Carlos José Rodrigues (1869-1956)

Carlos José Rodrigues (1869-1956)

Alderi Souza de Matos

 

Falecido há 51 anos e hoje virtualmente desconhecido, o presbítero Carlos José Rodrigues foi, durante a primeira metade do século 20, um personagem muito atuante na sua igreja local – Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo – e na Igreja Presbiteriana do Brasil, tendo ocupado diversos cargos de grande relevância, principalmente como tesoureiro. Ele nasceu na cidade de Limeira, Estado de São Paulo, no dia 21 de julho de 1869. Era filho de Domingos José Rodrigues Júnior e Ana Virgínia Rodrigues. Em 16 de fevereiro de 1893, aos 24 anos, casou-se com Hordália de Camargo, nascida em Pirassununga (SP) em 30 de janeiro de 1876, filha de Marciano do Carmo Aparecido e Eugênia de Camargo.

 

De origem católica romana, no dia 2 de fevereiro de 1901 Carlos foi recebido por profissão de fé e batismo pelo Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa na Igreja Unida, que havia sido organizada em 26 de agosto do ano anterior, tornando-se assim um dos primeiros membros dessa igreja histórica. Em 17 de outubro de 1901, no mesmo ano do seu arrolamento, foi eleito secretário da Assembléia Geral da igreja. Três anos mais tarde, em 30 de junho de 1904, sua esposa foi recebida por jurisdição. Ela havia sido membro da 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo, pastoreada pelo Rev. Eduardo Carlos Pereira e, desde 1903, filiada ao movimento independente.

 

Em virtude do seu zelo, dedicação e integridade, ao longo dos anos Carlos José se destacou na vida da sua igreja, sendo convocado para exercer funções de crescente responsabilidade. Em 16 de fevereiro de 1908, foi incumbido pelo Conselho, na época denominado Sessão ou Consistório,  de “procurar uma localização central e conveniente para a casa de cultos”. A igreja encontrava-se em instalações acanhadas na antiga Alameda dos Bambus, depois Alameda Barão do Rio Branco (hoje Avenida Rio Branco) e fazia planos para a construção de um santuário. A cerimônia de lançamento da pedra fundamental do belo templo da Rua Helvetia, no bairro de Campos Elíseos, ocorreu no dia 1º de janeiro de 1914, no pastorado do Rev. Matatias Gomes dos Santos. A partir do ano seguinte a igreja começou a reunir-se no novo edifício ainda em construção. A inauguração do templo foi realizada solenemente no dia 7 de setembro de 1922, data comemorativa do centenário da independência do Brasil. Carlos José teve intensa participação na campanha de construção e fez parte da comissão encarregada de fiscalizar as obras, além da integrar a comissão de exame de contas da igreja.

 

Carlos José Rodrigues foi eleito presbítero da Igreja Unida no dia 14 de fevereiro de 1915, sendo ordenado no dia 21 do mesmo mês. Em 29 de janeiro de 1919, representou a igreja na reunião do Sínodo Meridional realizada em Caxambu, Minas Gerais. Foi eleito 1º secretário do Sínodo, sendo o Rev. Erasmo de Carvalho Braga reeleito moderador. Em 15 de abril de 1920, Carlos José foi eleito por unanimidade tesoureiro da Igreja Unida, como sucessor do presbítero Gaspar Schlittler, cargo esse que exerceu por dez anos. Durante vinte e quatro anos, a partir de 1924, ocupou a tesouraria da Igreja Presbiteriana do Brasil e do Seminário Presbiteriano do Sul, em Campinas, substituindo o presbítero Gustavo Dias de Assumpção, falecido em 1922. Foi ainda, durante oito anos, tesoureiro da Junta de Missões Nacionais da Igreja Presbiteriana do Brasil.

 

Na Igreja Unida, ele também foi vice-presidente do Conselho, superintendente da Escola Dominical e conselheiro da Sociedade Auxiliadora Feminina. Com os demais presbíteros, dedicou-se de modo especial a visitar os enfermos da igreja. Em 6 de janeiro de 1923, o Conselho o autorizou a angariar recursos em benefício do Rev. Zacarias de Miranda, ex-pastor da comunidade, que se achava enfermo. Em 5 de junho de 1948, já no final da carreira, apresentou projeto de uma campanha visando a construção de um novo templo. No dia 26 de agosto de 1950, ao comemorar-se o cinqüentenário da Unida, ofereceu ao Conselho uma Bíblia que se encontra no arquivo da igreja. Em reconhecimento pelo fiel exercício do presbiterato durante trinta e seis anos, a igreja lhe conferiu o título de presbítero emérito em assembléia realizada no dia 11 de fevereiro de 1951, poucos dias após o transcurso dos 50 anos do seu arrolamento como membro. Na mesma ocasião, esse honroso título também foi conferido ao Dr. Alexandre Maurício Orecchia, engenheiro e professor do Mackenzie.

 

Como recebedor da Companhia Cantareira e posteriormente como funcionário do Estado por trinta e seis anos até se aposentar, o presbítero Rodrigues foi sempre irrepreensível no cumprimento dos seus deveres. Desde a juventude, sempre trabalhou de modo altruísta, pensando nos outros: nos irmãos que ajudou a criar, na esposa e nas filhas que tanto amava, bem como nos órfãos e nas viúvas da igreja, que considerou como pessoas chegadas durante os muitos anos como tesoureiro da igreja nacional. Preocupava-se com os seminaristas, com os evangelistas da Junta de Missões e com as campanhas da igreja. Foi sempre lúcido, amável, sorridente e otimista, além de profundamente leal a todos e fiel aos seus deveres. Revelou-se um amigo dedicado dos seus pastores – Modesto Carvalhosa (1901-1913), Matatias Gomes dos Santos (1913-1926), Miguel Rizzo Júnior (1927-1946) e José Borges dos Santos Júnior (1947-1956) –, pelos quais sempre teve palavras de admiração e respeito. Os principais pastores auxiliares da Unida nesse período de mais de meio século foram Zacarias de Miranda, Erasmo Braga, João Ribeiro de Carvalho Braga, Rodolfo Garcia Nogueira, Renato Ribeiro dos Santos, Jorge César Mota, Mário Cerqueira Leite Júnior, Samuel Martins Barbosa, Amin Aidar Filho e Atael Fernando Costa.

 

Nos cargos que exerceu na Igreja Presbiteriana do Brasil, Carlos José Rodrigues encarava as suas responsabilidades como algo muito pessoal, um trabalho do qual dependia sua própria vida. Escrevia cartas circulares, despachava boletins, visitava igrejas, corria para levar pessoalmente os vencimentos dos professores do seminário ou das viúvas e pastores ao seu alcance. Escrevia a amigos solicitando ofertas e explicando as necessidades da tesouraria, chorando, muitas vezes, em face da situação angustiosa em que se encontravam algumas causas da igreja.

 

O presbítero Carlos José Rodrigues faleceu aos 87 anos no dia 23 de abril de 1956. A cerimônia fúnebre foi oficiada pelo Rev. Atael Fernando Costa, falando em nome do Conselho o presbítero Heitor Gouvêa. O sepultamento foi realizado no Cemitério dos Protestantes. Nessa ocasião, o Rev. José Borges dos Santos Júnior encontrava-se em viagem aos Estados Unidos. D. Hordália faleceu aos 85 anos em 31 de março de 1961, oficiando no seu sepultamento os Revs. José Borges e Jorge Goulart. Nos seus últimos momentos, ela pediu a leitura do seu salmo predileto, o de número 91. O casal teve duas filhas: Haydée de Camargo Rodrigues, nascida em 15 de julho de 1916, e Lígia de Camargo Rodrigues, nascida em 6 de maio de 1919, ambas batizadas pelo Rev. Matatias Gomes dos Santos.



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