Aníbal Marcelino Correia (1885-1959)

Aníbal Marcelino Correia (1885-1959)

Alderi Souza de Matos

 

Aníbal Correia nasceu no dia 6 de abril de 1885 na cidade portuária de Paranaguá, no Estado do Paraná. Pertencendo a uma família católica, nos primeiros anos do século 20 (1901 e 1902), quando ainda adolescente, começou a freqüentar os cultos evangélicos que se realizavam na ladeira da rua do Rosário. Os cultos, dirigidos pelos consagrados pregadores leigos Samuel Melo, Simplício Marques, Frederico Reginato, Domingos Gonçalves e Aristides Ribich, muitas vezes eram interrompidos por pedradas e impropérios que vinham da rua.

 

O jovem Aníbal ficou impressionado com os testemunhos de alguns dos novos convertidos. Entre eles havia um negro conhecido como Valadares, que anteriormente passava todos os domingos na cadeia por causa das arruaças que infalivelmente promovia aos sábados, por causa de suas bebedeiras. Num domingo à noite, ele testemunhou no culto: “Eu vivia todo machucado pelas bordoadas da polícia; o carro de água com que trabalhava não era meu; minha família sofria; em casa todos tinham medo de mim; eu era mau e perverso. Um dia fui alcançado pelo Espírito Santo quando passava pela frente da sala de cultos; entrei e ouvi muito do amor de Deus pelos pecadores; conheci dos meus pecados e, arrependido, fiz a minha profissão de fé. Agora o carro de água com que trabalho é meu; a casa onde moro é minha; minha família me estima, não mais tem medo do chefe da casa como tinha antes; sou uma nova criatura, renascido pela graça de Deus, tendo ouvido os ensinos do nosso divino Mestre Jesus”.

 

Em novembro de 1902 um homem de grande influência política e social realizou uma grandiosa festa de Nossa Senhora do Rocio, a padroeira da cidade. Aníbal estava presente e viu que os crentes mais corajosos distribuíram por toda a cidade um jornalzinho chamado Mixórdia, que exaltava o evangelho e condenava a idolatria. No dia seguinte, Aníbal deveria viajar para Curitiba em companhia de uma família de devotos desses festejos. A viagem teve de ser adiada para terça-feira porque foi realizada na Igreja do Rocio uma missa de desagravo à santa, por causa da heresia dos atrevidos protestantes. Aníbal diz que sentiu o poder do evangelho nesses acontecimentos. Todavia, somente quinze anos mais tarde fez a sua profissão de fé.

 

Quando foi para a capital do Estado, aos 17 anos, Aníbal estava muito doente. Assistiu aos cultos da Igreja Luterana na rua Trajano Reis e por diversas vezes entrou no templo presbiteriano da rua Comendador Araújo, especialmente em 1906, levado mais pela curiosidade do que por interesse religioso. Conheceu os Revs. George Anderson Landes, da Igreja Presbiteriana, e José Maurício Higgins, da Igreja Independente. Nesta última igreja, fez amizade em 1912 com uma senhora de sobrenome Godói, que costumava lhe dizer: “Não vá mais àquela igreja porque é igreja de grã-finos; a nossa é a verdadeira igreja de Cristo, onde não há maçons”. Em suas visitas à “igreja bonita” da rua Comendador Araújo, também conheceu os Revs. Charles A. Carriel, Roberto Frederico Lenington, José Ozias Gonçalves e Luiz Lenz de Araújo César.

 

Entre 1912 e 1917, Aníbal passou a percorrer o Estado em busca de saúde e meios de sustento. Nesse período e nos anos seguintes ele conheceu muitas cidades, colaborou com o trabalho evangelístico e entrou em contato com quase todos os missionários e pastores pioneiros do Paraná. Ficou por mais tempo em Ponta Grossa, cognominada a “capital cívica do Paraná”. Quando ali chegou em 1912 não havia igreja organizada. Os cultos eram realizados num depósito de mercadorias, nos fundos de uma casa comercial. A escola dominical era dirigida pelo Sr. Frederico Reginato. O Rev. Harry Preston Midkiff vinha de Castro uma vez por mês para dirigir os trabalhos regulares. Em 1912, chegou o Rev. Landes com a família, mas não ficou por muito tempo. Logo veio o Rev. Lenington, que atendia um vasto campo evangelístico. Esse ministro recebeu Aníbal por profissão de fé no dia 25 de novembro de 1917 na Igreja de Ponta Grossa, que havia sido organizada em 18 de julho de 1915.

 

Em 1917 o campo de Guarapuava era pastoreado pelo Rev. John Benjamin Kolb, cuja família foi lembrada com saudades por muitos anos naquela região. Segundo Aníbal, esse valoroso missionário, já em idade avançada, viajava a cavalo semanas pelo sertão. Encaminhou vários moços ao Instituto Cristão de Castro. Faleceu em Ponta Grossa em 13 de janeiro de 1921. Sua morte foi muito sentida. O jornal Diário dos Campos deu ampla notícia, da qual se colhe o seguinte: “Caráter austero e puro, mas dócil, terno e delicado, o Rev. Kolb possuía o condão de atrair a simpatia e amizade de todos que dele se aproximavam, pela lhaneza das suas maneiras, grande ilustração e excepcionais dotes de coração”. Um colega de serviço disse a Aníbal: “Se todos os protestantes possuíssem o caráter deste homem (apontando o missionário), eu me tornaria protestante. Vejo nele uma como que auréola de luz”.

 

Num pequeno texto autobiográfico que escreveu, Aníbal contou que, falecendo o Rev. Kolb e viajando continuamente o Rev. Lenington, assumiu o pastorado da Igreja de Ponta Grossa o Rev. Harold Henry Cook, cujo trabalho foi mais profícuo do que todos esperavam. Nessa época, realizaram-se no Instituto Cristão, sob a liderança dos missionários, as célebres Convenções de Obreiros Leigos, várias das quais tiveram a presença de Aníbal Correia. A quarta convenção, em 1918, teve conferencistas de renome, dentre os quais se destacaram os Revs. Miguel Rizzo Jr. (“Literatura auxiliar”), Jozé Ozias Gonçalves (“Preparação de professores”), James Porter Smith (“Preparação do discurso”) e Sr. Atílio Bório (“Oportunidades do obreiro leigo”).

 

Por motivos financeiros, Aníbal deixou Ponta Grossa e foi residir na pequena cidade de Malet, no sul do Estado, onde trabalhou como guarda-livros. Como não havia igreja evangélica, iniciou em sua própria casa uma escola dominical diurna e cultos vespertinos. Ficou grato a Deus porque não sofreram intolerância religiosa. Na mesma vila tempos antes havia chegado uma família de poloneses evangélicos que, no primeiro dia de sua estada ali, realizou um culto e cantou hinos, mas no dia seguinte foi intimada a se retirar sob pena de ver a sua casa incendiada. Em Malet, a família Correia foi visitada por vários pastores e obreiros, tais como os Rev. Harry Midkiff e senhora, Harold Cook, Armando Amorim e o seminarista Parísio Cidade.

 

Em 1922 a família retornou para Ponta Grossa. Três anos mais tarde foram para Tibagi, onde Aníbal foi guarda-livros de uma companhia de mineração. Realizaram cultos nos escritórios da companhia e na residência de D. Luíza Borba. Foram visitados pelos Revs. Harry Midkiff e Elcias Scheleski. Nessa cidade, impressionaram-se com o espírito cristão do Rev. Midkiff, que dava carona em seu “Ford bigode” aos padres de Castro e de Tibagi. Ficaram tristes ao ver as ruínas do templo presbiteriano de Tibagi, edificado no tempo do Rev. Roberto Frederico Lenington, agora abandonado. As Igrejas de Piraí e Fundão eram visitadas pelos pastores residentes em Castro: Rev. George L. Bickerstaff e mais tarde o Rev. Midkiff.

 

Aníbal foi eleito presbítero da Igreja de Ponta Grossa no dia 26 de janeiro de 1926, no pastorado do Rev. Harold Cook. A última reunião da “Sessão” (Conselho) em que tomou parte foi em 25 de dezembro de 1927. Em busca do “pão de cada dia”, a família voltou a residir em Malet de 1927 a 1931. Reiniciaram os trabalhos evangelísticos, com escola dominical e cultos vespertinos no domingo. Aníbal fez amizade com um certo Sr. João Horn, que às vezes assistia os cultos em sua casa. Em visita àquele trabalho, o Rev. Armando Amorim apresentou um belo sermão evangelístico. Terminado o culto, o Sr. Horn disse a Aníbal: “Esse moço falou muito e eu não entendi nada. Prefiro o seu trabalho, porque entendo o que fala”. No domingo 19 de abril de 1931, em que se comemorou o Dia do Rumo à Escola Dominical, foi tirada uma foto do grupo. Entre as pessoas presentes estava a diretora do Grupo Escolar, que compareceu movida pela curiosidade e acabou ficando.

 

A Revolução de outubro de 1930 afetou negativamente a vila de Malet. Aníbal ficou desempregado e teve de sair em busca de trabalho. A pedido do Rev. Cook, o Sr. João Lupion lhe deu um emprego na sua firma em Piraí do Sul, onde Aníbal trabalhou de dezembro de 1931 até 1939. Em Piraí não havia pastor residente e assim Aníbal assumiu todos os trabalhos da igreja – escola dominical bem como cultos do meio da semana e aos domingos. No dia 2 de junho de 1937 foi solenemente inaugurado o belo templo local, sendo pregador na ocasião o Rev. Luiz César. Nos dias seguintes, realizou-se uma série de conferências na qual foram oradores os Revs. Waldemar Wey e Valério Manuel da Silva. Em 1938, chegou como pastor residente o Rev. José Grossi, recomendado pelo Rev. Lino do Couto, pastor na vila de Sengés.

 

Em 1939 e 1940, a família Correia residiu em Curitiba, cuja igreja era pastoreada pelo Rev. Luiz César. Foram recebidos com certa deferência, o que muito os alegrou. Todavia, por necessidade financeira e pelas exigências do seu emprego, Alípio teve de mudar-se novamente, indo residir na histórica cidade da Lapa. Em maio de 1941 transferiu-se para Cornélio Procópio, no Norte do Paraná, onde não havia igreja presbiteriana. A convite do pastor metodista local, Rev. Quintanilha, Alípio filiou-se a essa igreja, colaborando com a mesma até 1952, na função de “guia leigo”. Naquele período, a família recebeu a visita de vários pastores presbiterianos como Henrique de Camargo, Zaqueu de Melo e Harold Cook.

 

O presbítero Aníbal Correia encerrou a sua jornada em Curitiba, onde já havia residido por duas vezes. Tornou-se membro da tradicional igreja presbiteriana da capital paranaense. Em 1959, alegrou-se com a aproximação do centenário do presbiterianismo no Brasil, sobre o qual escreveu o poema “Heróis de Séculos”: Da igreja cem anos são passados – que valor! / Sejamos gratos e mostremos amor – que prazer! / Lembrando dos heróis abnegados – que ardor! / No segundo centenário que teremos – que fazer? / Registro do valor desses servos heróis / A igreja com prazer fará em seus anais, / Para noutro centenário, quais belos faróis / Aparecerem brilhantes, firmes e reais. / Valores que nas igrejas se multiplicaram, / Semente boa plantada em terra muito boa / Pelos tantos que ao Senhor Jesus aceitaram. / Dentro de mais um século de bênçãos / A história, sim, como testemunha os coroa / Pelos seus feitos de fé neste Brasil imenso.

Em 1959, Aníbal dirigiu semanalmente em sua igreja as reuniões de oração denominadas “Nosso Getsemani” e pregou diversas vezes nas outras igrejas presbiterianas da capital paranaense. Seu último sermão foi proferido na Segunda Igreja, hoje Igreja Presbiteriana da Silva Jardim, no dia 26 de julho de 1959, sobre o texto de Hebreus 4.9: “Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus”.

 

O presbítero Aníbal Correia faleceu no dia 5 de agosto de 1959, uma semana antes do transcurso do centenário da obra presbiteriana no Brasil. Suas últimas palavras foram: “Eu vou para a companhia de Jesus Cristo, o meu Salvador”. Havia sido investido recentemente na função de presbítero da Igreja Presbiteriana de Curitiba. A sua última carta, escrita no dia do seu falecimento, foi dedicada ao seu grande amigo e companheiro de lutas, o Rev. Harold H. Cook. Poucas semanas mais tarde, o Rev. Pascoal Luiz Pitta, então pastor da Igreja de Ponta Grossa, escreveu sobre ele: “Ainda bem pouco antes de o Senhor o ‘aposentar’, cá esteve, sempre alegre e folgazão, amigo de todos, que exultavam com a sua presença agradável”.

 

O presbítero Aníbal foi casado com Aydee Silva (D. Zica), nascida em Ponta Grossa em 30 de janeiro de 1892 e falecida em Curitiba em 15 de agosto de 1987. Tiveram sete filhos: Deni (1921), Aymée (1922), Jáder (1924), Dionéa (1926), Dirce (1927), Arody (1929) e Areli (1933), todos nascidos em Ponta Grossa, exceto Dirce, que nasceu em Marechal Malet. Areli da Silva Correia foi diácono e presbítero da Igreja Presbiteriana de Curitiba. Aymée foi casada com o presbítero Dr. Otto Rickli, nascido em 10 de dezembro de 1922 e falecido em 30 de junho de 1982. Otto nasceu numa localidade rural do município de Prudentópolis, hoje no município de Imbituva. Cursou medicina na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, formando-se em 1955. Casou-se em 3 de abril de 1956, fixando residência na cidade de Guarapuava, em cuja igreja foi presbítero por muitos anos, principalmente no pastorado do Rev. Alcides Augusto de Matos. O casal teve dois filhos: Ralf Rickli (1957) e Elfride Maria Nuspl Rickli (1964).

 

Os Rickli foram uma das muitas famílias de origem germânica que se filiaram à igreja presbiteriana no Estado do Paraná e têm dado contribuições significativas à causa do evangelho. Vários pastores procederam dessa família, tais como os Revs. Martinho Rickli, Roberto Rickli Sobrinho, Milton Rickli, Acir Rickli e outros mais recentes. Algumas outras famílias presbiterianas de origem suíça ou alemã no mesmo Estado são as seguintes: Pugsley, Neiverth, Schneider, Schulze, Pobbe, Horst, Mereth e Scheidt.



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