegando-nos firmemente aos grandes princípios do cristianismo, devemos fazer nosso trabalho sem inculcar esse ou aquele sistema de teologia ou fé sectária, mantendo-nos afastados de todos os enredamentos eclesiásticos, evitando uma linguagem piedosa e pretensão de santidade indevida, mas avançando de maneira clara e explícita quanto ao fim em vista, dependendo da Palavra de Deus não diluída como fonte das verdades espirituais básicas, antes que dos comentários dos pregadores, tendo também em mente o progresso dos métodos educacionais e das ciências pedagógicas.[79]
Na parte final do relatório, ao argumentar sobre a contínua necessidade de auxílio financeiro por parte da Junta de Nova York, Lane comenta: “Nós somos uma instituição missionária e sentimos que as nossas pretensões em relação às igrejas são tão fortes quanto as do missionário evangelista”.[80] O fato é que, como Pierson observa, por causa da controvérsia que cercou o Colégio Protestante e por causa da incapacidade de Lane em ver a diferença entre o evangelho e a cultura “cristã” norte-americana que a escola procurava incorporar, o Mackenzie perdeu quase inteiramente o contato com a igreja e preparou bem poucos de seus líderes.[81] O mesmo autor conclui:
As escolas protestantes deram notáveis contribuições aos seus alunos, às regiões em que se encontravam e à pedagogia do Brasil. Porém, seu impacto no crescimento da igreja geralmente foi decepcionante. Isso foi especialmente verdadeiro em relação ao Instituto Mackenzie. Aqueles que estudaram nas escolas missionárias muitas vezes sentiram-se atraídos pelas idéias liberais norte-americanas e freqüentemente mostraram-se simpáticos ao protestantismo, mas relativamente poucos tornaram-se membros de igrejas evangélicas.[82]
4.5 História posterior
Horace Lane faleceu em 26 de outubro de 1912, sendo sucedido na presidência do Mackenzie por Donald Campbell MacLaren, que ficou à frente da instituição por pouco mais de um ano. Em março de 1914, assumiu a presidência o líder que já estivera ligado ao Mackenzie desde 1890, quando chegara ao Brasil, William Alfred Waddell, cuja profícua administração estendeu-se até 1927. Sua mais notável contribuição foi obter a equiparação da Escola de Engenharia aos estabelecimentos federais, mediante uma lei aprovada pelo Congresso Nacional em 19 de janeiro de 1923. Em outubro do mesmo ano, foi criado o Conselho do Mackenzie College, o ponto de partida para a nacionalização da entidade. Esse conselho, que teve Erasmo Braga e João Pandiá Calógeras como seus primeiros presidentes, iria administrar os negócios do Mackenzie por delegação da Junta de Curadores.
Waddell foi sucedido pelo Dr. Charles T. Stewart, genro de Eduardo Carlos Pereira.[83] Benedicto Garcez observa que ele teve a mais agitada das administrações do Mackenzie devido à situação política do país e à quebra da Bolsa de Nova York, que muito afetou a economia brasileira.[84] O governo revolucionário de Vargas negou reconhecimento aos diplomas da Escola de Engenharia através de um decreto de junho de 1932.[85] Stewart renunciou à presidência do College e retornou aos Estados Unidos. Somente em junho de 1938 o governo reconheceu a Escola de Engenharia, depois da completa reorganização do Mackenzie em consonância com as leis brasileiras.
Após breve interregno de um ano, no qual Waddell novamente assumiu a presidência, passou a dirigir o Mackenzie, em princípios de 1934, o Dr. Benjamin Hunnicutt, que havia trabalhado na Escola de Agricultura de Lavras. Em 1940, durante a sua administração, foi organizada a Sociedade Civil Instituto Mackenzie, para substituir o Conselho do Mackenzie College. Todavia, seus estatutos somente foram aprovados em 1949. No final da década de 40 também foram criadas três novas faculdades: Arquitetura (1947), Filosofia, Ciências e Letras (1949) e Ciências Econômicas (1950). Em dezembro de 1951, a Junta de Curadores de Nova York cedeu os bens do Mackenzie em comodato ao Instituto Mackenzie. Garcez observa que a Junta de Curadores reservou o direito de nomear o presidente, o vice-presidente e o tesoureiro do Instituto, para que a fé presbiteriana permanecesse a orientação maior da entidade.[86]
Em 1951, Hunnicutt aposentou-se, assumindo a presidência no ano seguinte o Prof. Peter Garret Baker, o último dirigente de nacionalidade norte-americana. Poucos dias após a sua posse, foi solenemente instalada a Universidade Mackenzie, em 16 de abril de 1952. Dois anos mais tarde foi criada a Faculdade de Direito. Em setembro de 1960, assumiu a presidência do Mackenzie o Rev. Ricardo Lord Waddell, filho de William A. Waddell e neto de George W. Chamberlain, o fundador. Foi o primeiro presidente de nacionalidade brasileira. No final do ano seguinte, a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América, a Igreja do Norte, doou todos os bens do Mackenzie College à Igreja Presbiteriana do Brasil, que tornou-se sucessora dos direitos antes exercidos pela Junta de Curadores de Nova York.[87] Segundo uma das cláusulas vinculantes, a donatária assumiu o encargo de dar prosseguimento às atividades educacionais da instituição de ensino “em ambiente de fé cristã evangélica”.[88]
Conclusão
Em 1970, como parte das comemorações do centenário do Mackenzie, o ilustre professor Jorge César Mota escreveu um trabalho muito interessante e bem documentado sobre as origens e a identidade da grande instituição.[89] Na primeira parte do estudo, o autor discorreu sobre dois grandes pressupostos que, no seu entender, nortearam as ações dos educadores que plasmaram o Mackenzie. O primeiro foi a sua base cristã e bíblica, especialmente a sua ênfase nas Escrituras como fonte dos valores éticos e espirituais tão importantes no processo educativo. Segundo Mota, os doutore Lane e Waddell tinham a firme convicção de que valeria a pena fazer neste país a experiência pedagógica inspirada na Reforma Protestante, porque o que visava a verdadeira educação não era só informar, mas sobretudo formar o homem, e a Bíblia era a chave do sucesso nesse objetivo.[90]
O segundo pressuposto seria a independência da ingerência eclesiástica. Entre as razões apontadas para isso estava o perigo de transformar a atividade pedagógica em instrumento de coerção das consciências e de ampliação do domínio eclesiástico.[91]
Uma coisa que o autor parece não ter percebido é o sério conflito que existe entre esses dois pressupostos, ou seja, como manter uma instituição nitidamente cristã, evangélica, centralizada na Bíblia, se essa instituição não tiver vínculos com a igreja. A tendência é que a instituição secularize-se progressivamente e perca inteiramente de vista os propósitos dos seus fundadores. Isso já aconteceu na história do Mackenzie, como foi apontado pelo conhecido ministro e educador presbiteriano Erasmo Braga, ele mesmo tão estreitamente associado à entidade.
Em um livro escrito em 1931, poucos meses antes da sua morte, Braga fez referências elogiosas às escolas missionárias e mencionou os benefícios que, em suas opinião, as mesmas trouxeram para a sociedade brasileira.[92] Ele citou especificamente o Mackenzie College, lembrando que o preâmbulo de sua constituição declara que essa instituição está fundada sobre princípios cristãos e que nela Deus e a sua Palavra serão para sempre claramente reconhecidos e honrados.[93] Ao mesmo tempo, Braga apontou para algumas críticas feitas a tais instituições educacionais: o fato de que muitos dos que nelas trabalham não são “cristãos autênticos”, a colocação dos interesses espirituais em um segundo plano, e uma tendência para a secularização que era prejudicial tanto para os seus funcionários quanto para o crédito da causa cristã junto aos de fora. “Esse processo de secularização”, acrescentou o autor, “geralmente resulta de concessões feitas a parceiros amistosos que, todavia, no seu íntimo são apostos a Cristo”.[94]
É verdade que a ligação entre uma igreja e uma instituição educacional de grande porte pode ser problemática. A instituição poderá sofrer com as pressões e os altos e baixos da política eclesiástica e ser objeto das ambições pessoais dos dirigentes da igreja. Cumpre à igreja, através dos seus concílios, criar mecanismos através quais esses perigos sejam minimizados. Por outro lado, é esse vínculo eclesiástico que garantirá que a instituição mantenha-se fiel aos propósitos religiosos e éticos de seus fundadores.
A Igreja Presbiteriana do Brasil tem o direito e a responsabilidade de dar a uma instituição que lhe pertence um claro caráter confessional e também o de fazer com que essa instituição atenda aos fins maiores da igreja, que são espirituais. Por outro lado, isso sempre terá de ser feito respeitando-se valores essenciais defendidos pela tradição reformada, como a liberdade de consciência e de filiação religiosa, procurando-se transmitir a fé e os princípios evangélicos por todos os meios legítimos, como a palavra, os argumentos e o exemplo, e jamais pela coerção e a manipulação psicológica, como tantas vezes tem acontecido na história do cristianismo. Espera-se que esses princípios e valores possam nortear a trajetória do Instituto Presbiteriano Mackenzie e de suas instituições educacionais ao aproximar-se o século 21.
Notas:
[1] Sobre a evolução das escolas medievais e o surgimento das universidades, ver Williston Walker et al., A History of the Christian Church, 4ª ed. (Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1985), 322-24, 334-37; Justo L. González, The Story of Christianity, 2 vols. (Nova York: HarperCollins, 1984), Vol. 1, 311-315.
[2] Quanto à vida e contribuições de Comênio, ver Jan Amos Comenius (1592-1670), Christian History VI:1 (1987), e William Warren Filkin, Jr., “John Amos Comenius”, em Elmer L. Towns, ed., A History of Religious Educators (Grand Rapids: Baker, 1975), 176-189. Quanto à história e princípios da educação cristã, ver Kenneth O. Gangel e Warren S. Benson, Christian Education: Its History and Philosophy (Chicago: Moody, 1983).
[3] Sobre os puritanos e a educação, ver Mark A. Noll, A History of Christianity in the United States and Canada (Grand Rapids: Eerdmans, 1992), 44.
[4] Essas questões são amplamente debatidas em William R. Hutchison, Errand to the World: American Protestant Thought and Foreign Missions (Chicago: The University of Chicago Press, 1987). Até a controvérsia modernista-fundamentalista, tanto os protestantes progressistas quanto os conservadores estavam convencidos de que a obra de evangelização devia ser acompanhada, ou mesmo precedida, de um esforço nas áreas educacional e social no sentido de elevar o padrão de vida dos povos ditos pagãos. Esse esforço era freqüentemente denominado de “civilização”, e partia do pressuposto de que as nações cristãs do hemisfério norte, principalmente os Estados Unidos, tinham uma civilização superior que devia ser levada aos povos menos desenvolvidos. Tal situação gerava o conflito entre a evangelização e essas outras atividades missionárias.
[5] A Igreja do Norte (PCUSA) tinha duas missões no Brasil: Central Brazil Mission (Bahia e Sergipe) e South Brazil Mission (Rio de Janeiro até Santa Catarina); a Igreja do Sul (PCUS) também tinha duas missões: Northern Brazil Mission (nordeste e norte) e Southern Brazil Mission (São Paulo, Minas Gerais e Goiás).
[6] Sobre essa escola, ver Júlio Andrade Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, 2 vols., 2ª ed. (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992), I:79, 85.
[7] Quanto às escolas do Rev. Dagama e outros exemplos, ver a interessante análise de Boanerges Ribeiro em Protestantismo e Cultura Brasileira: Aspectos Culturais da Implantação do Protestantismo no Brasil (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981), 183-198.
[8] Sobre as motivações dos missionários americanos ao abrirem escolas, ver as considerações de Émile-G. Léonard, O Protestantismo Brasileiro: Estudo de Eclesiologia e História Social, 2ª ed. (São Paulo: JUERP/ASTE, 1981), 133s. Ver também Osvaldo Henrique Hack, Protestantismo e Educação Brasileira: Presbiterianismo e seu Relacionamento com o Sistema Pedagógico (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985), 58-63, 67-75.
[9] Ashbel Green Simonton, Diário, 1852-1867, trad. D. R. de Moraes Barros (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1982), 158.
[10] Ibid., 162, 172, 176, 197.
[11] Ashbel G. Simonton, “Os Meios Necessários e Próprios para Plantar o Reino de Jesus Cristo no Brasil”, em Simonton, Diário, Apêndice II, p. 214.
[12] Paul Everett Pierson, A Younger Church in Search of Maturiry: Presbyterianism in Brazil from 1910 to 1959 (San Antonio, Texas: Trinity University Press, 1974), 108. Ver também p. 31.
[13] Vicente Themudo Lessa, Annaes da 1ª Egreja Presbyteriana de São Paulo (1863-1903): Subsídios para a História do Presbyterianismo Brasileiro (São Paulo, 1938), 74, 86. Chamberlain chegou ao Brasil em 1862 e quatro anos mais tarde foi ordenado pelo Presbitério do Rio de Janeiro. Regressou aos Estados Unidos, onde estudou teologia e se casou. Pastoreou a Igreja de São Paulo de 1869 a 1887. Passou os últimos anos da sua vida na Bahia.
[14] Uma das evidências da importância atribuída pelas juntas de missões à educação foi o envio, a partir de Mary P. Dascomb, de uma nova categoria de missionários – as educadoras. Mary Dascomb e Elmira Kuhl nasceram ambas em 1842 e faleceram em 1917.
[15] Júlio César Ribeiro Vaughan (1845-1890) foi jornalista, filólogo e escritor. Tornou-se membro da Igreja Presbiteriana de São Paulo em 1870 e por um tempo pensou em seguir a carreira ministerial. Mais tarde, abandonou a fé cristã. Entre as suas obras, destacam-se o romance histórico Padre Belchior de Pontes, que revela suas convicções evangélicas, e o controvertido romance naturalista A Carne. Foi também autor e tradutor de diversos hinos. Ver Lessa, Annaes, 78-84.
[16] Lessa, Annaes, 106. A mulher referida era Mary Parker Dascomb.
[17] Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, 244s; McIntire, Portrait, 7/64.
[18] Lessa, Annaes, 151s.
[19] Rui Barbosa foi convidado para ser o orador oficial dessa inauguração, mas não pode comparecer e seu discurso foi lido. Por sua sugestão, a solenidade foi realizada no dia 4 de julho, a data nacional dos Estados Unidos. Ver Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, 249.
[20] Sobre o Colégio Internacional, sua filosofia educacional e sua influência, ver Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, 199-223; Marcus Levy Albino Bencostta, “Ide por Todo o Mundo”: A Província de São Paulo como Campo de Missão Presbiteriana 1869-1892 (Campinas: Centro de Memória – Unicamp, 1996), e o célebre artigo de Erasmo Braga, “O Colégio Internacional e seus Fundadores”, Revista do Centro de Ciências, Letras e Artes XV:44 (30-09-1916), 42-47.
[21] Ver Ferreira, História da IPB, I:487-502; Bear, Mission to Brazil, 25-31, 104-117; e Clara G. M. Gammon, Assim Brilha a Luz: A Vida de Samuel Gammon (Lavras: Imprensa Gammon, 1959).
[22] Ver Ferreira, História da IPB, II:81, e James E. Bear, Mission to Brazil (PCUS, Board of World Missions, 1961), 30s.
[23] Ferreira, História da IPB, I:548-554; II:106-108; Bear, Mission to Brazil, 71-76.
[24] Ferreira, História da IPB, I:459-68, 558-63; Bear, Mission to Brazil, 61-71.
[25] Sobre a influência do Instituto Ponte Nova, ver Eudaldo Silva Lima, Romeiros do Meu Caminho (Brasília, 1981), 54s, 207-210; e Ferreira, História da IPB, 93-95, 206s.
[26] Ver Harry P. Midkiff, The Sketch of a Life on Two Continents (1965), 28-42.
[27] Benedicto Novaes Garcez, Mackenzie (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1969), 32.
[28] Ibid., 30.
[29] Ibid., 47.
[30] Ibid., 32.
[31] Alexander Latimer Blackford (1829-1890) chegou ao Brasil em 1860 e foi o primeiro missionário presbiteriano a residir em São Paulo, cuja igreja fundou em 1865. Com a morte de Simonton, pastoreou a igreja do Rio de Janeiro e mais tarde trabalhou como agente da Sociedade Bíblica Americana. Findou sua carreira missionária na Bahia, onde esteve por dez anos. Foi o primeiro moderador do Sínodo.
[32] Ribeiro, Protestantismo e Cultura Brasileira, 234-37.
[33] Ibid., 239.
[34] Imprensa Evangélica (18-12-1876), p. 188.
[35] Sobre os primórdios da “Training School”, ver Robert Leonard McIntire, Portrait of Half a Century: Fifty Years of Presbyterianism in Brazil (1859-1910), Sondeos nº 46 (Cuernavaca, México: Centro Intercultural de Documentación, 1969), 7/62-65.
[36] Boanerges Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, da Autonomia ao Cisma (São Paulo: O Semeador, 1987), 15-26.
[37] Nos diferentes autores, existem várias discrepâncias quanto a alguns dados biográficos de Lane. Os dados mais confiáveis são fornecidos por Boanerges Ribeiro, que teve acesso ao diário do educador. Ver Lessa, Annaes, 241s; McIntire, Portrait of Half a Century, 8/31, 10/47; Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, 26-55.
[38] Ribeiro faz um detalhado levantamento das convicções religiosas de Lane e conclui que ele era de origem unitarista. A Igreja Presbiteriana no Brasil, 36-42. Outro dado significativo é o fato de que ele era maçom.
[39] Ibid., 46.
[40] Ibid., 53.
[41] Lessa, Annaes, 311-16; Ferreira, História da IPB, I:284-88; McIntire, Portrait, 8/15-19; Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, 193-209.
[42] Lessa, Annaes, 317s; Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, 219-222.
[43] Ferreira, História da IPB, I:338s.
[44] Lessa, Annaes, 229-33, 277s, 281s.
[45] Ibid., 308.
[46] Ibid., 452.
[47] Minutes of the General Assembly of the Presbyterian Church in the Unites States of America, New Series, Vol. XII, 1889 (Filadélfia, 1889), 122.
[48] A resolução dizia: “Aprova-se que a Assembléia Geral convide outras denominações para se unirem na criação de um Colégio Protestante em São Paulo, Brasil”. McIntire, Portrait, 8/36.
[49] Quanto ao processo de incorporação, ver Ferreira, História da IPB, I:347; McIntire, Portrait, 8/37. Ver também Garcez, Mackenzie, 99.
[50] “A Brazilian Christian College” [Nova York, 1890]. A declaração encerra dizendo que outras informações poderiam ser obtidas junto ao Rev. G. W. Chamberlain, então em Nova York.
[51] Anteriormente, Chamberlain havia desabafado: “O Sínodo vai ter Seminário só no papel!” Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, 221.
[52] William Alfred Waddell (1862-1939) foi ordenado em 1887 e chegou ao Brasil em 1890, a fim de ensinar teologia no Instituto de São Paulo. À exceção do período de 1899 a 1914, em que realizou trabalho missionário na Bahia, residiu em São Paulo e esteve sempre ligado ao Mackenzie.
[53] Ferreira, História da IPB, I:354.
[54] Ver Lessa, Annaes, 383s; Ribeiro, A Igreja Presbiteriana no Brasil, 258-62.
[55] Emmanuel Vanorden (1839-1917) nasceu em Haia, Holanda, estudou teologia nos Estados Unidos e chegou ao Brasil como missionário da Junta de Nova York em 1872. Após um trabalho inicial em São Paulo e no Rio de Janeiro, rompeu com a Missão e com o Presbitério do Rio, passando cerca de doze anos na cidade de Rio Grande (RS), onde dedicou-se ao comércio de livros e fundou uma igreja evangélica. Regressou a São Paulo em 1888, aí residindo até o final da sua vida.
[56] Ferreira, História da IPB, I:384-86.
[57] Lessa, Annaes, 435s, 605s. Mais tarde, Waddell também iria romper com o Presbitério de São Paulo.
[58] Ibid., 440s.
[59] John T. Mackenzie nasceu em 1810 e pouco após a independência do Brasil leu um artigo de José Bonifácio de Andrada e Silva sobre a necessidade de se desenvolver a educação popular no país. O menino pensou então em tornar-se professor e trabalhar entre os brasileiros. Pouco depois, a morte do seu pai fê-lo mudar de planos, vindo a tornar-se um próspero advogado. Em 1890, já octagenário, lembrou-se do país ao qual desejara servir na mocidade. Dividiu sua forturna em três partes, duas para cada irmã e a terceira para a causa da educação no Brasil. Foi quando soube da campanha pela construção de um edifício para o Colégio Protestante de São Paulo. Ver Lessa, Annaes, 454; McIntire, Portrait, 10/49s; e Garcez, Mackenzie, 109-112.
[60] Lessa, Annaes, 406s.
[61] Ibid., 407-409, 428-33.
[62] Ibid., 496-98.
[63] Ferreira, História da IPB, I:404.
[64] Ibid., I:426-33.
[65] Esse fato é reconhecido por estudiosos norte-americanos atuais. Ver Pierson, A Younger Church, 33-39.
[66] Ferreira, História da IPB, I:420. Ver também Lessa, Annaes, 529s; McIntire, Portrait, 9/16s; Léonard, Protestantismo, 144.
[67] Ferreira, História da IPB, I:418.
[68] Ibid., I:419.
[69] Ibid., I:438. Ver Lessa, Annaes, 639.
[70] Ibid., I:436.
[71] Em 1900, a Igreja Filadelfa fundiu-se com a 2ª Igreja Presbiteriana para formar a Igreja Presbiteriana Unida, hoje sediada na Rua Helvétia, bairro Campos Elísios.
[72] Lessa é quem relaciona a renúncia de Pereira com o pedido de organização da nova igreja. Ver Annaes, 583. Ribeiro atribui a renúncia apenas a conflitos internos da diretoria do seminário. Igreja Presbiteriana do Brasil, 339-41.
[73] Ferreira, História da IPB, I:572-80; II:11-15.
[74] McIntire, Portrait, 9/3.
[75] Ibid., 9/4-5.
[76] The Brazilian Bulletin – Organ of Mackenzie College (junho 1898), 1.
[77] Ribeiro, Igreja Presbiteriana do Brasil, 396.
[78] “To the Board of Trustees of the Protestant College at São Paulo, Brazil”, manuscrito datilografado, 30 nov 1899, p. 5.
[79] “To the Trustees of Mackenzie College, São Paulo – Brazil”, manuscrito datilografado, 31 dez 1908, p. 1.
[80] Ibid., 10. Ênfase de Lane.
[81] Pierson, A Younger Church, 109.
[82] Pierson, A Younger Church, 32.
[83] Stewart casou-se com Leonor Pereira de Magalhães, com a qual teve cinco filhos. Ver Adolpho Machado Corrêa, Eduardo Carlos Pereira: Seu Apostolado no Brasil (São Paulo: Pendão Real, 1983), 56.
[84] Garcez, Mackenzie, 150.
[85] As razões apontadas para a hostilidade governamental contra o Mackenzie eram as suas tradições liberais, a Revolução Constitucionalista de 1932, na qual o Mackenzie teve participação ativa, e especialmente as suas conexões norte-americanas. Garcez, Mackenzie, 169s, 177. Algumas administrações estaduais e municipais de São Paulo também praticaram ações lesivas contra o Mackenzie, como as de Adhemar de Barros e Jânio Quadros, no caso da desapropriação da Chácara Lane. Ibid., 192s.
[86] Ibid., 210.
[87] Isso daria ensejo a novas lutas, como as resultantes da tentativa de desapropriação do Mackenzie ocorrida nos anos 70.
[88] Garcez, Mackenzie, 214.
[89] Jorge César Mota, À Procura das Origens do Mackenzie, Cadernos de Pós-Graduação, Vol. II, Nº 2 (São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 1999).
[90] Ibid., 9. Ênfase do autor.
[91] É interessante lembrar que, quando César Mota fez essas afirmações, a Igreja Presbiteriana do Brasil já havia assumido o controle do Mackenzie.
[92] Erasmo Braga e Kenneth G. Grubb, The Republic of Brazil: A Survey of the Religious Situation (Londres: World Dominion Press, 1932), 94s, 132s.
[93] Ibid., 76.
[94] Ibid., 95.