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Dr. Eliézer dos Santos Saraiva (1879-1944)

Alderi Souza de Matos

  

Eliézer dos Santos Saraiva nasceu em São José, nas proximidades de Florianópolis, Santa Catarina, no dia 13 de novembro de 1879. Era filho de Ana Felícia da Silva e do ex-sacerdote Francisco Rodrigues dos Santos Saraiva (1834-1900). O velho Santos Saraiva, filho de um rabino espanhol, foi um destacado intelectual e filólogo, sendo conhecedor de vários idiomas antigos e modernos. Escreveu um famoso Dicionário Latino que continua a ser publicado até hoje. Também foi autor de Harpa de Israel, uma versão dos salmos a partir do original, e colaborou com diversos periódicos. Atendendo a um convite do Rev. George Chamberlain, em 1892 tornou-se professor do Mackenzie College, onde lecionou história universal, português, latim e literatura portuguesa e bíblica. Converteu-se ao evangelho, mas não chegou a professar a fé na igreja evangélica.

 

O jovem Eliézer formou-se em engenharia civil no Mackenzie e trabalhou como assistente chefe no Instituto Astronômico e Geográfico de São Paulo (Serviço Meteorológico e Observatório Astronômico). Inicialmente foi membro da 2ª Igreja Presbiteriana de São Paulo, que havia sido organizada em 13 de outubro de 1893 e foi pastoreada durante vários anos pelo Rev. Modesto Carvalhosa. Em 25 de agosto de 1900 essa igreja fundiu-se com a Igreja Filadelfa, organizada em 22 de setembro de 1899, dando origem à Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo. Assim sendo, menos de dois meses após o falecimento de seu pai, Eliézer foi um dos membros fundadores da Igreja Unida. No dia 1º de junho de 1901, sua mãe, Ana Felícia da Silva Saraiva, também foi arrolada nessa igreja, por carta de transferência da Igreja de Florianópolis.

 

Eliézer fundou a Sociedade do Esforço Cristão na sua igreja em setembro de 1900, presidindo-a até 1907. Foi um dos maiores propulsores dessa organização para jovens e adultos, cuja 1ª Convenção Nacional realizou-se em 25 de novembro de 1902, na própria Igreja Unida. Por vários anos, foi dedicado secretário da Junta Nacional dessa entidade e também da sua União Sul-Americana. Na Igreja Unida, havia dois grupos do Esforço Cristão, sendo que o de adolescentes e jovens era denominado Esforço Juvenil. Foi ainda um dos fundadores da Aliança Evangélica, em 23 de março de 1902, sendo eleito 1° secretário. No dia 18 de abril de 1903, foi eleito presbítero pela Assembléia Geral da igreja (em primeiro escrutínio, com 26 votos), junto com o Dr. Antônio Teixeira da Silva, tio do Rev. Erasmo Braga (em segundo escrutínio, com 17 votos). Foi ordenado em 31 de maio, tendo atuado como secretário do conselho de 1903 a 1906.

 

Sua maior contribuição à Igreja Unida foi no âmbito da educação cristã. Foi nomeado superintendente da escola dominical em 20 de novembro de 1906, exercendo essa função até 15 de julho de 1907. Por razões desconhecidas, renunciou ao presbiterato em 20 de julho de 1907, mas continuou a colaborar ativamente com a igreja. Em 1908, auxiliou na direção dos cultos, especialmente às quintas-feiras e nas ocasiões em que o pastor interino, Rev. William C. Porter, então residente em Campinas, não podia ir a São Paulo. No mesmo ano, voltou a ocupar a superintendência da escola dominical e nos anos seguintes colaborou como professor da mesma, durante a fase final do pastorado do veterano Rev. Modesto Carvalhosa.

 

Em 1913, com a posse do Rev. Matatias Gomes dos Santos, a igreja tomou um novo impulso. Eliézer envolveu-se no projeto de construção do belo templo da rua Helvetia, tendo feito parte da comissão de exame de contas, ao lado de Carlos José Rodrigues. Em 1920, foi nomeado diretor-superintendente das escolas dominicais da igreja (sede, Lapa, Casa Verde e São Caetano). O Anuário da igreja dizia que ele, “com muita inteligência e raro zelo, tem envidado todas as suas forças e invencível boa vontade para que a benemérita instituição, que prepara o futuro do evangelismo, se desenvolva e se consolide”. Na ocasião, apresentou um complexo e detalhado “Plano de Organização” da escola dominical com dezoito seções que abordavam departamentos, oficiais, professores, reuniões de oficiais e professores, escolas filiais, nomes das classes, assembléias, horários, prêmios e recompensas, ginástica, dias especiais, bem como a descrição de cada um dos sete departamentos.

 

Em 1922, sugeriu à assembléia geral da igreja a necessidade de adquirir terrenos e construir templos para as novas congregações que surgiam a partir das escolas dominicais. A assembléia aprovou unanimemente seu relatório e proposta, lançando em ata um voto de reconhecimento ao Dr. Eliézer “pela grande atividade e consagração ao trabalho da escola dominical”. Em 1924, ele relatou à assembléia a existência de 10 escolas dominicais, 69 classes, 23 oficiais, 69 professores, 760 alunos, 68 membros do Departamento do Lar e 40 membros do Departamento do Berço, num total de 960 pessoas arroladas na escola dominical. Em 1928, esses números haviam subido para 19 escolas dominicais, 108 classes, 53 oficiais, 104 professores, 1035 alunos e 1192 pessoas arroladas em todas as escolas. As novas escolas eram as da Missão Nipo-Brasileira (sede e Santana), Imirim, Perdizes, Barra Funda, Bom Retiro, São Bernardo, Tremembé, Bela Vista, Higienópolis, Vila Monte Alegre, Osasco, Vila Mariana, Vila Pompéia, Canindé e até mesmo uma Escola Vespertina, buscando atrair pessoas que habitavam nos cortiços em torno da igreja sede.

 

Tendo estudado a organização mais pedagógica das escolas, que eram, no princípio, voltadas apenas para a memorização do catecismo, foi ele o promotor das primeiras convenções de escolas dominicais. Promoveu encontros de confraternização da sua escola em locais como o Lar das Flores (Suzano) e o Acampamento do Mackenzie, depois Instituto JMC (Jandira), nos quais se discutiam diferentes questões ligadas à educação religiosa. Criou cursos especializados para professores, com resultados muito positivos. No início de cada ano exigia um relatório do que havia sido feito no ano anterior e apresentava um novo programa a ser cumprido. Fez campanhas inteligentes para aumentar o número de alunos. Competente, vibrava com o trabalho, entregando-se a ele de corpo e alma. Isso era facilitado pelo fato de ele residir defronte à igreja. Era tão ativo e dedicado que muitos pensavam ser o próprio pastor da igreja. Foi valoroso colaborador do Rev. Miguel Rizzo Jr., que pastoreou a Unida de 1927 a 1946. O Rev. Júlio Andrade Ferreira o denominou “o paladino da Escola Dominical”.

 

Casou-se quando estava perto de completar cinqüenta anos, com Lígia dos Santos Saraiva. Em 1º de abril de 1933, pediu carta de transferência para a Igreja de Florianópolis, onde passaria a residir, sendo realizada uma festa em sua homenagem. Aposentado do serviço público, viveu por alguns anos na chácara da família em São José, colaborando com a Igreja de Florianópolis e com a escola dominical da mesma. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e escreveu uma biografia do seu ilustre pai intitulada “O Sábio das Picadas”. Traduziu o texto de George Davis, “Oração e Reavivamento”, aparecido inicialmente na revista Unitas e publicado em 1950, em forma de livreto, pela Comissão da Campanha do Centenário da IPB. Segundo conhecidos seus, apesar da sua grande cultura e das altas posições que ocupou na área secular, a sua vida foi uma lição de humildade e fraternidade.

 

Faleceu no dia 19 de junho de 1944. Sua morte se deu em circunstâncias impressionantes. Há tempos vinha adoentado, pois sofria de diabetes. Depois de passar alguns meses em tratamento na capital paulista, ao preparar-se para regressar a Florianópolis, a escola dominical da Igreja Unida promoveu uma reunião de despedida. Ele havia elaborado para essa escola um magnífico plano de reforma. Tendo levado o Conselho da igreja a aprovar o plano, que muito agradou, devia expô-lo igualmente ao plenário da escola dominical. A solenidade começou com um discurso do pastor, Rev. Miguel Rizzo Jr., no qual este expressou todo o reconhecimento da igreja pelo imenso trabalho do Dr. Eliézer. O homenageado comoveu-se até as lágrimas. Nessas circunstâncias é que começou a falar. Falou da forma planejada por cerca de quinze minutos. Ao terminar a exposição, desfaleceu; só conseguiu dizer umas poucas palavras. Passou a noite inconsciente no Hospital Oswaldo Cruz e às oito horas do dia seguinte faleceu. No dia 20 foi realizado o ofício fúnebre no templo da Igreja Unida pelos Revs. Miguel Rizzo Jr., José Borges dos Santos Jr. e Mário de Cerqueira Leite Jr., seguindo-se o sepultamento no Cemitério dos Protestantes. Aproveitando os dias que passou em São Paulo, o Dr. Eliézer estava escrevendo um livro de lições objetivas para a escola dominical. Chegou a escrever 61 lições muito interessantes e ilustradas com desenhos especiais.


 
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