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Manuel Ribeiro dos Santos (1837-1907)

Alderi Souza de Matos

 

Manuel Ribeiro dos Santos nasceu em Resende, Província do Rio de Janeiro, no dia 17 de junho de 1837 (uma fonte diz que ele teria nascido em Pouso Alto, MG). Era o segundo filho de Francisco Ribeiro da Silva e Ana Joaquina de Oliveira. Seu único irmão, cerca de três anos mais velho, chamava-se José. Em 1838, estando a família em Resende, ocorreu uma tragédia. Francisco, conhecido como Chico Duro, teve uma forte desavença com o sogro, Antônio José de Oliveira, e tentou assassiná-lo a tiros, mas acabou sendo morto por este com um disparo certeiro. Antônio reuniu apressadamente os pertences da família e, acompanhado da filha viúva, com cerca de 20 anos, e dos dois meninos órfãos, foi residir nas proximidades de Cambuí, no sul de Minas. Tornou-se um fazendeiro conceituado. Era um homem severo, cumpridor de seus deveres, de bom caráter. Viveu ainda bastante tempo para cuidar da filha e acostumar os netos ao trabalho e aos estudos.

 

Manuel aprendeu a ler em Cambuí, tendo como professor de primeiras letras um português ilhéu instruído e dedicado. Aos 17 anos, já se manifestava no jovem a vocação de mestre-escola, pois vinha dando aulas às crianças da redondeza, com agrado geral. Pouco tempo depois, o fazendeiro José Ferreira dos Santos, residente na mesma região, tendo muitos filhos, convidou o jovem professor para lecionar em sua casa. Manuel desincumbiu-se bem da tarefa e acabou casando-se com uma das filhas do fazendeiro, Maria das Dores da Conceição. O enlace realizou-se em 1859 na então vila de São José do Paraíso, hoje Paraisópolis, onde o jovem casal passou a residir. Aí nasceram os dois primeiros filhos, Pio e Joaquim. Mais tarde iria nascer a filha Francisca.

 

Em 1867, a família deixou a sede da vila e foi para a localidade de Bom Retiro, na zona rural. Um ano depois, mudaram-se para a pequena vila de Borda da Mata, então pertencente a Pouso Alegre, onde Manuel abriu uma escola. Em Borda da Mata, tornou-se amigo do jovem Joaquim Honório Pinheiro (1852-1934), então de conduta reprovável, entregando-se ambos à jogatina. Corria o risco de desmoralizar-se perante as famílias de seus alunos e mesmo de ter prejuízos financeiros.

 

Naquela época foi organizada em Borda da Mata, pelos Revs. Robert Lenington e Emanuel N. Pires, a primeira igreja presbiteriana de Minas Gerais (23/05/1869). A organização ocorreu na propriedade de Antônio Joaquim de Gouvêa, situada em Contendas, a meia légua da sede da vila. Desde o início de 1867 essa região vinha sendo visitada por pregadores presbiterianos, como os Revs. José Manoel da Conceição, Emanuel Pires e Hugh Ware McKee e os candidatos ao ministério Miguel Gonçalves Torres e Antônio Pedro de Cerqueira Leite. A principal razão dessas visitas missionárias era o fato de que os Gouvêa tinham parentes em Brotas (SP), que eram membros fundadores da terceira igreja presbiteriana do Brasil, organizada em 13 de novembro de 1865. Manuel Ribeiro conhecia os Gouvêa de Borda da Mata. Mais tarde, seu amigo Joaquim Honório Pinheiro se converteu ao evangelho e veio a casar-se com uma filha de Antônio Francisco de Gouvêa, da Igreja de Brotas.

 

Em setembro de 1870, Manuel mudou-se para Santa Rita de Caldas, onde sua esposa tinha parentes influentes. Em 1879, tomou duas decisões importantes: levou a filho Joaquim para São Paulo, a fim de trabalhar no comércio e estudar, e mudou-se para Rio Claro, no interior da província, onde viviam parentes e conhecidos saídos de Borda da Mata. Dedicou-se ao comércio e matriculou os filhos Pio e Francisca no conceituado Colégio Dagama, dirigido pelo Rev. João Fernandes Dagama (1830-1906). Seus contatos com esse missionário e a influência do meio em que passou a viver, principalmente do velho amigo Joaquim H. Pinheiro, foram fatores decisivos em sua conversão. Adquiriu um sítio na localidade de Serra D’Água. Tendo falecido a primeira esposa, casou-se em segundas núpcias com Isabel Maria de Paula, com a qual não teve filhos.

 

No dia 26 de agosto de 1882, Manuel e a esposa foram recebidos por profissão de fé e batismo na Igreja Presbiteriana de Rio Claro pelo Rev. Robert Lenington, estando o Rev. Dagama em viagem aos Estados Unidos. Mais tarde mudou-se para Dois Córregos, onde abriu um armazém de secos e molhados. Em 1900, voltou a residir em Rio Claro e no mesmo ano adquiriu em sociedade com o filho Joaquim uma fazenda de café em Três Saltos, a uma légua de Torrinha, à qual foi dado o nome de Fazenda Olivete. Nas proximidades havia uma congregação da Igreja de Brotas. O casal residiu ali por um ano, voltando definitivamente para Rio Claro em 1901. Manoel era oficial da Guarda Nacional e foi vereador e intendente em Rio Claro.

 

Manuel foi eleito presbítero da sua igreja no dia 1º de julho de 1885, sendo ordenado cinco dias depois pelo Rev. João Fernandes Dagama. Na mesma ocasião foi ordenado diácono o seu filho Joaquim. Manuel foi o quarto presbítero dessa antiga igreja, depois de Severino José de Gouvêa, Herculano Ernesto de Gouvêa e Antônio Dantas Correia. Exerceu esse ofício até o fim da sua vida, tendo sido por muitos anos secretário da Sessão (Conselho). Nos dias 25 de agosto a 7 de setembro de 1887, em São Paulo, participou de uma das últimas reuniões do Presbitério do Rio de Janeiro antes da criação do Sínodo Presbiteriano. Após a criação do Sínodo pertenceu ao Presbitério de Minas e, a partir de 1900, ao Presbitério Oeste de São Paulo, nos quais teve assídua participação. Compareceu a várias reuniões do Sínodo, como as de 1897 e 1906. Foi um presbítero exemplar: zeloso, constante, conselheiro, paciente e solícito.

 

Uma das últimas solenidades a que compareceu foi a inauguração do templo da Igreja Presbiteriana de Três Saltos, realizada perante grande assistência no dia 7 de março de 1907. No final do mesmo ano, adoeceu gravemente. A estima em que era tido por toda a população pode ser avaliada pela enorme quantidade de visitas que recebeu nas últimas semanas da sua vida; houve domingos de mais de 100 visitas, tanto de Rio Claro quanto de outros lugares, alguns muito distantes. Nos últimos dias, apesar de debilitado por uma hemorragia nasal constante, que podia estender-se por 30 horas consecutivas, aconselhou pessoalmente a todos os que o visitavam, transmitindo-lhes de forma comovente a paz, a alegria e o conforto que lhe enchiam a alma. Faleceu no dia 1º de dezembro de 1907, às 8:15 horas da manhã. Oficiaram em seu sepultamento no Cemitério Alemão de Rio Claro os Revs. Herculano de Gouvêa e Theodor Koeller, da Igreja Luterana.

 

O presbítero Manuel Ribeiro teve três filhos do primeiro casamento: Joaquim Ribeiro dos Santos, fazendeiro, educador e homem público; Pio Ribeiro dos Santos, guarda-livros da municipalidade de Rio Claro; e Francisca Ribeiro dos Santos, casada com Davi A. dos Santos, industrial em São Paulo e membro da I. P. Unida. O filho mais velho, Joaquim Ribeiro dos Santos (1865-1954), que residiu em várias cidades do interior de São Paulo, principalmente em Brotas, Rio Claro e Campinas, foi um dos presbíteros mais destacados, dinâmicos e influentes da Igreja Presbiteriana do Brasil. Sua história já foi publicada por seu neto Fausto Ribeiro Teixeira (Coronel Joaquim Ribeiro dos Santos: Político, Filantropo, Educador – Campinas, 1965) e pelo autor deste histórico (Pioneiros Presbiterianos do Brasil: 1859-1900: Missionários, Pastores e Leigos do Século 19 – São Paulo, 2004).


 
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