Alderi Souza de Matos
Tertuliano Goulart nasceu no dia 7 de setembro de 1855 na cidadezinha de Bagagem, no Triângulo Mineiro, hoje denominada Estrela do Sul devido ao grande diamante ali encontrado, que recebeu esse nome. Era filho de Joaquim Gonçalves Goulart e Teodolina Mendes de Carvalho. Seus avós paternos foram Martinho Gonçalves Goulart e Ana Francisca Goulart, e os maternos, tenente Francisco de Sales Carvalho e Ponciana Mendes da Luz. Descendia de um grande proprietário de terras de origem francesa, súdito do rei de Portugal, que foi dono de uma grande sesmaria entre as cidades de Piumhi e Formiga. Na infância, o menino “Tula” viu de perto as atividades dos garimpeiros em sua região.
Inicialmente exerceu a profissão de fotógrafo ambulante. Certa vez, em viagem com um tio e com o primo Querubino dos Santos (Bino), visitou uma fazenda em Araxá, onde conheceu a jovem Maria Otília (Marica), sobrinha do proprietário, pela qual se interessou. Casaram-se em Araxá no dia 11 de janeiro ou setembro de 1879. Maria Otília era filha de Isaac Rodrigues de Amorim e Teodósia Rodrigues da Silva.
Pouco antes, em 1878, o primo Querubino havia achado entre os livros do seu pai uma Bíblia. Os dois moços começaram a estudá-la e ficaram impressionados com o seu conteúdo. Na mesma época, viram numa revista um anúncio do jornal Imprensa Evangélica. Fizeram a assinatura e ficaram sabendo pelo jornal que o Rev. John Boyle se dispunha a explicar o evangelho a quem o procurasse. Esse missionário presbiteriano, que havia chegado ao Brasil em 1873, tinha se mudado recentemente para Mogi-Mirim (SP). Escreveram a Boyle, convidando-o para visitá-los. Quando este foi a Bagagem, descobriu que eles haviam se mudado para Araguari, onde finalmente os encontrou. Achando-os preparados, recebeu-os por profissão de fé no dia 13 de julho de 1884. Além de Tertuliano, Maria Otília e Querubino, outras pessoas recebidas na ocasião foram Teodolina Mendes de Carvalho (mãe de Tula), Querubina Furbino de Carvalho (mãe de Bino) e Isolina Goulart Coelho. Esses foram os primeiros crentes presbiterianos do Triângulo Mineiro e de todo o Brasil Central.
Tertuliano voltou a residir em Bagagem. Depois de ter trabalhado como fotógrafo e músico compositor, interessou-se pela arte tipográfica. Idealista, montou a sua própria tipografia e publicou vários jornais em sua cidade: “Bagagem”, “O Garimpeiro”, “Paládio”, “Estrela do Sul” e outros, sendo auxiliado por seu primo. Era ao mesmo tempo o redator, compositor, revisor e impressor dos seus jornais, nos quais divulgou as riquezas e abordou os problemas da região. Defendeu a abolição da escravatura, combateu o jogo e promoveu outras causas relevantes. Destacou-se pela integridade, combatividade e pelo espírito tolerante, generoso.
O Rev. Boyle apegou-se de tal modo a essas pessoas e à região que fixou residência em Bagagem em 1887. A partir de 1889, os dois primos ajudaram o missionário na publicação do valioso jornal O Evangelista. Incentivado por Boyle, Tertuliano tornou-se um profundo estudioso da Bíblia e um autodidata, conhecedor de uma grande variedade de assuntos como política, indústria, comércio, transportes, ciências, legislação, religião, música e algumas línguas. Após intensa atividade evangelística no Triângulo Mineiro e sul de Goiás, na qual contou com o auxílio dos dois primos, o incansável Boyle faleceu aos 47 anos em 4 de outubro de 1892.
Tertuliano havia vendido ao Rev. Boyle a sua pequena tipografia para a confecção de O Evangelista. Suspensa a publicação desse jornal pela morte do missionário, readquiriu as oficinas já bastante melhoradas, levando-as para Araguari (a antiga Brejo Alegre), onde novamente fixou residência. Nessa cidade, fundou no dia 21 de abril de 1894 o jornal “Araguari”, que prestou extraordinários serviços àquela cidade. Essa foi a fase mais fecunda de sua vida pública, na qual defendeu a extensão das ferrovias até a sua região e muitos outros projetos de interesse da coletividade. Toda a família o ajudava na confecção do jornal, até mesmo os filhos pequenos. Após 36 anos de atividade, premido por dificuldades financeiras, teve de vender o seu jornal. Também manteve por pouco tempo outro periódico, “A Nova Cruzada”, depois transferido para Ipameri, em Goiás.
A Igreja Presbiteriana de Araguari foi organizada no dia 5 de agosto de 1893 por uma comissão nomeada pelo Presbitério de Minas: Rev. Álvaro Reis, Rev. Caetano Nogueira Júnior e Pb. Lourenço de Almeida. Parece que Tertuliano foi residir outra vez em Bagagem, pois só foi arrolado na Igreja de Araguari em 1896, no pastorado do Rev. Charles Morton, quando foi eleito diácono. Em 1901, sendo pastor o Rev. Alfredo Borges Teixeira, foi eleito presbítero, cargo que exerceu com grande dedicação por quase 40 anos, tendo sido por muitas vezes secretário do conselho. Acompanhou os pastores e missionários em muitas viagens evangelísticas e fez outras sozinho. Maria Otília foi uma das fundadoras da Sociedade de Senhoras da igreja, em 1896.
O casal Goulart teve doze filhos, dos quais onze chegaram à maturidade: Clodomir, casado com Ormezinda Santos (filha de Querubino), foi jornalista, redator do “Araguari” e dirigiu por muitos anos o periódico O Puritano, no Rio de Janeiro; Elfrida, casada com Augusto Carneiro, foi jornalista e fundadora do jornal feminino “O Miosótis”; Ester G. Siqueira foi professora e residiu em Paracatu; o Rev. Jorge Thompson Goulart (1889-1967), casado com Ignez Cavazza, lecionou por muitos anos no Seminário Presbiteriano de Campinas; Ramiro, casado com Dolores Franco, foi jornalista e depois comerciante em Belo Horizonte e São Paulo; Pérola casou-se com o Rev. Galdino Moreira (1889-1982), que foi pastor da Igreja Presbiteriana do Riachuelo (RJ) e diretor de O Puritano; Teodósia (Zizita) residiu em Londrina e São Paulo; Perina, casada com Álvaro Gonzaga, residiu no Rio de Janeiro; Elsa foi casada com Antônio Resende Veloso; Paulo, casado com Scila Machado, foi jornalista e alto funcionário do Ministério da Viação; Célia foi esposa de Eurico de Freitas, prefeito de São João da Mata, Bahia.
Depois de uma longa vida de serviço a Deus e à coletividade, o presbítero Tertuliano Goulart faleceu com quase 84 anos no dia 1º de junho de 1939. Em 1948, o seu nome foi dado a uma das ruas da cidade. Até hoje, muitos de seus descendentes são membros da Igreja Presbiteriana de Araguari e de outras comunidades. Seu irmão Américo Goulart foi o primeiro presbítero da Igreja de Araguari, à qual deu inestimável colaboração em vários setores. O primo e companheiro inseparável Querubino dos Santos era casado com Ambrosina Carneiro Santos e teve numerosa família. Foi administrador e revisor do jornal O Evangelista em Bagagem e depois o reabriu em 1900 em Araguari. Tornou-se presbítero da Igreja de Araguari em 1897 e foi também secretário do conselho, membro da comissão de construção do templo, pregador, superintendente da Escola Dominical e professor de classe de crianças. Além de jornalista, foi vereador e secretário da Câmara Municipal. Em 1917, mudou-se com a família para São Paulo, onde freqüentou a Igreja Presbiteriana Unida.