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Coronel José Custódio da Veiga (1861-1954)

Alderi Souza de Matos

 

José Custódio da Veiga nasceu no dia 22 de dezembro de 1861 em Nepomuceno, Minas Gerais. Era filho de Francisco Custódio da Veiga e Clara Paulina da Veiga e teve seis irmãos: João, Estevão, Mariana, Alexandrina, Francisca e Francisco. Conheceu o evangelho aos 22 anos, em 1883, no distrito de Cana Verde, município de Campo Belo, ouvindo o jovem pregador Rev. Eduardo Carlos Pereira, em uma de suas viagens missionárias no sul de Minas. Esse pastor havia sido ordenado há apenas dois anos e residia na cidade mineira de Campanha, o seu primeiro campo de trabalho. Muito firme em suas novas convicções, José foi o instrumento para a conversão do seu pai, Francisco Custódio da Veiga, bem como de toda a sua família e de outras famílias importantes aos quais estavam ligados por laços de parentesco – Garcia, Correia e Ribeiro. Consta que o patriarca Francisco, que teria sido visitado pelo Rev. Eduardo Carlos Pereira, tinha uma Bíblia em sua mesa de jantar. Um vizinho, vendo-a, perguntou: “Esse livro é bom?” “Sim”, disse o ancião, “mas se você não quiser mudar de religião, é melhor deixá-lo em paz”.

 

Dez anos após a sua conversão, José conheceu um homem que marcaria profundamente a sua vida e do qual se tornou grande colaborador – o Rev. Samuel Rhea Gammon. Esse missionário norte-americano, quatro anos mais moço que José, chegou ao Brasil no final de 1889, enviado pelo Comitê de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana do Sul, e trabalhou inicialmente em Campinas. Em julho de 1893, passou a residir em Lavras, para onde havia sido transferido o Colégio Internacional. Uma das primeiras localidades onde começou a fazer trabalhos evangelísticos foi exatamente o distrito de São João Nepomuceno, onde residia a família Veiga. Por volta de 1896, Gammon, acompanhado pelo estudante e futuro pastor José Ozias Gonçalves, visitou a fazenda de João Custódio da Veiga, o irmão mais velho de José. Curiosamente, João foi o primeiro a interessar-se pelo evangelho, mas nunca se filiou à igreja. O primeiro membro da família a fazer profissão de fé foi o patriarca Francisco Custódio da Veiga, recebido pelo Rev. Gammon em Lavras, em 1898.

 

A congregação de Nepomuceno, repartida em muitas fazendas de membros e parentes da família Veiga, tornou-se um campo bastante agradável para os missionários, muitos dos quais, mais tarde, foram passar ali as férias. Na biografia que escreveu sobre o marido, Assim Brilha a Luz, Dona Clara Gammon narra um episódio pitoresco. Numa das reuniões em casa do patriarca Francisco, José ficou profundamente atento à mensagem, parecendo que o sermão era somente para ele. Acima dele, num suporte da parede, havia uma vela de sebo. Batida pelo vento, a vela foi se derretendo e o sebo caindo sobre o ombro de José, que nada percebia. Terminado o culto, a vela estava extinta e nas costas dele havia uma pelota de sebo. Em suas visitas àquele distrito, Gammon e José Custódio iam até Congonhal, à casa de uma senhora muito estimada e chamada por todos de tia Geralda. Mais tarde, surgiu naquele local uma igreja. Muitos descendentes dessa senhora foram pessoas consagradas e prestaram valiosos serviços à causa de Cristo.

 

A congregação presbiteriana de Nepomuceno foi organizada em igreja no dia 5 de novembro de 1902, pelos Revs. Álvaro Reis, José Ozias Gonçalves, Alva Hardie e Horace S. Allyn. Alguns dias depois, em 10 de novembro, a mesma comissão organizou a Igreja de São João Del Rei. Curiosamente, a cidade de Lavras, a sede do trabalho missionário naquela região, só veio a ter uma igreja organizada em 14 de outubro de 1911. Com o passar dos anos, a Igreja de Nepomuceno voltou a ser uma congregação, sendo reorganizada em 7 de março de 1943. Em todas essas solenidades houve a presença e participação do presbítero José Custódio da Veiga.

 

José Custódio tinha origem humilde e pobre. Porém, sendo um homem inteligente e laborioso e, além disso, impulsionado pelos valores da fé evangélica, tornou-se grande e próspero fazendeiro. Posteriormente, foi dinâmico vereador em Lavras, representando o seu distrito e contribuindo decisivamente para o desenvolvimento daquela região. Na vida pública, foi ainda membro do Conselho Distrital, juiz de paz e presidente do diretório político de Nepomuceno. Com o seu grande prestígio, influiu junto aos poderes municipais, estaduais e federais a fim de que se concretizasse a oficialização do Ginásio de Lavras, um dos núcleos iniciais do Instituto Presbiteriano Gammon, fato esse ocorrido em 9 de junho de 1906.

 

Alguns anos depois, ele deu outra importante contribuição à obra educativa presbiteriana em Lavras. Em 1908, por iniciativa do Dr. Benjamin Harris Hunnicutt, foi criado o curso agrícola e estabelecida uma fazenda modelo. Porém, havia necessidade de mais terras para o seu futuro desenvolvimento. No ano seguinte, indo a Nepomuceno, o Rev. Gammon foi forçado por uma tempestade a hospedar-se com um fazendeiro. Soube então que ele possuía umas terras em Lavras nas condições que ele desejava para a Escola Agrícola. No dia seguinte, contou a José Custódio o que ocorrera, acrescentando que faltava-lhe o dinheiro (três contos de réis) e a autorização da junta de missões. José respondeu: “Obtenha a permissão e feche o negócio; eu lhe arranjarei o dinheiro em boas condições”. A autorização veio e as terras foram compradas.

 

Como autodidata, José Custódio adquiriu uma cultura respeitável através do estudo da Bíblia e da literatura evangélica que passou a ler com dedicação. Destacou-se pela atuação lúcida e criteriosa nos concílios da igreja, na Câmara Municipal, nos congressos políticos ou de interesse administrativo e técnico. O seu nome ficou ligado a muitas iniciativas valiosas nas áreas da educação, dos melhoramentos públicos e da filantropia, tanto na esfera religiosa quanto secular. Em 1909, quando foi inaugurada a rede elétrica em Lavras, o coronel José Custódio estava entre os presentes. Convidado para o culto em inglês realizado regularmente pelos missionários, orou desta maneira: “Que assim como a luz brilhou por toda a cidade, espantando as trevas, assim pudessem as trevas do pecado e da ignorância ser dissipadas pelo brilho do glorioso evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, no coração do povo”. Acompanhou o Rev. Gammon e outros missionários em inúmeras viagens evangelísticas no sul e oeste de Minas. Foi membro fundador do Presbitério Sul de Minas, organizado em Lavras no dia 12 de março de 1910. Os primeiros membros desse presbitério foram os Revs. Samuel Gammon, Horace Allyn, José Orton (episcopal inglês que trabalhou por algum tempo com a Missão de Lavras), José Ozias Gonçalves, Américo Cardoso de Menezes e Paschoal Luiz Pitta.

 

José Custódio casou-se em primeiras núpcias com Custódia de Oliveira Veiga, com a qual teve dois filhos, Clara e José. Clara foi esposa do coronel Jonas Veiga, seu primo, grande fazendeiro e industrial, que também foi diácono e presbítero da Igreja de Nepomuceno. Tiveram seis filhos (Paulo, Eunice, Silas, João, Daniel e Ilma). José Veiga também foi fazendeiro e comerciante de café. Foi casado com a prima Jandira Veiga, com a qual igualmente teve seis filhos (Júnia, Zulma, Bolivar, Edvar, Mirtes e João). Jonas e Jandira eram filhos de João Custódio da Veiga, irmão mais velho de José Custódio. Dona Custódia faleceu em 28 de outubro de 1928. A segunda esposa de José Custódio foi Maria do Carmo Soares Veiga, com a qual não teve filhos. Seu irmão Francisco Custódio da Veiga (Chiquinho), casado com Castorina Barbosa Veiga, foi um conhecido evangelista em Minas Gerais e Goiás.

 

O presbítero José Custódio também deu uma relevante contribuição na área educacional em sua cidade. Por volta de 1930, a dedicada missionária Ruth Bosworth See, que já havia trabalhado em Lavras, Bonsucesso e Campo Belo, foi convidada para abrir uma escola evangélica em Nepomuceno, sendo essa escola inaugurada em 8 de dezembro de 1931. José Custódio, seu sobrinho e genro Jonas Veiga e Joaquim Garcia construíram um edifício para esse fim, inaugurado no final de 1932, e deram à escola o nome da missionária. A escola evangélica de Nepomuceno encerrou as suas atividades em 1945; porém, mais de meio século depois, em 2001, reabriu com o mesmo nome – Escola Presbiteriana Ruth See. O antigo edifício da escola, ainda existente, é hoje a casa pastoral da igreja presbiteriana.

 

No dia em que completou 90 anos, 22 de dezembro de 1951, o presbítero José Custódio participou da inauguração de um belo templo no bairro de Tia Geralda, na congregação que ele e o Dr. Gammon haviam iniciado. Naquela ocasião, essa congregação rural foi organizada como Igreja Presbiteriana de Congonhal. No dia seguinte, em Nepomuceno, pregou no culto de ação de graças o velho amigo do aniversariante, Rev. Jorge Thompson Goulart, que pastoreou por muitos anos as Igrejas de Lavras e Nepomuceno.

 

Após uma vida longa e abençoada, o coronel José Custódio da Veiga faleceu aos 92 anos no dia 11 de fevereiro de 1954. A cerimônia fúnebre, realizada no dia seguinte, foi oficiada pelos Revs. Frank Fisher Baker, Lawrence Gibson Calhoun e Alfredo Thone Stein. Ao longo dos anos, muitos de seus descendentes têm sido membros e oficiais de diversas igrejas no Estado de Minas Gerais. O Rev. Arnaldo de Oliveira Veiga, seu bisneto, neto do presbítero Jonas Veiga e filho de Silas Veiga, é o atual pastor da Igreja Presbiteriana de Nepomuceno, do Presbitério Alto Rio Grande, Sínodo Oeste de Minas.


 
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