A Igreja Presbiteriana de Botafogo e o Presbiterianismo Nacional

A Igreja Presbiteriana de Botafogo e o Presbiterianismo Nacional

Alderi Souza de Matos

 

Introdução

 

A Igreja Presbiteriana de Botafogo é uma comunidade local da Igreja Presbiteriana do Brasil, a maior e mais antiga denominação reformada brasileira, iniciada em 1859. O movimento reformado, também conhecido como Segunda Reforma, teve origem na Suíça do século 16, através dos reformadores Ulrico Zuínglio (Zurique) e João Calvino (Genebra). Da Suíça, o movimento difundiu-se para diversos países da Europa, como França, Alemanha, Holanda e Hungria. A tradição calvinista teve um impacto particularmente profundo nas Ilhas Britânicas (Inglaterra, Escócia e Irlanda). Dessa região, em especial da Escócia, as igrejas reformadas ou presbiterianas irradiaram-se para os Estados Unidos e daí para o Brasil e muitos outros países ao redor do mundo.

 

O presbiterianismo caracteriza-se por uma série de elementos distintivos. Em primeiro lugar, por certas ênfases teológicas extraídas das Escrituras. Essas ênfases estão expressas nas obras dos grandes pensadores reformados e nos documentos confessionais da fé reformada (catecismos e confissões de fé). Um conceito central dessa teologia é a soberania de Deus sobre todas as áreas da vida. Outro aspecto saliente dessa tradição é a sua forma de governo representativo e conciliar. Os membros das igrejas elegem os presbíteros, que, reunidos em concílios de diferentes níveis (local, regional e nacional), exercem a administração da igreja. Os presbiterianos também se caracterizam por sua forma de culto, conceito de missão, valores éticos e visão do mundo.

 

 

1. O presbiterianismo brasileiro

 

A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), iniciada pelo Rev. Ashbel Green Simonton em 1859, abraça a fé reformada ao adotar oficialmente como padrões doutrinários a Confissão de Fé e os Catecismos elaborados pela Assembléia de Westminster, em Londres, na década de 1640. No plano administrativo, a igreja é regida pela sua Constituição, que estabelece uma estrutura composta de quatro níveis hierárquicos: Conselho, Presbitério, Sínodo e Supremo Concílio. A IPB é, pois, uma federação de igrejas, em que as igrejas locais, embora importantes em si mesmas, sentem-se parte de um todo maior e estão em comunhão com as outras congregações locais da denominação no território nacional.

 

Toda comunidade presbiteriana, através de seus pastores, presbíteros e outros líderes, pode participar da igreja mais ampla nesses diferentes níveis, e assim dar uma colaboração e exercer um ministério que vai muito além da esfera local. Essa participação é um instrumento de serviço cristão, de testemunho a respeito da fé e de estreitamento dos laços de fraternidade. Esse tem sido o caso da Igreja Presbiteriana de Botafogo desde o seu início. Ao longo de um século, muitas pessoas dessa agremiação deram contribuições e exerceram influência nos âmbitos presbiterial, sinodal e nacional. Antes de destacar tais contribuições, vale relembrar alguns aspectos da história inicial da igreja.

 

 

2. A igreja no Rio de Janeiro

 

A Igreja Presbiteriana de Botafogo nasceu em um período marcante da história da Igreja Presbiteriana do Brasil. Já havia se encerrado a fase pioneira, marcada pela predominância dos missionários norte-americanos. A denominação havia se tornado mais madura, mais brasileira, processo esse que não ocorreu sem traumas. Apenas três anos antes da organização da Igreja de Botafogo (03-07-1906), a igreja nacional havia experimentado uma dolorosa divisão, causada em parte por essa transição da fase missionária para a fase nacional (julho de 1903). Despertada pelo cisma, a IPB arregimentou as suas forças para uma grande arrancada de crescimento nos anos seguintes, o que levou à organização da Assembléia Geral (Supremo Concílio) em 1910, no Rio de Janeiro, completando-se assim a estrutura eclesiástica da denominação.

 

No que diz respeito à obra presbiteriana na então capital federal, um grande momento de transição foi o ano de 1897. Após uma longa série de pastorados breves, a igreja-mãe do presbiterianismo nacional, organizada pelo pioneiro Ashbel G. Simonton em 1862, recebeu um notável líder que ficaria à frente da mesma durante 28 anos – Rev. Álvaro Reis. Esse ministro não só foi o instrumento para uma enorme expansão da igreja sede, que se tornou em seu pastorado a maior igreja evangélica da América Latina, mas ampliou extraordinariamente a presença presbiteriana na cidade do Rio de Janeiro, abrindo muitos pontos de pregação e congregações. No início do pastorado de Álvaro Reis, além da igreja-mãe havia apenas uma outra igreja organizada na cidade, a de Riachuelo (1894). Nos anos seguintes surgiram as de Botafogo, Ponta do Caju, Copacabana, Ramos, Tomás Coelho, Olaria e Madureira.

 

 

3. Primórdios da Igreja de Botafogo

 

Após a morte de Simonton (1867), seu cunhado e sucessor Alexander L. Blackford deu grande impulso à obra presbiteriana na antiga capital do Império. No início da década de 1870, surgiram pontos de pregação em diversos bairros, inclusive em Botafogo, onde residiam alguns membros da igreja central. A primeira sede do trabalho foi a residência de Alfredo Pinto da Gama e sua esposa Inácia, na rua da Passagem, nº 37. Um dos colaboradores desse trabalho por muitos anos foi Pedro Perestrello da Câmara, o primeiro presbítero ordenado por Simonton, em 1866. O ponto de pregação evoluiu para escola dominical e depois para congregação, experimentando grande progresso durante o pastorado do notável Rev. Álvaro Reis, até a organização da igreja em 3 de julho de 1906.

 

Os fundadores e primeiros pastores da Igreja de Botafogo foram indivíduos de grande projeção na vida da jovem igreja nacional. Álvaro Reis (1864-1925) não só foi um afamado orador, evangelista e polemista, mas viajou extensamente pelo país e ocupou muitos cargos destacados na estrutura da denominação, tendo sido o primeiro moderador da Assembléia Geral da IPB. Laudelino de Oliveira Lima (1867-1939), pastor auxiliar de Álvaro Reis e colaborador da Igreja de Botafogo antes da organização (1905), foi também jornalista, formou-se em engenharia e pastoreou mais de 40 igrejas em seis estados, muitas das quais organizadas por ele mesmo. José Ozias Gonçalves (1874-1922), o primeiro pastor da igreja organizada, trabalhou em vários estados e mais tarde formou-se em Direito. Franklin do Nascimento (1872-1919) foi o braço direito do Rev. Álvaro Reis na fundação e redação de O Puritano, o periódico da IPB durante 60 anos (1899-1958). Samuel Barbosa (1881-1913), que trabalhou na Igreja de Botafogo de 1907 a 1909, foi um evangelista de imensa dedicação nos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, tendo falecido ainda jovem.

 

 

4. As décadas de 1910 a 1940

 

Os ex-sacerdotes Constâncio Homero Omegna (1877-1927) e Antônio André Lino da Costa (1850-1913), que pastorearam a igreja entre 1909 e 1913, foram líderes de projeção na IPB, o primeiro como educador, inicialmente em Valença (RJ) e depois no Seminário Presbiteriano, em Campinas, e o segundo como dinâmico pastor, evangelista e conferencista em muitas regiões do Brasil. Seu filho Tancredo Millevoye da Costa (1891-1975), que também pastoreou a Igreja de Botafogo por breve tempo, seguiu as pegadas do genitor e trabalhou em vários estados. Lecionou em diversos colégios e faculdades de teologia e foi membro fundador da Academia Evangélica de Letras. Os Revs. Henrique Louro de Carvalho (1876-1956) e André Jensen (falecido em 1961) também foram obreiros operosos em muitos pontos do estado fluminense. Pastorearam a igreja respectivamente em 1914-1917 e 1917-1923.

 

Após uma série de pastorados curtos, a Igreja de Botafogo teve um ilustre pastor por dezoito anos na pessoa de Samuel Lenz de Araújo César (1884-1943), filho de um dos primeiros pastores presbiterianos brasileiros, Belmiro de Araújo César. Samuel dotou a igreja do seu primeiro templo, construído pelo comendador Antônio Jannuzzi e inaugurado em 4 de julho de 1926 na rua da Passagem, 91. Possuidor de grande talento e conhecimentos no âmbito da música, criou o coral da igreja e deu muitas contribuições nessa área através de jornais, do rádio e de outros veículos. Em 1940, foi sucedido no pastorado por Samuel de Souza do Ó. Este havia sido grandemente auxiliado pelo Rev. Samuel César nos estudos e foi seu auxiliar por breve tempo. São mencionados a seguir os demais pastores da igreja até o presente, com as funções que tem exercido além do âmbito da igreja local.

 

Stelleo Severino da Silva (1909-1985)esse ministro teve o mais longo pastorado da Igreja de Botafogo, durante 28 anos (1951-1979). Nesse período fecundo, foi presidente e vice-presidente do Presbitério do Rio de Janeiro, secretário presbiterial e delegado ao Supremo Concílio, tendo sido eleito representante da IPB na Confederação Evangélica do Brasil. Foi membro da Junta Missionária e da Junta de Difusão e Propaganda, bem como representou a IPB na 3ª Conferência das Igrejas Presbiterianas da América Latina, no Chile. Atuou ainda como professor, inclusive na Academia de Polícia do Estado da Guanabara, e colaborou com a Associação Cristã de Moços (ACM).

 

Geraldo Nunes de Azevedo – foi auxiliar do Rev. Stelleo a partir da ordenação em 1974 e pastor efetivo da igreja em dois períodos: 1979-1988 e 1994-1997. Lecionou hinologia e liturgia no Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro. Ocupou diferentes cargos no Presbitério do Rio de Janeiro e no Sínodo do Rio de Janeiro. Foi deputado a todas as reuniões ordinárias do Supremo Concílio de 1986 a 1998 (Vitória, Governador Valadares, São Paulo e Brasília). Atuou como relator da Comissão do Anteprojeto de Reforma dos Princípios de Liturgia da IPB. Faleceu no ano 2000.

 

Carlos Alberto Chaves Fernandes – serviu como pastor auxiliar do Rev. Geraldo Azevedo em 1984. Por mais de uma década, foi professor de várias disciplinas no Seminário do Rio de Janeiro. Ocupou todos os cargos da mesa executiva do Presbitério do Rio de Janeiro, foi membro da Comissão Nacional de Evangelização e 1º secretário da mesa do Supremo Concílio (1998).

 

Wladymir Soares de Brito – foi pastor auxiliar no biênio 1986-1987. Ocupou diversos cargos de destaque tanto no Presbitério quanto no Sínodo do Rio de Janeiro. Preside o Presbitério da Ilha do Governador desde a sua fundação. É  mestrando em Direito Tributário, integra o Tribunal de Recursos do Supremo Concílio e do Sínodo e participou da comissão especial que analisou o novo Código Civil em seus efeitos na IPB.

 

Jonas Machado e Antônio Máspoli de Araújo Gomes – exerceram o pastorado efetivo respectivamente em 1988-1990 e 1991-1993. Atualmente, o Rev. Antônio Máspoli é professor no curso de Mestrado em Ciências da Religião, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

 

Miguel Marques Rodrigues – ordenado em 1984, é o pastor efetivo da Igreja de Botafogo desde 1997. É considerado um dos melhores oradores sacros do Presbitério do Rio de Janeiro e tem participado intensamente da vida conciliar da IPB, inclusive de três reuniões do Supremo Concílio. Na reunião de 1998, foi relator da Comissão de Exame dos Relatórios das Autarquias da IPB. Tem ocupado os cargos mais importantes do Presbitério do Rio de Janeiro, bem como várias funções no Sínodo.

 

Zaqueu Ribeiro – foi colaborador docente da Igreja de Botafogo de 1998 a 2002. Nascido em 1924, foi ordenado em 1950, trabalhando inicialmente em sua região, o Vale do Ribeira. Em seguida auxiliou no pastorado da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro e foi o fundador e primeiro pastor da Igreja da Tijuca, à frente da qual esteve por mais de 20 anos, até 1988. Formou-se em Direito e aplicou todo o seu potencial intelectual e oratório na vida conciliar da igreja. Compareceu oficialmente a 180 reuniões dos concílios superiores!

 

Paulo Severino da Silva Filho – nascido em 1964, é neto do Rev. Stelleo Severino da Silva e pastor colaborador da Igreja de Botafogo desde 2002. É professor do Seminário Presbiteriano do Rio de Janeiro na área de teologia exegética e desde 2003, por designação da Junta de Educação Teológica (JET), é coordenador do Exame Nacional de Avaliação de formandos dos seminários da IPB. Também tem atuado no Presbitério e no Sínodo do Rio de Janeiro.

 

 

Outros servidores da igreja

 

Inspirada pelo exemplo dos seus líderes, a Igreja Presbiteriana de Botafogo tem aprendido a importância do serviço ao reino de Deus e à sociedade em termos mais amplos. Outra maneira pela qual a igreja contribuiu para a denominação foi através dos seus filhos que chegaram ao ministério pastoral. Alguns nomes merecem destaque especial. O Rev. Gerson Perestrello Casanova, falecido em 1999, era primo do Rev. Modesto Carvalhosa e neto de Pedro Perestrello da Câmara, o antigo presbítero ordenado por Simonton. O Rev. Diniz Prado de Azambuja Neto foi genro do Rev. Tancredo da Costa e um nome respeitado na Igreja Presbiteriana do Brasil. O filho mais conhecido da Igreja de Botafogo é sem dúvida Rubem Azevedo Alves, teólogo, escritor e educador de renome internacional. Além de Samuel de Souza do Ó e Geraldo Nunes de Azevedo, outros filhos da igreja que chegaram ao ministério foram Ramiro Paes, Jalmar Sathler, João Evangelista dos Santos, João Evangelista Chamorro, Isaías de Souza Braga, Eduardo Bonifácio, Marcelo Vale Ferreira, João Arão, José Carlos Ferreira, Thiago Silveira Silva, Vanúzio Mello, Paulo Severino da Silva Filho e Samuel Costa Cordeiro Neto.

 

Dentre os oficiais da Igreja de Botafogo, aquele que tem tido atuação mais destacada na vida conciliar da IPB é o presbítero Wagner Winter Moreira. Eleito presbítero dessa igreja em 1998, ele tem sido repetidas vezes designado representante ao Presbitério e ao Sínodo do Rio de Janeiro. Foi por quatro legislaturas 1º secretário do seu Presbitério e duas vezes secretário do Sínodo, bem como secretário sinodal de Educação Cristã. Foi deputado à XXXV reunião ordinária do Supremo Concílio (2002). Desde 2002 é integrante da Junta de Educação Teológica (JET/IPB), sendo diretor-secretário desse importante órgão da igreja. Tem integrado diversas comissões desses diferentes concílios e é autor de artigos publicados nas áreas de teologia bíblica e pastoral. É genro do Rev. Zaqueu Ribeiro.

 

O objetivo deste apanhado histórico não é simplesmente destacar os personagens contemplados, mas mostrar exemplos do que significa ser uma igreja participativa, de como as pessoas podem servir ao corpo de Cristo e à sociedade em geral, como discípulos e instrumentos do Senhor da igreja. Espera-se que este relato inspire ainda outros, da Igreja Presbiteriana de Botafogo e de outras comunidades, a dedicarem sua inteligência, talentos, energias e recursos à causa do evangelho, sabendo que, “no Senhor, o seu trabalho não é vão” (1 Co 15.58).



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